Um  momento de introspeção ao longo da Ásia

Texto e fotografias por Manuel Fernandes

Desde o primeiro artigo que escrevi, passei mais um mês e meio na Índia, três semanas no Vietname e um mês no Camboja. Hoje atravessei a fronteira para a Tailândia, onde irei permanecer durante quase dois meses.

O mês no Camboja foi passado numa escola nos arredores de Siem Reap, a tentar ensinar inglês a jovens com idades compreendidas entre os 8 e os 16 anos, consoante a turma.

Gostei bastante do tempo que passei com eles, porque foi uma oportunidade para reviver tempos mais simples, tempos de infância, onde a nossa maior preocupação eram monstros e fantasmas e as nossas tardes resumiam-se a jogar à apanhada. Além disso, relembrar-me, através daquelas crianças, dos pequenos pormenores que me deixavam radiante, como por exemplo um elogio de um professor, fez-me ficar nostálgico.

Aquilo que gosto mais nas crianças, para além da pureza de espírito, tantas vezes referida, é a leviandade patente no seu comportamento. Sinto que, por vezes, levo a vida demasiado a sério. Tal resulta não só em stress desnecessário, como também faz com que algumas oportunidades e interações mais espontâneas me passem ao lado. E não seria a primeira vez que, olhando para trás, me arrependeria de não ter sido mais descontraído. Poucos são os dias das nossas vidas importantes o suficiente para não o ser. Na maioria dos casos, os pensamentos que mais me preocupavam nunca se chegaram a materializar nas proporções que tão ansiosamente antecipava. E, no caso pontual em que de facto chegaram situações mais difíceis, adaptei-me e a vida, de uma maneira ou outra, continuou.

Marcou-me também, a facilidade e entusiasmo com que eles davam afeto, tanto entre si como a nós, voluntários. Não sou uma pessoa muito afetuosa, e provavelmente não será agora que isso vai mudar, mas não deixo de reconhecer a sua importância para uma vida mais feliz.

Camboja
O Manuel com algumas das crianças a quem ensinou inglês créditos: Manuel Fernandes

Viajar por um longo período de tempo é estranho. Por um lado, sinto que ainda há poucas semanas cheguei. Mas quando paro para recordar tudo aquilo que já aconteceu desde que parti, essas semanas rapidamente se transformam em anos.

Houve dias em que me senti mais em baixo e que não fazia sentido aquilo que estava a fazer. Por mais de uma vez pensei que talvez estivesse melhor em casa, a estudar para tirar um mestrado. Mas algo foi mudando com o meu tempo aqui! Quiçá, fruto do contacto com tantas novas filosofias de vida, que me ensinaram a lidar melhor com essa melancolia e a saudade.

Ao longo do tempo fui-me apercebendo que tudo o que existe na nossa cabeça é meramente uma questão de perspetiva e que sou eu que determino o poder que um pensamento pode exercer sobre mim. O tempo é nosso amigo nestas coisas. Quanto mais tempo passa, menos força tem a dor, ainda que por vezes nunca chegue a desvanecer por completo. Claro que haverá dias onde me sinto mais em baixo, especialmente ao longo de um ano sabático, que é um momento onde conhecemos o que está à nossa volta, mas, diria que é onde nos conhecemos a nós mesmos! Tudo é muito intenso, das sensações mais positivas às mais negativas, mas, tal como referi anteriormente, a universalidade destas emoções é meramente uma questão relativa e de perspetiva. A nossa mente controla tudo.

Pôr do sol em Koh Rong Samloem, Camboja
Pôr do sol em Koh Rong Samloem, Camboja créditos: Manuel Fernandes

Sinto que viajar também contribui para apurar a minha personalidade.

Em primeiro lugar, porque posso ser quem quiser, sem grandes responsabilidades ou expectativas por parte das outras pessoas sobre como o meu comportamento deveria ser. Deste modo, através de tentativa e erro, tenho podido entender melhor aquilo que me faz sentir bem e aquilo que me sinto menos confortável a fazer, sem ser julgado por ninguém ao longo deste processo.

Em segundo lugar, acaba por me dar mais segurança em mim próprio, devido a todas as situações que já tive que superar e adaptar-me. Tenho aprendido que sou capaz de fazer muito mais do que considerava.

Tenho aprendido que sou capaz de fazer muito mais do que considerava.

Combinando ambos os efeitos, fico mais confortável para ser uma versão mais aproximada de mim próprio, amplificando as minhas características, positivas ou negativas. Portanto, acho que também é importante ir reavaliando a pessoa em quem me vou tornando, identificando os traços que não desejo alimentar demasiado e fazendo o melhor para os corrigir. Não é uma tarefa fácil, mas é algo fundamental para me ir aproximando cada vez mais da versão de mim que quero ser.

Estrada do Parque Nacional Phong Nha-Ke Bang, Vietname
Estrada do Parque Nacional Phong Nha-Ke Bang, Vietname créditos: Manuel Fernandes

Para terminar o texto numa nota esperançosa, sinto que aos poucos vou ganhando cada vez mais fé, não necessariamente numa religião em concreto, mas na ideia de um futuro melhor em termos pessoais para breve. O instrumento/processo que realizará tal proeza não sei: karma, destino, sorte, manifestação, Deus; na verdade, pouco me preocupa, porque, para mim, o mais importante são mesmo os frutos que vá colhendo desse mesmo processo. Algo me diz que a minha convicção se concretizará, e isso já é meio caminho andado.

O Manuel Fernandes deixou Lisboa para conhecer o Nepal, a Índia, a Tailândia, o Vietname e o Camboja, à procura de novas experiências e do contacto com a natureza. Podem ler as suas crónicas no SAPO Viagens e no instagram.