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De acordo com o livro, o turismo “nasceu” de forma inesperada em Portugal como atividade económica em 1964, quando mais de um milhão de visitantes estrangeiros entraram no país – um número que excedeu qualquer expetativa, mas que em nada se compara aos 30 milhões de turistas contabilizados em 2024.
Uma década antes da Revolução dos Cravos, Portugal era um país fechado e pouco preparado para receber visitantes. Um “país em cuecas”, como descreveu, então, Augusto de Castro, diretor do Diário de Notícias. Apesar de a Madeira já ser um destino procurado há muito por ingleses, foi no Algarve que Portugal começou a afirmar-se no mercado de “sol e mar”, ainda antes de conquistar um regime democrático.
O 25 de Abril de 1974 abriu muitas portas no país e uma delas foi a possibilidade de desenvolver o Turismo como um setor que, nos dias de hoje, tem um papel imprescindível na economia nacional.
Ao longo destes 50 anos, o Turismo desenvolveu-se de forma rápida, sendo um verdadeiro caso de sucesso e contribuindo para “o bem-estar, a liberdade, a democracia e a economia”, escreve António Barreto, no prefácio do livro organizado por António Abrantes, cientista social, político e cronista, a quem colocamos algumas questões para saber mais sobre o tema.
Como surgiu a ideia para publicar este livro?
A ideia surge no contexto das comemorações dos 50 anos de Abril e num dos desígnios propostos no Programa do Movimento das Forças Armadas: o de promover o desenvolvimento de Portugal.
Emergia daqui a realização de um balanço, ou de indagação do que é que neste período conseguimos dar uns aos outros ou o que, ainda, estamos a dever uns aos outros no plano do terceiro “D” do desenvolvimento. Dar conta do contributo que o Turismo prestou à sociedade através do seu percurso nos seus mais relevantes domínios. Expressando a sua trajetória, a sua evolução, os seus impactos positivos e negativos, os seus sucessos e insucessos.
Como o livro está estruturado?
O livro estrutura-se em 10 partes: economia do turismo e políticas públicas; turismo, sociedade e diálogo social; ordenamento turístico, destinos e valores; transportes, distribuição e logística turística; investimento turístico, financiamento e fiscalidade; mercados turísticos e internacionalização; hospitalidade; cultura e animação turística; ensino, formação e investigação no turismo e turismo nas regiões autónomas.
Quanto aos intervenientes, o critério foi o convite a personalidades com intervenção no turismo, com reflexão produzida, liberdade de espírito e autonomia de pensamento.
Sem o turismo, o conhecimento do mundo sobre Portugal seria exíguo
Como traça a evolução do turismo em Portugal pós-25 de Abril?
O Turismo é a atividade económica, na globalidade dos seus ramos, mais competitiva do nosso país. Sendo uma das mais jovens, foi das mais rápidas a evoluir. A sua evolução é uma história de sucesso.
É inegável o nível superior de competitividade do turismo português. Alcandorar-se ao 12.º lugar de competitividade mundial é um mérito assinalável e traduz a expressão da qualidade geral dos fatores de produção, das instituições e do contexto que compõem a atividade. O país, no seu todo, nunca alcançou, infelizmente, desempenho que se aproximasse.
O resultado dos impactos do turismo a nível económico é patente e reconhecido: criação de riqueza e de emprego, contributo para equilíbrio da balança de pagamentos, indução de investimento em atividades de jusante a montante, e projeção de imagem institucional de modernidade e progresso económico e social do nosso país, a par da cultura, história e valores nacionais. Sem o turismo, o conhecimento do mundo sobre Portugal seria exíguo.
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Nestes 50 anos, quais foram os momentos-chave do turismo português?
Mais do que “momentos-chave”, o mais relevante tem o processo de evolução e de desenvolvimento do turismo, que pode em rigor ser identificado pelas etapas percorridas. Entre estas destacaria: em primeiro lugar, a capacidade, sempre reiterada, dos agentes económicos empresariais desenvolverem respostas, tanto em modelos de negócios, quanto na gestão, organização e diversificação dos mercados, que integraram a evolução dos comportamentos e motivações dos turistas e as dinâmicas concorrenciais globais.
Em segundo lugar, a criação, a nível da macroestrutura institucional do Estado, da Secretaria de Estado do Turismo com competências na definição de políticas públicas, em articulação próxima com os agentes económicos do turismo e a preservação do modelo de autofinanciamento dessas mesmas políticas.
Em terceiro lugar, a constituição da CTP – Confederação do Turismo Português e o seu reconhecimento como parceiro social, permitindo aos seus representados participar na discussão e na definição de propostas com vista ao desenvolvimento económico e social da nossa sociedade.
Em quarto lugar, a capacidade de criação e promoção de novos destinos turísticos, fazendo uso de recursos endógenos e de estruturas regionalizadas de gestão e promoção turística do território.
Por último, o recente reconhecimento da sociedade, do papel e da importância que o turismo tem (que, aliás, sempre teve) na nossa economia e equilíbrio das contas públicas, no progresso do país e na projeção de uma imagem positiva de Portugal.
Apesar de não ter havido, nem sempre, uma estratégia bem definida, considera que o turismo em Portugal está a conseguir corrigir alguns erros do passado?
Cometeram-se erros ao longo do percurso, alguns irreparáveis, mas o turismo português foi dando conta e tenta-os corrigir. Nem sempre os erros foram próprios (que os teve), mas sendo alheios, condicionaram. Na burocracia, no ordenamento do território, no planeamento urbanístico e capacidades de carga estão os mais significativos.
Hoje há uma maior e correta consciência destas questões. O turismo também tem feito o seu caminho. Em alguns casos corrigindo erros do passado, mas em pano de fundo, adquirindo maior consciência da importância vital em preservar recursos, melhorar capacidades e garantir sustentabilidade.
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Falta ao turismo uma “resposta política”, pode ser lido no livro. Qual deveria ser a estratégia adotada para o setor?
É sabido que o turismo não tem peso político na estrutura do Estado. Tanto no Governo, quanto na Assembleia da República. É significativo o facto de o seu principal apoio residir na Presidência da República, que não tem competências institucionais para sobre ele agir.
Atendendo ao papel que o turismo tem assumido na recuperação económica do país e prestado ao nível de vida dos portugueses, o seu reconhecimento genuíno e efetivo na macroestrutura institucional do Estado torna-se essencial. Sem esta evolução toda e qualquer estratégia adotada para o turismo fica incompleta e circunscrita ao seu perímetro e não fará parte efetiva de uma estratégia de desenvolvimento do país.
Somente com essa qualificação institucional o turismo poderá ter maior conforto e resultado nas reformas transformacionais que terá de empreender, melhor preparando-o para o que é já hoje exigível: respeito pela ecologia; maior atenção às questões ambientais e alterações climáticas, reforço dos elementos de intangibilidade do serviço, respostas à aceleração atomizada do consumidor, diferenciação da oferta de serviços e distribuição dos benefícios do turismo pelas populações e sociedade.
Os desafios estão centrados em áreas infraestruturais, da sustentabilidade e dos recursos humanos
Quais são os maiores desafios do turismo em Portugal?
O turismo português enfrenta vários desafios e de concretização temporal diferenciada. No curto prazo está perante o desafio da criação de ainda maior valor acrescentado e, por via dele, melhor distribuir com equidade a riqueza criada. Joga-se neste plano a atração e retenção dos profissionais do turismo, em volume e qualificações necessárias ao seu desenvolvimento. Associado a este desafio está a melhoria constante necessária à qualificação do serviço turístico prestado que, uma vez descuidada a atenção em elementos que o determinam, o podem deteriorar e desvalorizar.
Como igualmente se confronta com a necessidade de requalificação e posicionamento do seu principal destino turístico (o Algarve), seja a nível de acessibilidades, infraestruturas, mercados e promoção a justificar plano estratégico de ação, prometido e ainda não concretizado. O facto deste destino ter sido o último a recuperar da pandemia é revelador da urgência em agir. Em suma, os desafios estão grandemente centrados em áreas infraestruturais, da sustentabilidade e dos recursos humanos.
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“O turismo está muito dependente do trabalho dos imigrantes.” Falta fazer mais a nível político para melhorar as condições laborais no setor?
Sim. Mas não é só a nível político. Também o é a nível empresarial e associativo. A melhoria das condições laborais tem de recair sobre todos os trabalhadores no turismo, independentemente da sua origem geográfica, interna ou externa.
É um facto que hoje o turismo português, na quase globalidade dos seus ramos, necessita de recorrer a trabalhadores imigrantes. Aqui as questões são mais complexas e diversificadas, em que a receção, cultura, língua e competências ganham acuidade. Nestas áreas a intervenção política é determinante, no sentido da criação de um quadro legal para melhor captação, acolhimento condigno e valorização de capacidades necessárias ao nosso turismo de forma que o serviço turístico sustente a qualidade que lhe é reconhecida e reforce a autenticidade que o pode melhor diferenciar.
Portugal é hoje o 12.º destino turístico mais competitivo do mundo. Há espaço para crescer mais e alcançar o pódio?
Portugal está no pódio! Alcançar o primeiro lugar no índice de desenvolvimento das viagens e turismo é tarefa gigantesca. Nem estamos certos de podermos, atentando às nossas circunstâncias e idiossincrasias, que fosse possível.
Há, contudo, espaço para crescer. Apontamos apenas alguns dos indicadores que constam daquele índice de comparação global no turismo. Eles não se referem, convém clarificar, ao montante de receitas ou número de hóspedes comummente divulgados. Referimo-nos aos indicadores que se relacionam, fundamentalmente, com os recursos humanos e mercado de trabalho e com a sustentabilidade das viagens e turismo.
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Ao nível dos primeiros, há espaço para melhoria na “dinâmica do mercado de trabalho” (a pior pontuação alcançada, num modesto 92.º lugar, entre 120 países), e em constante agravamento. Uma situação a merecer uma atenção especial por parte dos agentes públicos e privados.
Ao nível da sustentabilidade, há espaço de melhoria no pilar da “pressão e impacto da procura turística”, que mede os fatores que podem indicar a existência ou o risco relacionado com a sobrelotação da procura potencialmente insustentável (90.º lugar, o mais baixo de sempre). Levantam-se aqui questões que não podem ser desqualificadas, desvalorizadas ou negligenciadas, quer pelos organismos gestores responsáveis pelos destinos turísticos, quer pelos representantes associativos dos agentes económicos. É, pois, necessário que o turismo se constitua ele próprio como elemento da solução e não como agente reativo.
Portugal não tem turismo a mais. É uma falácia
Há o risco de Portugal se tornar um destino massificado? Como contrariar esta tendência que assola já vários destinos?
Portugal não tem turismo a mais. É uma falácia. No plano macroeconómico, temos economia a menos. No plano da competitividade, temos diminuta diversificação de atividades de bens transacionáveis. Por o turismo ser forte nestes dois planos, carrega com uma culpa que não tem.
Portugal não é um destino turístico massificado. O indicador da intensidade turística, que avalia a relação entre turistas e população residente e os impactos que daí resultam, apresenta no caso português níveis compatíveis com o turismo sustentável e compara bem com os seus destinos concorrentes.
Questão diversa é a da pressão e impacto da procura turística que se faz sentir em certas áreas urbanas e em infraestruturas e equipamentos turísticos, que são conhecidos e onde é imperioso atuar a nível da gestão dos fluxos turísticos, do ordenamento e das capacidades instaladas e do equilíbrio das funções dos espaços de modo a assegurar uma cultura, vivência e tradição com autenticidade e sustentabilidade.
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Quais são as previsões para o futuro? Daqui a 50 anos, como estará o turismo em Portugal?
Só podemos tentar corresponder à pergunta através de um exercício de imaginação, à luz do passado que o turismo tem e do que ele no presente representa e, ainda assim, seguramente com erro.
O turismo apresenta, no curto prazo, forte potencial de crescimento, apesar das razões de reconfiguração geopolíticas e geoeconómicas em desenvolvimento. Implicando alguma reestruturação nos destinos mundiais, dá sinais crescentes de vir a ser ainda mais valorizado pelo seu contributo às causas presentes de grande parte da humanidade (preservação do ambiente, redução da pobreza, aceitação do outro) e alavancado pelo desenvolvimento tecnológico acelerado em vários domínios científicos, tais como Inteligência Artificial, robótica, geociência e neurociência.
Como também nos merece plausível a aceleração do tempo e o encurtamento do espaço, que sugerem alterações significativas tanto na forma e nas infraestruturas de mobilidade; na dimensão e na natureza do espaço de visita (a Terra terá concorrente); na forma como passaremos a usufruir e a gerir as novas funções dos novos espaços e na proposta ética e socialmente responsável dos agentes públicos e privados do turismo.
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