Depois do caos vem a calma

Texto por Rita Melícias

Vir para a Ásia foi algo que sempre quis. Por outro lado, sempre me senti pressionada com a rapidez das coisas que se passavam na minha vida. Não tinha tempo para processar o que estava a acontecer e como me sentia em relação à minha própria vida. Era como se a vida já estivesse previamente escolhida e eu não tivesse qualquer livre arbítrio, ou tivesse apenas meio livre arbítrio, mas não existe tal coisa como meia liberdade, ou se tem ou não se tem. Estava presa à ideia que as pessoas tinham de mim, presa às expectativas dos outros sobre mim e sobre a forma como ia agir, o que acabava por limitar as minhas próprias decisões, a minha própria vida.

Nunca tinha pensado em visitar as Filipinas, mas quando percebi que o único programa que a organização All Hands and Hearts tinha no sudeste asiático era nas Filipinas, decidi que o meu gap year ia começar por aqui.

Depois de uma noite no aeroporto de Milão, um voo de seis horas e outro de nove, chego a Manila, capital das Filipinas. Pouco sabia sobre esta cidade, onde iria passar os próximos três dias, até porque o meu objetivo era viajar para outra ilha (Leyte), onde ia ser voluntária durante o próximo mês. Aproveitei a minha curta estadia para descansar e visitar a cidade.

Se chegarmos a um país em que ninguém nos conhece, quem somos? Serei a mesma Rita, sem a expectativa, sem a pressão de agir conforme o expectável?

Só quando pisei solo asiático percebi que este ano sabático era real, ia mesmo passar os próximos sete meses neste continente. Ao chegar estava muito entusiasmada e pensei "Vai começar o melhor ano da minha vida, segundo a minha prima", mas no início senti tudo menos isso! Senti-me desconfortável por ser tudo tão diferente da realidade a que estava habituada, stressada por ter medo do que aí vem, ao mesmo tempo que estava em pânico por não ter um plano fixo... Enfim, sentimentos que surgem quando saímos da nossa zona de conforto.

Sei que chorei mais nestes primeiros três dias do que nos últimos dois anos. Chorei porque não correspondia ao que estava à espera. Chorei porque era isto que queria, mas assim que cheguei o choque cultural abalou-me. Chorei porque tinha que partilhar o que sentia mas como é que ia dizer a toda a gente que afinal não era tudo bonito quanto tinha imaginado?

Agora, olhando para trás, percebo que esta reação é perfeitamente normal para uma rapariga que está a viajar pela primeira vez sozinha e escolhe Manila como primeira cidade.

Após perceber que, para a maioria das pessoas, Manila é apenas um lugar de passagem para chegar a uma qualquer ilha paradisíaca, relaxei.

Aterrei em Tacloban, Leyte, uma das mais de sete mil ilhas deste país. A partir daí só tinha de apanhar mais dois transportes até chegar à base onde ia passar o próximo mês.

Assim que aterro recebo uma mensagem no grupo de WhatsApp do voluntariado de outra rapariga que dizia “just arrived at Tacloban” [acabei de chegar a Tacloban]. Boa, já tinha companhia para os transportes. Surpresa a minha quando nos encontramos no aeroporto e percebemos que somos as duas portuguesas! Tudo se compõe! Há uns dias chorava porque me sentia sozinha, hoje encontro alguém que me faz sentir em casa.

A viagem foi feita num jeypney –uma carinha colorida e pequena – e num autocarro, que é metade do tamanho dos autocarros de Portugal. Ao chegar à base, na vila de Saint Francis e deparar-me com as palmeiras em toda a minha volta, ter a possibilidade de ouvir os grilos, ver uma montanha por trás e sentir uma paz que apenas no campo é possível sentir, fez-me ter a certeza que estava no sítio certo.

Nesse local, estão a construir uma escola em cimento e bambo, portanto, os meus próximos dias foram passados a cortar e lixar bambo, carregar gravilha para preencher as poças de água que são criadas todos os dias visto que por aqui, durante a manhã, estão 35 graus sem uma única nuvem no céu e de tarde chove a potes.

Ainda não temos telhado, e eu, mais os 25 voluntários de todo o mundo – desde as Bahamas até ao Burundi – estamos a trabalhar para conseguir terminar essa parte antes do final da semana. Todos os dias temos uma reunião às 7h da manhã para percebermos quais são os objetivos do dia e em que posto ficamos. Trabalho de segunda a sexta das 7h-16h e sábado das 7h-12h. Pode parecer exigente, e de facto é, mas ver o esforço global de todos os outros voluntários, que após dois dias já considero amigos, faz com que tenhamos energia e motivação extra. Aos domingos, que são os únicos dias livres, descansávamos ou então íamos passear.

Um dos passeios foi nas grutas de Panhulugan. Para lá chegarmos tivemos que fazer uma hora de carrinha e 30 minutos de barco num rio bonito, em que a água estava a menos de 30 graus, ao contrário do que acontece no mar. Existiam morcegos na caverna e é possível fazer longas caminhadas dentro das grutas. Fizemos kayaque e cliff jumping.

Quando se vive em comunidade e se está 24/7 com as mesmas pessoas criam-se relações diferentes das que tenho em Portugal. Aqui, partilhamos muita coisa, e as poucas coisas que são nossas por generosidade acabam sempre por ser partilhadas, quer sejam as batatas que alguém comprou no 7/11 (uma cadeia de lojas de conveniência), os pan de coco da pastelaria ou o gelado.

Filipinas
Filipinas Visita à gruta Panhulugan, na ilha filipina de Samar créditos: Rita Melícias

Um certo domingo, acordo e tenho banana bread feito pela Johanna, sendo que não existe forno na base. Ela come menos do que todos nós: como é possível tal ato de altruísmo? Viver em comunidade tem as suas desvantagens, como estar sempre alguém na casa de banho quando precisamos, mas depois tem o lado da partilha e amor que acaba por fazer tudo valer a pena.

O projeto terminou no passado dia 15 de dezembro, com uma escola e um parque infantil construído e pronto a ser usado pelas crianças. O parque infantil não estava nos planos, mas a organização que lidera o projeto, All Hands and Hearts, recebeu uma doação e com a ajuda das voluntárias arquitetas e o empenho de todos os outros voluntários, incluindo os construtores filipinos e respetiva equipa, conseguimos terminar este projeto dentro do tempo previsto.

Escola da All Hands and Hearts
Escola da All Hands and Hearts Saint Francis Village e o respetivo parque infantil créditos: Rita Melícias

O que mais gosto é de ver 50 miúdos a brincar num parque infantil quer faça sol, quer faça chuva, porque não é algo a que eles tivessem acesso antes. Sinto que apesar de a minha estadia ainda ser curta, a minha contribuição já fez uma grande diferença!

"Journey of Balance" é o nome do projeto criado por Rita Melícias para o seu ano sabático. Podem seguir as crónicas da Rita no SAPO Viagens, onde são publicadas em parceria com a Gap Year, ou através do seu Instagram.