Pela manhã, enquanto o autocarro subia lentamente a encosta do Monte Cornión, o baluarte ocidental dos Picos da Europa, eu dava como perdidos os euros gastos para ver os lagos. Com a névoa que me rodeava, espessa e láctea, teria sorte se visse a ponta do meu nariz. Lagos, só se caísse num deles por acidente. Porém, já perto dos 800 metros, furou progressivamente a cortina de vapor, deixando vislumbrar um pasto que se tornou mais e mais nítido a cada metro escalado. A paragem estava a 1030 metros (nem a meio da altitude máxima da montanha) quando o cenário emoldurado pela janela já contava com elegantes cavalos, montes côncavos de um verde fulgurante misturado com rochas pontiagudas e vacas a saciar a sede em dois lagos gémeos: o Enol e o Ercina.

Era por causa deles que todos aqueles visitantes tinham saído de Covadonga, lá em baixo, para caminhar nos trilhos daquele paraíso inóspito. Uns, mais corajosos, tinham chegado de bicicleta ou com a ajuda do bastão de caminhada. “Sou de Gijón mas pedalo até aqui uma vez por mês”, diz-me um ciclista amador. “Não é promessa. É que estes ares e esta paisagem dão-me forças para mais umas semanas de trabalho”.

Covadonga
créditos: Pixabay

O Enol e o Ercina estão ali há cerca de 40.000 anos, por alturas do último grande pico glaciar que afectou as Montanhas Cantábricas – e não, provavelmente, desde que a Virgem derramou duas lágrimas na montanha, como diz a lenda -, mas só em 1983 passaram a fazer parte do imaginário espanhol, quando se tornaram palco da meta da última etapa da Volta a Espanha em bicicleta. Já antes, em 1918, o rei Afonso XIII se tinha apercebido do seu potencial, tornando-os o centro do primeiro Parque Natural do país. Hoje recebe quase 800 mil visitantes por ano. Poucos sabem que há ainda um terceiro lago, o Bricial, que só se enche de água em anos de muito gelo e chuva e que naquele dia era somente um reservatório de erva e lama.

Pouco depois, descia o Miradouro da Picota, de onde a vista alcança as duas jóias da serra, quando a névoa perseverante invadiu o vale com a velocidade de um gigantesco enxame de abelhas. Nunca tinha visto nada assim. Nem o fumo nem a trovoada se apoderam da Natureza num sopro assim tão súbito. De repente, fazia um frio escandinavo. E andar de chinelos passou a ser parvo. Não só pelos dedos congelados como pela incapacidade de antecipar as bostas de vaca que minavam o prado. Ainda assim, consegui chegar à margem do Enol e esperar pela dissipação do nevoeiro até vê-lo cintilar ao sol e desejar entrar nas suas águas, frustrado, pois os banhos são proibidos. Antes de descer, fiz uma visita às ruínas da antiga mina de ferro e de mercúrio que deixou de operar há quase 40 anos.

Santuário de Covadonga
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Mas a viagem não se fica pelas alturas. No sopé, Covadonga guarda uma das mais heróicas façanhas da História espanhola: foi naquele local que Dom Pelágio das Astúrias, vindo com a sua legião de rebeldes serranos, assaltou as hostes muçulmanas que governavam grande parte da Península Ibérica, iniciando assim o movimento de Reconquista no início do século VIII. A cultura popular encarregou-se de atribuir à Virgem de Covadonga a força que o nobre espanhol usou para vencer. Assim, o pitoresco Santuário da Virgem, cavado na rocha a 104 degraus de altura, tornou-se local de peregrinação e de devoção, levando mesmo alguns fiéis a subir a escadaria de joelhos. Em Agosto, o grande sacrifício é arranjar espaço para fintar os turistas que enchem o templo.

Com o pretexto de retemperar forças após um dia de caminhada, sentei-me na esplanada do restaurante El Abuello, en Cangas de Onis, a apreciar uma favada asturiana, sem esquecer o queijo Cabrales, uma delícia bolorenta que nas Astúrias serve para tudo: entrada, mesa de queijos ou molho para massa ou bifes. E uns copos de sidra das boas, pois claro, que o empregado lança para os copos de uma altura que, em restauração, equivale aos cumes gelados dos Picos da Europa. “Temos de avivar a sidra atirando-a do mais alto possível, para que active as borbulhas carbónicas que lhe dão aroma e paladar”, explica o empregado. Tentei fazer o mesmo. O empregado foi buscar a esfregona.

Tanto à mesa como em esplêndidas cidades como Oviedo ou Gijón, mas principalmente nas entranhas das suas montanhas ou nas águas refrescantes do rios e do mar, as Astúrias não deixam os visitantes defraudados. É destino de praia e natureza, de gastronomia e de história. Uma das joias da Península Ibérica. Para conhecer este recanto especial, pode aproveitar os voos da TAP para Oviedo.

Texto: Tiago Carrasco

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