No seu centro encontra-se El Caminito, ou "pequeno caminho" - uma faixa pedestre animada por artistas de rua, feiras de artesanato, dançarinos de tango e lojinhas que vendem todo o tipo de lembranças. É um verdadeiro caleidoscópio de cores!

Os historiadores dizem que os espanhóis desembarcaram em La Boca pela primeira vez em 1536 e nesta área, durante o período colonial, viveram muitos escravos africanos. Quando a Argentina conquistou a independência, muitos dos libertados decidiram ficar. Mais tarde, durante a revolução industrial, La Boca transformou-se numa zona industrial onde proliferavam as fábricas de curtumes.

La Boca: cultura, arte, tango e futebol. Tudo concentrado num bairro de Buenos Aires
créditos: Travellight e R.J. River
La Boca: cultura, arte, tango e futebol. Tudo concentrado num bairro de Buenos Aires
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Em 1830, um fluxo de imigrantes de Génova, Itália vem dar nova vida ao bairro. Conta-se que na época havia tantos genoveses em La Boca que alguns dizem que o seu nome deriva de “Boccadasse”, um bairro italiano, apesar de o mais certo ser o nome resultar da sua localização perto da margem (boca) do Rio Riachuelo.

Os recém-chegados ampliaram o bairro e pintaram as suas casas com cores fortes. Rapidamente juntaram-se aos italianos outros imigrantes vindos da Espanha, França, Inglaterra, Irlanda, Grécia, entre outros. Os trabalhadores das fábricas e do porto reuniam-se para conviver e dançar nas ruas centrais do bairro e a mistura cultural deu origem a um modo de vida muito próprio e a uma dança original - o tango.

La Boca: cultura, arte, tango e futebol. Tudo concentrado num bairro de Buenos Aires
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La Boca também desempenhou um papel fundamental na criação da gíria argentina, lunfardo. O vocabulário surgiu do cocoliche, uma mistura de italiano e espanhol usado pelos imigrantes, que ainda hoje se mantém relevante.

Na viragem do século XIX, a área era a segunda zona mais povoada de Buenos Aires, mas a construção de um novo porto em Puerto Madero e a deslocação de muitos moradores para outras zonas da Argentina, levou ao declínio do bairro.

O renascimento de El Caminito e de La Boca só aconteceu nos anos 50 do século passado. Foi liderado pelo artista, Quinquela Martín, um dos pintores mais famosos da Argentina e um dos principais filantropos do bairro.

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Quando a linha ferroviária General Roca, que passava por La Boca fechou em 1954, Martín começou a trabalhar para salvar o bairro. Ele reuniu os vizinhos para pintar as casas com cores vivas, imitando os primeiros imigrantes e atraiu artistas para a região. Foi também por insistência de Martín que, em 1959, a cidade de Buenos Aires declarou oficialmente a rua El Caminito um museu ao ar livre. O nome é uma homenagem ao amigo de Martín, Juan de Dios Filibrito, um ex-morador de La Boca que é co-autor da música de tango com o mesmo nome.

O que ver em La Boca

Hoje as casas coloridas do Caminito abrigam lojas, ateliers, restaurantes e cafés. Fora da rua-museu também merece atenção a Calle Magallanes, conhecida com a Calle de los Artistas e o Patio Quinquela, ocupado por artesãos e artistas e suas lojas de artesanato e souvenirs.

Destaco também o Museu Benito Quinquela Martín, uma casa-atelier, que celebra o artista e expõe algumas as suas obras e as de outros artistas locais, e o Teatro de la Ribera, que fica mesmo ao lado e é um bom lugar para assistir a uma peça de teatro, um bailado ou até a um tradicional tango.

Já o Museu de Cera em Caminito é uma atração mais estranha. É um lugar pequeno, com pouca luz, com bonecos em cera que relembram a história e o passado do bairro, é interessante, mas acho que se tiverem pouco tempo, podem passar ao lado...

La Boca: cultura, arte, tango e futebol. Tudo concentrado num bairro de Buenos Aires
créditos: Travellight e R.J. River

O Espaço Cultural Usina del Arte, pelo contrário, é um imponente prédio, datado de 1916, que funcionou no passado como uma usina, e hoje serve como palco para concertos e festivais de dança e jazz.

Vale igualmente a pena visitar a Fundação PROA, na Avenida Pedro Mendonza. Tem uma livraria, exposições temporárias e um aconchegante café. No Café Proa podemos relaxar em confortáveis poltronas e apreciar a bonita vista do terraço para o Rio Riachuelo.

A Puente Transbordador é outra das atrações do bairro. Esta ponte antiga foi construída no inicio do século passado e é hoje considerada Monumento Histórico Nacional.

Espetáculos de tango são comuns nas ruas de Caminito. Alguns restaurantes colocam pequenos palcos para a apresentação da dança, às vezes com música ao vivo.

Quem gosta de futebol não pode perder o La Bombonera. O estádio do Boca Juniors fica a cerca de 500 metros de El Caminito e oferece visitas guiadas a quem esteja interessado em conhecer mais sobre a história deste grande clube argentino.

La Boca é o tipo de lugar onde é bom vaguear e parar para observar as galerias de arte, ouvir os sons dos artistas de rua ou sentir o cheiro delicioso da carne grelhada que sai dos restaurantes, mas, apesar de ser uma das áreas mais visitadas da cidade, não é de todo a mais segura. Pequenos furtos e roubos são constantemente relatados, mas se nos mantivermos no lado mais turístico, entre a rua-museu El Caminito e as ruas mais próximas e usarmos de bom senso não devemos ter problemas. Se mesmo assim tiverem receio, podem sempre optar por ir numa excursão com mais pessoas.

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Artigo originalmente publicado no blogue The Travellight World

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