Jeff Kurr, Diretor Criativo de Shark Week, um programa do Discovery Channel, é produtor executivo, diretor, escritor e especialista em tubarões.

É conhecido pelas suas inovadoras técnicas de filmagem como visão nocturna, imagem térmica, submersíveis operados remotamente e câmaras subaquáticas rebocadas.

Nesta entrevista, fala da sua vasta experiência com estes animais, considerados assustadores para alguns, mas fascinantes para outros.

Sabemos que um dos principais objetivos de Shark Week sempre foi criar awareness sobre o papel que os tubarões desempenham no nosso ecossistema, mas pode explicar porque são tão importantes?

Bem, os tubarões estão no topo da cadeia alimentar e mantêm o equilíbrio do oceano, bem como mantê-lo  saudável, removendo alguns dos animais que estão doentes, feridos ou até a sobrepovoar. Podemos ver evidências disso em sítios onde os tubarões brancos e outros tubarões foram afastados.

Vemos espécies como as focas a crescer rapidamente e isso por sua vez vai causar alguns problemas, porque as focas alimentam-se de peixes e consequentemente eliminam a população de peixes.

Por isso, é extremamente importante, e sempre enfatizámos isso na Shark Week, que a proteção dos tubarões é fundamental, enquanto predadores no topo da cadeia alimentar, por forma a manter o oceano saudável e equilibrado.

E qual é a principal ameaça aos tubarões? É a prática de "finning" (remoção das barbatanas de tubarão)?

"Finning" é, de facto, uma grande ameaça para os tubarões, mas depende muito de região. Por exemplo, estávamos a filmar na África do Sul para o novo episódio do Air Jaws e descobrimos que as operações de pesca estavam a retirar centenas e centenas de toneladas de tubarões pequenos, que são na verdade, as presas preferidas dos tubarões brancos durante a maior parte do ano.

O que aconteceu é que como resultado da remoção desses tubarões mais pequenos, os tubarões brancos estão a deixar de ir aos locais onde habitualmente iam caçar. Sítios onde filmávamos Air Jaws há 20 anos atrás, não vimos nenhum tubarão branco nos ultimos três. Isto porque muitas das presas dos tubarões brancos foram retirados por essas pescarias. É um tema que exploramos em Air Jaws.

Isso é quando eles estão mais próximos de seres humanos, ou seja, quando vão procurar comida noutros sítios que não os habituais?

Há algumas evidências de que se os tubarões estiverem à procura de novas fontes de alimento, podem ir para sítios onde normalmente não seriam encontrados. Por exemplo, perto de praias, perto da costa e, por vezes, em contacto com o ser humano.

Há uma espécie de efeito boomerang. Ou seja, quando as pessoas e as operações de pesca mexem no ecossistema, desiquilibrando-o, os tubarões podem responder aproximando-se da costa, o que nem sempre é bom.

Jeff Kurr
Jeff Kurr

Faz parte da Shark Week desde o início? Desde 1991?

Sim. É difícil de acreditar mas este é o meu 30º ano de Shark Week. Na realidade 30 anos já é muito tempo para fazer qualquer coisa, mas felizmente é um trabalho divertido. Aliás, não consigo pensar em nada mais divertido, porque acabo por visitar lugares exóticos e lindos.

Eu foco-me principalmente em grandes tubarões brancos e eles são comuns na Nova Zelândia e África do Sul, então acabo por passar mais tempo naqueles países. Já os conheço muito bem. Também encontramos tubarões brancos na costa do México, na Ilha de Guadalupe. Já lá estive dezenas de vezes. Felizmente os tubarões são mais frequentes em sítios que eu gosto de visitar. É ouro sobre azul.

Como começou e de onde vem essa paixão por tubarões brancos?

Bem, acho que a minha primeira experiência com o tubarão branco foi como a de muita gente, com o filme "Tubarão" (Jaws), do Steven Spielberg. Eu vi aquilo e fiquei apavorado. Tinha medo de entrar no mar. Aliás, não o fiz durante alguns anos, até que fiquei mais velho e acabei por aprender mais sobre tubarões, comecei a mergulhar com eles (Shark Diving) e fiquei fascinado.

Percebi que se entrarmos na água com um tubarão, ele não nos vai atacar imediatamente. Aliás, acho que a grande maioria dos tubarões tem um comportamento tímido. Se não tivermos isco, eles não querem nada connosco.

Claro que há alguns tubarões mais curiosos do que outros. Alguns tubarões, dependendo da espécie, acabam por se chegar mais perto. Mas na maioria das vezes, são criaturas tímidas. Enquanto realizador, o nosso objetivo é tentar trazê-los para mais perto de nós e, às vezes, isso não é fácil.

Alguma vez sentiu que estava em perigo enquanto estava a filmar? É algo em que pensa?

Quando estou a filmar tubarões não penso muito na minha segurança pessoal, porque estou focado em conseguir aquele ângulo. É tudo o que me interessa. Conto com o nosso planeamento para nos manter seguros. Se queremos filmar determinado ângulo, temos de planear, temos os nossos mergulhadores de segurança, temos médicos.

Consideramos o clima, a espécie de tubarão e o animal em particular que estamos a trabalhar, porque todos os tubarões são diferentes, todos têm personalidades diferentes. Quando estou na água, estou atento à câmara para conseguir o melhor ângulo.

Às vezes olho para trás, para algumas das filmagens que fiz e fico com medo. Pergunto-me porque me coloquei naquela situação. Até não houve grandes percalços. Alguns incidentes que nos abriram os olhos, mas o meu objetivo é manter-me focado e divertir-me.

Jeff Kurr
Jeff Kurr

Como funciona a logística por trás das filmagens? Presumo que é um longo processo, muita espera, muita paciência?

Verdade. Os tubarões nem sempre recebem uma cópia do argumento, por isso nem sempre aparecem quando precisamos deles. Já estive em sítios como a Austrália, onde estive sentado num barco durante 18 dias à espera que um tubarão branco aparecesse. E isto foi antes de haver internet. Acho que nem tínhamos filmes ou outros documentários para ver. Por isso sim, o planeamento é muito importante.

É importante estar no sítio certo à hora certa. Temos de ter um grande conhecimento sobre a migração de tubarões e quais os sítios onde estão, porque são animais muito abrangentes. Portanto, podemos ir até um determinado sítio para filmar tubarões e perceber que eles não aparecem ali há meses e não vão voltar durante muito tempo. Tudo isto tem de ser pensado com antecedência.

Aliás, o período temporal que podemos filmar é muito curto. Por exemplo, para filmarmos tubarões brancos na África do Sul, sabemos que a melhor altura do ano é junho. Se apareceres em abril ou março para filmar tubarões, é muito possível que nem os vejas. É muito importante conhecer as migrações e o habitat destes animais.

Por exemplo, em relação à região do Médio Oriente, existem alguns tubarões nessas águas. Talvez tubarões-tigre, tubarões-touro… Como devem as pessoas reagir se se deparassem com um tubarão, qual a melhor maneira?

Bem, sei que há tubarões no Mar Vermelho. E sei que houve vários incidentes de ataques de tubarão há alguns anos. Penso que o tubarão agressor foi um Tubarão-de-pontas-brancas-de-recife, um tubarão muito agressivo que vive no meio do oceano e raramente está em contacto com o ser humano. Quando encontra algo, é bastante implacável. Se te quiser morder, é difícil mantê-lo longe.

É bom ter algo na mão para afastar um tubarão se estiveres dentro de água e te deparares com um. Na maioria das vezes, as pessoas que vêem tubarões dentro de água são uns sortudos. O tubarão vem, dá uma olhadela e vai embora. Nestes casos, o mais importante é ficar calmo, relaxado e enfrentar o tubarão. Não tentar nadar, porque não vai funcionar. Os tubarões são extremamente rápidos.

Se estiveres numa situação em que não consigas sair da água, o meu conselho é apenas enfrentar o tubarão. Deixa que o tubarão te veja, porque isso elimina o factor surpresa que os tubarões gostam e saberá exatamente quando está a ser visto.

Se estiveres a olhar para um tubarão, ele tem a tendência para reagir “Bem, acho que me viste. Já não me posso aproximar de ti. Vou-me embora”, por isso este será o meu melhor conselho.

E tentar aproveitar a experiência, porque os tubarões são cada vez mais raros e é cada vez mais difícil vê-los no seu habitat.

Jeff Kurr
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