Uma breve passagem de alguns dias por Almaty foi suficiente para percebermos como o povo cazaque é caloroso e amigável. O dia vivido no Charyn Canyon é o melhor exemplo disso.

A SIMPÁTICA NAZYM E O TOUR PELO CANYON

No Cazaquistão há duas línguas principais: russo e cazaque. Nenhuma das duas do nosso domínio, e ambas com um alfabeto diferente daquele que usamos habitualmente. Esta foi a primeira dificuldade sentida quando tentámos encontrar empresas online para marcar um tour pelo Charyn Canyon, nas proximidades de Almaty. A escassez de turistas do ocidente faz com que poucas empresas tenham informações em língua inglesa disponível. Fazer uma visita de forma independente estava fora de questão, pela inexistência de transportes públicos, e recorrer a serviços como táxi ou Yandex (a Uber cá do sítio) seria uma loucura para as nossas carteiras. Porém, após alguma pesquisa intensiva, encontrámos uma agência de turismo capaz de nos ajudar. Problema resolvido!

Contudo, assim que chegámos a Almaty, vindos de comboio desde a capital Nur Sultan, recebemos a notícia de que devido a um imprevisto de última hora, não seria realizada a tal excursão. Estávamos na estaca zero novamente. Naquele momento, por intervenção divina, ou mera coincidência, recebemos uma simpática mensagem da Nazym através do Instagram. Uma simpática jovem cazaque que encontrou as nossas publicações na aclamada rede social e que dominava a língua inglesa. Disse-nos que vivia em Almaty e que teria muito gosto em ajudar-nos com o que precisássemos. De imediato se dispôs a servir de intermediária tradutora para que pudéssemos reservar lugar num tour pelo Charyn Canyon. Escusado será dizer que sem a boa vontade desta cazaque, jamais teríamos vivido uma experiência tão positiva. Foi a primeira demonstração de bondade deste dia. Não seria a última.

Charyn Canyon: Uma aventura pelo Cazaquistão
Charyn Canyon créditos: Circum-Mundum

CHARYN CANYON – PAISAGENS DE CORTAR A RESPIRAÇÃO

A ida para o canyon tem a duração de aproximadamente 3 horas num autocarro turístico repleto de cazaques e russos. A guia passa o tempo a falar em russo, e sentimo-nos como peixes fora de água. A nossa compreensão resume-se a 2 ou 3 frases, um olá e alguns números. Que é como quem diz que não apanhámos uma. Serviu, ainda assim, para nos concentrarmos mais na paisagem lá fora, nos recortes das montanhas envolventes, nas silhuetas artísticas desenhadas pela neve, nas pequenas aldeias isoladas, onde parece que Deus não passou.

Chegados ao canyon, espera-nos uma escadaria descendente rumo ao interior do desfiladeiro e aí começa a verdadeira aventura. A cor de argila absorve-nos e damos por nós numa imensidão de recortes, encostas e feitios sem fim. Nos corredores intrincados do canyon é possível observar as diferentes camadas de sedimentos, em diferentes tons de tijolo, mas também os diferentes formatos que a imaginação consegue criar: uma figura mitológica ali, um camelo acolá, as gárgulas da Catedral Notre Dame algures.

É impossível conter o entusiasmo quando se está num sítio assim. Nada, a não ser a natureza no seu domínio absoluto, engolindo-nos numa sensação de pequenez. De cada vez que surge uma nova imagem, ora à esquerda, ora à direita, é impossível conter os suspiros e as interjeições que nos escapam.

Charyn Canyon
Esta é a segunda crónica que o Bruno e a Daniela partilham da sua viagem de oito meses créditos: Circum-Mundum

Há poucos turistas e o espaço é quase todo para nós. Como é que o turismo é escasso num sítio destes? Não conseguimos evitar indagar. Depois de toda a neve, de todo o frio, e de todos os imprevistos, estamos finalmente a ter um dia em que os astros se parecem alinhar. O dia de sol ajuda a que a experiência seja mais agradável, e o céu limpo permite-nos contemplar lá ao longe os discretos e imponentes cumes da montanha a emoldurar a paisagem.

Caminhamos pelo Vale dos Castelos de sorriso idiota estampado nos rostos, certos de que estes são os momentos que nos enchem a alma e fazem tudo valer a pena. Na altura, não podíamos saber como estávamos certos e como este dia seria tão especial.

Charyn Canyon
créditos: Circum-Mundum

O NORBERTO E A LUA BONITA

Depois de uma pausa para picnic junto ao curso de água gelada, somos abordados por um jovem cazaque. Oferece-nos pão tradicional e convida-nos para nos juntarmos a ele por alguns minutos. Curiosos, aceitámos o convite e seguimos para junto deste amigável desconhecido tão bem falante da língua inglesa. Agradeceu-nos por visitarmos o Cazaquistão. Chama-se Nurbek e estava ali com a namorada, por ser o aniversário dela. Foi fácil memorizar o nome dele, porque brincámos dizendo que soava a Norberto. O nome dela, por sua vez, indecifrável e impronunciável, não nos ficou na memória. Sabemos, contudo, que o nome dele significa Senhor da Luz, e o nome dela quer dizer Lua Bonita. Não esqueceremos a doce Beautiful Moon. Perguntaram-nos o significado de Bruno e Daniela, mas não soubemos responder.

Ao que parece, no Cazaquistão todos os nomes têm significado explícito e as palavras usadas para dar nomes podem também ser usadas em diferentes contextos. Essa foi uma das muitas curiosidades partilhadas na longa conversa de 3 horas que, olhando para trás, parece ter passado a voar. O regresso pelo Vale dos Castelos foi passado em conversa, entre os 4 curiosos, trocando dados e tradições de cada um dos países.

Charyn Canyon
créditos: Circum-Mundum

No Cazaquistão, a esmagadora maioria da população cazaque conhece a sua árvore genealógica até 7 gerações anteriores. Isto é fundamental para que namorados possam garantir que não são familiares antes de casar. Aprendemos também que existiam, em tempos antigos, 3 tribos principais na região. Hoje em dia, embora as tribos já não existam, a população mantém viva a sua memória, e as pessoas ainda sabem de que tribo são descendentes. Ficámos abismados com a forte presença da tradição na cultura cazaque. O Nurbek e a Beautiful Moon namoram há 6 meses e falaram-nos sobre planos para o futuro. Se tudo continuar a correr bem, pretendem casar. Há um certo pragmatismo no relacionamento: se ambos fizerem um bom trabalho atingem o objetivo primordial – casar e constituir família.

Nós estamos juntos há quase 11 anos, e somos casados desde 2018, coisa que os surpreendeu, por termos apenas 26 anos. Explicámos que poderá não ser estatisticamente representativo do nosso país. Tivemos sorte. Eles anseiam casar (não pela cerimónia em si, extremamente cara, muito aborrecida e cheia de formalismos) mas pela liberdade que lhes dará, para que possam viajar enquanto casal. Algo ainda socialmente inaceitável enquanto namorados num país de maioria islâmica.

Os assuntos foram saltitando: casamento, tradição, significado dos nomes, política, corrupção, leite de égua, carne de cavalo, vegetarianismo, futebol, e muitos outros.

Charyn Canyon
créditos: Circum-Mundum

O Cazaquistão foi sem dúvida uma surpresa. Apesar de todas as diferenças, chegámos à unânime conclusão de que 2 jovens portugueses têm mais em comum com 2 jovens cazaques do que aquilo que seria de esperar. Fica a promessa de uma visita futura ao nosso Portugal, que tanta curiosidade lhes despertou. E fica a promessa de que voltaremos ao Cazaquistão, para conhecer mais camadas deste país longínquo, tão diferente e tão semelhante.

Se o leitor está a pensar partir rumo a este país repleto de história e tradição, deixamos o alerta de Nurbek: nunca aceitar o tradicional leite de égua. A bebida tem propriedades muito fortes e só deve ser consumida já no interior de um WC, e com o rolo de papel higiénico na mão, tal é o seu poder e impacto imediato. Fica a dica.

Continuação de boas viagens e grandes aventuras!

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