Entre 1949 e 1990, cerca de quatro milhões de pessoas deixaram a República Democrática Alemã (RDA) para tentar uma vida na República Federal Alemã (RFA). Cerca de um milhão e 35 mil passaram pelo Centro de Refugiados de Marienfelde, aberto em 1953.

Com um total de 25 edifícios, Marienfelde foi, até 1990, o principal centro de acolhimento para refugiados da Alemanha oriental. Não só fornecia habitação, como também provisões (desde roupa, passando por comida), e uma autorização oficial que permitia viver no lado ocidental de Berlim e do país.

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Pouco depois de se entrar no centro, onde hoje existe um museu gratuito, um conjunto de binóculos mostra imagens de paisagens, de produtos, de capas de álbuns de música, de roupas.

A vida com que muitos dos alemães que viviam sob o regime soviético sonhavam. A forma como esses mesmos alemães acreditavam que era a vida do outro lado.

Nessa primeira sala do edifício principal do centro de Marienfelde explicam-se com números, imagens e vozes de testemunhas, os motivos que levaram a que tanta gente quisesse abandonar a vida no Leste. Mostra também o fenómeno inverso.

Se quatro milhões, a maioria até à construção do muro de Berlim, em 1961, deixaram a Alemanha oriental para trás, cerca de 600 mil fizeram o percurso inverso. Muitos deles voltaram à RDA por razões familiares ou por não se terem conseguido adaptar a uma nova vida no “West”. Começar de novo nem sempre era fácil.

Barbara Setraschen chegou ao centro em 1977. Conseguiu fugir por um túnel com o filho de nove anos e uma pequena carteira. Uma fotografia dos dois, um papel do registo e a história aparecem no centro de uma das salas.

Na RDA era enfermeira pediátrica. Na RFA já não era nada. Numa gravação, conta a dificuldade dos primeiros tempos, todos os processos que envolveram o registo e os tempos de espera.

“Como é que eu haveria de saber todas essas coisas”, questiona. Apesar de ter deixado o certificado de habilitações para trás, acabou por conseguir voltar a exercer e começar uma vida nova.

Mas nem todos tiveram a mesma sorte. Para conseguir obter a cidadania era necessário passar por vários processos que nem todos superavam com sucesso.

Além da inspeção médica, era necessária uma análise de competências ou um exame preliminar. No total, 12 etapas que, no centro de Marienfelde, se concentravam no mesmo edifício para tentar tornar todo o processo mais ágil.

Este longo processo de entrada permitia à RFA perceber as verdadeiras motivações de quem pedia refúgio e, ao mesmo tempo, aceder a informação privilegiada sobre o regime oriental.

Passar pelo “Allierte Sichtungsstellen” era, para os que chegavam, um processo frustrante e desanimador que os fazia crer que a Alemanha ocidental não era assim tão livre, obrigando-os, muitas vezes, a comprometer a família que tinham deixado para trás.

Até à instalação do muro, em 1961, Marienfelde chegava a receber duas mil pessoas por dia. Fotografias a preto e branco, um pouco por todo o museu, mostram aglomerados de pessoas à espera. Motivações exclusivamente económicas não eram aceites, mas ninguém era devolvido à RDA.

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A inspeção permitia também descobrir espias, mas houve um, conta esta exposição, que durante vários anos trabalhou nos registos deste centro de refugiados. A RDA considerava Marienfelde um “objeto inimigo” e fazia todos os esforços para se infiltrar.

Götz Schlicht só foi exposto em 1993 e incriminou centenas de cidadãos da Alemanha de Leste, descobrindo planos de fuga, e colaboradores. Ouviu os segredos de muitos e revelou-os em 240 cartas escritas em código.

Até à queda do muro, em novembro de 1989, o regime oriental tentou tudo para conseguir dissuadir os que pensavam abandonar. Primeiro com publicidade, filmes, posters, artigos de jornal. Depois, vieram o arame farpado, as torres de vigia, as minas e as armadilhas.

Os que pediam um visto para sair eram tratados como traidores, os que tentavam fugir e não conseguiam eram interrogados e presos, os que conseguiam cruzar a cortina de ferro deixavam sempre algo atrás.

Em Marienfelde, junto às divisões que replicam os quartos da altura, há várias janelas abertas por onde entram alguns raios de sol iluminados pelas gargalhadas de crianças. O centro ainda hoje serve esse propósito e acolhe refugiados de vários países do mundo.

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