Texto: Carla Lourenço / Fotografia: João Pedro Augusto

À primeira vista, seria fácil confundir Cusco com uma plantação de telhados avermelhados que se prolonga de mansinho do centro histórico, profundo, em direcção aos subúrbios mais elevados. Como plantas rasteiras, as casas, maioritariamente baixas, enraízam o chão. Aqui e ali, uma ou outra cresce até ao quarto ou quinto andar. Outras tantas param a meio. Emaranhados de cabos eléctricos cruzam as estradas como lianas numa selva. Cartazes para as próximas eleições colonizam todos os espaços livres, fazendo lembrar líquenes esbranquiçados. “Vota Juan Usca”, “Somos Perú”. Os arredores da cidade apresentavam o típico caos urbano, mas o coração de Cusco mostrar-nos-ia uma realidade completamente diferente.

No bairro de San Blas, turisticamente atractivo sem o que soubéssemos, encontrámos o primeiro aconchego. O quarto modesto, num pequeno hostel, a meio de uma rua demasiado inclinada, acomodou carinhosamente duas almas cansadas de uma viagem excessivamente longa. Tu Hogar era o nosso lugar. As mochilas adormeceram encostadas à parede, desconfortáveis, mas sem salamaleques. O terraço, que espreitámos logo que chegámos, oferecia-nos uma panorâmica quase completa da cidade e logo me pus a imaginar as esquinas que ia dobrar, como as páginas dos livros que marco para reler vezes sem conta.

Pelas ruas de Cusco
Cusco créditos: João Pedro Augusto

O João assumiu sem esforço ou obrigação a tarefa de decidir onde confortar os nossos estômagos. Encontrou na rua Choqechaka um templo vegetariano que nos convidava a deixar à porta os sapatos e as expectativas. O sacrifício a que nos submetíamos era menos complexo do que há 3000 anos: implicava apenas escolhermos o que nos parecia mais apetitoso. A Lu - ouvi-lhe mais tarde o nome - deixou-nos na mesa de madeira rente ao chão as oferendas. Uma explosão de cores e sabores peruanos invadiu-nos a boca e fez-nos fechar os olhos. As frutas, os legumes, as ervas, formavam a combinação perfeita nos nossos pratos. Se os deuses Incas existem, sentámo-nos à sua mesa por breves momentos.

Habitava eu o silêncio do lusco-fusco quando umas passadas cansadas subiram ao segundo andar. Ali ficámos, só com a orquestra da cidade a nossos pés, enquanto decorávamos as luzes que se acendiam quais estrelas num céu ainda em branco. As janelas envidraçadas, embaçadas, sujas, que se estendem por todo o terraço, convidaram-nos a descansar nos bancos de madeira gastos pelo tempo e pelas vidas que ali passaram. Cá dentro a certeza de que os muitos anos de espera tinham razão de ser. Faltava esta companhia, que tardou em chegar.

Cusco
Cusco créditos: João Pedro Augusto
Cusco
Cusco créditos: João Pedro Augusto

Durante três dias memorizámos as ruas de Cusco. O João mapeou mentalmente as esquinas, os semáforos, os momentos exactos para atravessar as estradas que misturavam pessoas e carros numa dança minuciosamente coreografada, ao som de uma sinfonia de buzinas insistentemente altas e agudas. O maestro, se o havia, não o vimos. Dançámos também. O primeiro miradouro, que não fixámos o nome, ofereceu-nos uma vista rebaixada da Plaza de Armas, o coração do centro histórico. Uma fonte cravada num octágono de pedra rodeia-se de seis pequenos jardins de frente para a grande catedral da cidade. Ali e em todo o redor, as pessoas aninhavam-se nas escadas, nos bancos de jardim, nos passeios. Mulheres e jovens sacudiam recuerdos por poucos soles, como se fosse necessário algo físico para não nos esquecermos de Cusco. As crianças corriam de um lado para o outro. Vendedores gritavam as doçarias mais típicas. A cada passo dado era-nos prometida uma massagem inesquecível - que recusávamos ainda antes da frase estar terminada. Quando cruzávamos olhares, os corpos aproximavam-se com ofertas de passeios imperdíveis - mas nós já tínhamos o nosso.

Todos os dias e a diferentes horas passávamos religiosamente na Plaza, para a descobrir em diferentes luzes e sombras, ainda que as pessoas fossem, surpreendentemente, as mesmas.

Cusco
Cusco créditos: João Pedro Augusto

Enfileirámo-nos pelo Arco de Santa Clara em direcção ao mercado de San Pedro, o ex-líbris das trocas comerciais cusquenhas. Questiono-me se Gustav Eiffel imaginou, quando o projectou, que este espaço assumiria uma importância prática superior à da Torre que enaltece Paris. Lá dentro, a régua e esquadro, divisões quadráticas agrupam-se matematicamente por categorias. Os têxteis: nas diversas blusas de pelo de alpaca, nos gorros, nas luvas, nas malas, nos cintos. As bancas de sumos: papaia, laranja, manga, maracujá e toda a mistura que os nossos estômagos permitissem. As frutas e legumes, as especiarias, o granel em montes, os chocolates, a secção das batatas e, promiscuamente, o canto das refeições onde os locais se refugiam para comer, distraídos da azáfama que paira no ar.

Cusco
Cusco créditos: João Pedro Augusto

Numa das manhãs, prometemo-nos conhecer a história passada mais do que a presente. Guiaram-nos pelos segredos, pela influência espanhola, pelas casonas, pelos 14 imperadores Incas, pela arquitectura e pela geologia. Contaram-nos que as cruzes do Cristianismo que foi imposto aos locais eram aceites com uma representação do Cruzeiro do Sul que impera no céu: e assim, duas religiões eram uma só. Orientámo-nos, mais tarde, para um recanto numa ruela onde acabávamos as nossas noites. À porta do Chia, a Martina recebia-nos com o seu sorriso polaco e amor peruano. Duplicava-nos os chás e nós multiplicávamos as conversas junto ao aquecedor - que as noites não se privavam de ser frias. Ríamos, questionávamos a vida, as escolhas e o futuro. Quando nos despedíamos - sempre como se fosse a última vez – já só pensávamos em voltar. E voltávamos.

O miradouro de San Cristobal, para lá da Calle Siete Borreguitos, foi o abraço de despedida de Cusco. Ao fim do dia, sem que o esperássemos, seduziu-nos até ao topo. Mostrou-nos as montanhas nuas e provocou-nos exibindo uma luz que duvidámos ter visto antes. A cidade era, aos poucos, coberta por um lençol ensombrado que anunciava a chegada da noite. E naquele fim do dia, Cusco despiu-me também a alma.

Cusco
Cusco créditos: João Pedro Augusto

O João achou estranho eu estar calada tanto tempo, até que o meu olhar para o fundo das montanhas acabou por me denunciar: "estás só a absorver, não é?". Estava; talvez tenha sussurrado que sim. Umas ruas abaixo, já na Plaza de Armas, insistiu: "já estás com saudades de Cusco e ainda nem foste embora, é isso?". Era isso. O casaco de mar tinha já enxugado as memórias montanhosas.

Cusco tem algo de mágico que não é passível de se traduzir em palavras ou representar em fotografias. Não sei se da luz, das sombras, dos contrastes, do brilho ou da exposição. Apeguei-me à cidade como a um amigo a quem faço perguntas para conhecer melhor. “Qual a tua cor preferida?”, “Todas as 7 do arco-íris”, diz-me. “E se pudesses beber só uma bebida para o resto da vida?”, “Chicha morada”, responde-me. “E se fosses um animal?”, “Fácil, uma alpaca.” E sem que eu pudesse continuar com a minha lista de perguntas, despedimo-nos numa rua a meia luz.

Tupananchiskama, sussurou-me em quéchua. Até que nos voltemos a encontrar, repeti.

Diário de bordo América do Sul
João e Carla pelas ruas de Cusco

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