Foto: Elizabet Oliveira

Se quando Vera conheceu Cam em Nova Iorque já dominava a cidade, Cam era veterano. Na altura em que se conheceram, a gestora portuense encontrava-se a viver na Grande Maçã há cinco anos e Cam, um fotógrafo de Los Angeles com raízes mexicanas, há vinte. Uniram-se devido à paixão, ao sonho de criar uma unidade turística e à vontade de viver uma vida sustentável. Os sonhos em comum permitiram que a relação evoluísse, que trocassem alianças e que começassem um projeto a dois num lugar à partida improvável, mas que os conquistou assim que o descobriram: o Cercal do Alentejo. Tinha o que procuravam: ruralidade, terras férteis para cultivar, belas praias para surfar, vida selvagem e flora diversificada. Assim, deixaram para trás o sonho americano e agarraram o deles.

Instalaram-se na Quinta em fevereiro de 2020, na mesma altura em que surgiam os primeiros casos de COVID-19 no país. Para Vera e Cam, tudo era novo: a pandemia – tal como para todos nós –, o lugar onde se estavam a instalar e o projeto em que se aventuravam. Mas navegar pelo desconhecido não os intimidou. Quando o país entrou pela primeira vez em quarentena não desistiram embora fossem vários os desafios. Habituados à vida e à dinâmica nova-iorquina, tiveram que esquecer a “Amazon” e procurar formas de depender pouco de Lisboa, cidade que teriam que recorrer para fazer compras e que, devido ao confinamento, não podiam contar.

“A COVID ajudou-nos a encontrar o nosso caminho”, partilha Cam enquanto degustávamos umas deliciosas empadas que Vera preparou para o jantar do primeiro dia da nossa estadia na quinta. Vera havia aprendido a fazer aquelas empadas especiais com a mãe – uma receita de família – e agora partilhava connosco. Ao longo do jantar, sentimos que estávamos em casa de amigos. Enquanto conversávamos na companhia de um vinho orgânico, o jantar ia sendo preparado por Vera e, sempre que preciso, Cam levantava-se para a ajudar.

Foi curioso perceber que aquilo que podia ter sido um entrave à partida – o primeiro confinamento – ajudou-os a estruturar e a implementar o projeto de forma sustentável tal como desejavam. Com a obrigação de “ficar em casa”, o casal percebeu que tinha de encontrar as soluções localmente. Começaram a conhecer os “vizinhos”, a identificar o que a comunidade podia oferecer e também a perceber de que modo podiam contribuir para a mesma.

De repente, existiam pernas para andar. Tinham uma quinta com potencial para cultivar vegetais, frutos e criar galinhas. Hoje, há uma grande variedade de árvores de fruto na Camarena. Encontramos nogueiras, laranjeiras, marmeleiros, macieiras, figueiras, nespereiras, diospireiros e muito mais. Também existe um galinheiro onde se colhem ovos pela manhã para o pequeno-almoço. Os produtos que a quinta não produz, adquire de fornecedores locais. Vera explica-nos que muitas vezes os pratos são criados com base naquilo que há e não ao contrário, pois, aqui, respeita-se a sazonalidade dos alimentos e só se trabalha com produtos frescos. Assim, espera-nos uma cozinha saudável, caseira, mas também contemporânea, refletindo a história e as vivências do casal.

Na manhã do nosso segundo dia na Quinta, tivemos a oportunidade de experimentar uma aula de Yoga que, para além de hóspedes, atrai membros da comunidade local. Envolvidos pela brisa matinal, subimos a colina até à plataforma Ground, que se encontra rodeada de pinheiros e sobreiros, onde nos esperava a instrutora Nina Briot que, ainda que não desse aulas para iniciantes, deixou-nos à vontade para seguir os movimentos sem exceder os limites dos nossos corpos. Foi o começo de manhã perfeito pois colocamos a mente e o corpo em comunhão com a natureza.

A Quinta Camarena promove um estilo de vida saudável, mas de forma relaxada. Esta é também uma das bandeiras do espaço: mostrar que é possível cuidar do corpo e da alma de maneira descontraída e divertida, sem renunciar aos prazeres da vida. É por isso que vai organizando os retiros “Not So Serious”.

QUINTA CAMARENA

Vale de Santa Maria, 7555-276, Cercal do Alentejo

Contactos:

Quinta: 269 036 613

Vera:  967 233 547

Cam: 937 393 987

E-mail: quintacamarena@gmail.com

Seguiu-se o brunch, onde sentamo-nos todos à mesa e comemos ovos mexidos acompanhados por um saboroso bagel, que, embora de origem europeia, não nos deixa de remeter para Nova Iorque.

Depois passeamos pela Quinta à descoberta de recantos onde podemos simplesmente relaxar a ler um livro, escrever ou ouvir música. A Quinta também convida a caminhadas (porque não?) para respirar ar puro, arrumar ideias, tomarmos contacto com a natureza ou para passear o cão que, sim, é bem-vindo. Há um ginásio e uma piscina para os dias quentes. Os mais aventureiros podem trazer ou alugar uma bicicleta e explorar os trilhos para lá da Camarena que os poderão levar a vilas ou praias. Existe também a possibilidade de parar para observar aves. Há muito para explorar nesta região e, ao contrário do que julgamos, é fácil preencher os dias que, tal como Vera nos disse no primeiro dia, acabam por ser muito curtos.

Aos poucos a Quinta vai se construindo e o objetivo é torná-la sustentável a todos os níveis, incluindo o energético. Para já, tem capacidade para mais ou menos 14 pessoas, mas esperam ter mais quartos disponíveis no verão de 2022. Tudo dependerá do decorrer das obras de construção que têm evoluído de forma lenta por ser difícil encontrar mão-de-obra naquela área para executar o trabalho. Para além de Vera e Cam, o espaço só tem mais uma colaboradora a tempo inteiro e tem as portas abertas para voluntários através da plataforma Workaway. A colaboração com voluntários tem sido enriquecedora pois muitos acabam por deixar o seu contributo na Quinta.

Mais tarde, visitamos a Herdade do Cebolal, um negócio de família que prima pela sustentabilidade e inovação, que se situa na aldeia de Vale das Éguas. À nossa espera encontrava-se a produtora Isabel Mota Capitão, acompanhada pelo marido, e pronta para nos contar a história da Herdade e mostrar como os vinhos são produzidos.

HERDADE DO CEBOLAL

Herdade do Cebolal, 3013, Vale das Éguas,7540-650, Santiago do Cacém

Contactos:

914 642 466

Esta é uma herdade secular que se manteve sempre na mesma família. Os primeiros vinhos começaram a ser produzidos em 1876 e, agora, tanto a produção como o desenvolvimento estão nas mãos de Isabel e do filho, Luís Capitão.

Constituída por 85 hectares, dos quais 20 são de vinha e 65 de floresta, a Herdade encontra-se a trabalhar na regeneração e reestruturação do património de modo a utilizar técnicas amigas do ambiente. “Devemos pensar na natureza como uma família”, explica-nos Isabel enquanto nos mostra que escutando e observando a natureza conseguimos encontrar soluções para produzir de forma bem-sucedida sem recorrer a processos químicos. Por exemplo, a sombra dada por uma árvore pode ajudar a criar nova vida e as abelhas, que, tantas vezes receamos, são “co-workers” pois afastam as pragas.

Quinta Camarena, um lugar sustentável onde se criam boas memórias
Produtora Isabel da Herdade do Cebolal. Foto: Elizabet Oliveira

Levamos da visita à Herdade lições de sustentabilidade. Percebemos que cada elemento na natureza tem o seu papel e que, se coordenado, tudo pode funcionar de forma orgânica.

Acabamos a visita com uma prova de vinhos e com a vontade de voltar para a “cocaria”, uma experiência gastronómica que acontece de junho a outubro. Nesta experiência, a refeição é cozinhada em lume de chão muito lento, normalmente debaixo de um chaparro. A “cocaria” recria as refeições típicas dos trabalhadores do campo. Como chegavam cedo, deixavam o que traziam (legumes, pão, um pouco de carne ou peixe) ao cuidado de uma pessoa e é daqui que nasce a expressão “ficar à coca”. Quem “ficava à coca” depois entregava um pequeno pote de barro a cada trabalhador com os alimentos que trouxeram cozinhados.

Depois da prova de vinhos, onde ainda podemos apreciar o pôr do sol a partir de uma varanda, seguimos para o Cercal onde jantamos no restaurante Passarinho na companhia de Vera e Cam que, mais do que anfitriões da Camarena, acabam por ser embaixadores da terra que os acolheu promovendo também o melhor que existe ao seu redor. Provámos o polvo à pescador e a carne de porco alentejana com camarão que acabou por completar a viagem por nos levar aos sabores típicos da região.

Já no quarto onde nos hospedamos, renovado pelo casal e decorado com peças vintage e obras fotográficas a preto e branco de Cam, escrevi no meu bloco de notas que a Quinta Camarena era um lugar onde se criam memórias, mais do que um espaço onde se realizam experiências, que não faltam.

Na manhã seguinte, antes de nos despedirmos da Quinta e enquanto tomávamos o pequeno-almoço, percebi que aquela era a intenção do espaço durante uma última conversa com a Vera onde explicava que queriam que os hóspedes sentissem que estavam em casa de amigos. “Ficamos super contentes quando as pessoas trocam os números de telefone”, algo possível pelas atividades que praticam em comum organizadas pelo casal e aos momentos de convívio à hora da refeição.

Com a Quinta Camarena, Vera e Cam procuram “ter um impacto positivo na comunidade e na vida das pessoas.”

Despedimo-nos com um "até já" e dirigimos até à praia do Malhão onde passeamos pelo passadiço e apreciamos a paisagem antes do regresso a Lisboa.

*O SAPO Viagens visitou a Quinta Camarena a convite do espaço

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