A luz muda, a paisagem fica triste e tudo pode parecer deprimente, excepto quando caminhas sem pressa e tens alegria dentro do teu coração. Aí, até um cenário desolador pode transformar-se numa inspiração…

Isso aconteceu comigo, recentemente, num fim de tarde em Berlim. Estava ao pé da Fonte de Neptuno quando a chuva começou a cair e as ruas lentamente a esvaziar. Estava frio, mas pelo menos não havia vento. O ar ficou com o cheiro agradável a terra molhada.

Eu não tinha chapéu de chuva mas ao invés de me incomodar com as gotas que molhavam a minha cara, senti-me feliz e ainda mais viva.

Continuei a andar e parei mesmo em frente da grandiosa catedral de Berlim, junto à escultura “Drei Mädchen und ein Knabe”, de Wilfried Fitzenreiter.

Berlim
créditos: Travellight e H. Borges

As estátuas, em tamanho real, representam três jovens meninas e um rapaz, sentados, casualmente, à beira do rio Spree como se tivessem acabado de dar um mergulho. Têm um ar despreocupado, confiante e parecem alegres. Eu, como qualquer turista que se preze, sentei-me ao seu lado e posei para a fotografia.

Segui para a Ilha dos Museus. Queria visitar o Pergamon Museum, mas já era um pouco tarde, seria melhor voltar no dia seguinte.

Ponderei regressar ao hotel mas a chuva abrandou um pouco e resolvi continuar. Dei por mim na enorme avenida Unter den Linden em direcção a Brandenburger Tor, o portão que até 1989 dividiu Berlim e as duas Alemanhas.

Ainda era uma longa caminhada mas resolvi arriscar, se o tempo ficasse muito mau sempre podia apanhar o metro.

Não estava quase ninguém quando cheguei a Pariser Platz e fiquei frente a frente com este monumento, símbolo da tumultuada história da Alemanha e da própria Europa.

O meu cérebro fervilhava enquanto a minha memória recuperava imagens antigas da queda do muro. Lembro-me perfeitamente de assistir a tudo pela televisão e de sentir alegria e esperança. De acreditar piamente, naquele momento, que o futuro só podia ser bom.

Agora, parada ali na frente, a minha alma, antes leve e feliz, tornou-se de repente sombria. Com a chuva a cair e a luz a desaparecer, aquele portão parecia-me evocar velhos fantasmas e novos muros…

Fiz por afastar esses pensamentos e espreitei pelas colunas do Brandenburger. Lá ao longe, por entre a chuva e a neblina consegui vislumbrar a enorme Siegessäule (Coluna da Victoria), o lugar onde os anjos de Wim Wenders se sentavam para descansar e observar os humanos, recordei As Asas do Desejo e sorri. Nada pode ser muito mau quando há anjos por perto, principalmente anjos que desejam ser humanos.

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Artigo originalmente publicado no blogue The Travellight World

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