Tudo começou há uns anos quando assistíamos a vídeos de viajantes de mochila às costas a explorar o mundo e ele me dizia “Que sonho! Isto é o meu sonho”. Repetia aquilo vezes sem conta, dias seguidos até que o desafiei: “Mas é mesmo um sonho para ti? Então vamos lutar por ele juntos”. E talvez não haja altura melhor do que fazê-lo na nossa lua de mel. Uma lua de mel de um ano? Porque não?

Somos bastante diferentes, eu a sonhadora (Fabiana 33), ele o pessimista (Sandro, 40), conhecemo-nos por obra do acaso em 2012, quando nos vimos obrigados a emigrar para o Reino Unido (já que não conseguíamos encontrar trabalho como enfermeiros no nosso país). É curioso perceber que foi também numa viagem, neste caso até Londres, onde tudo começou. Se não tivéssemos emigrado provavelmente nunca nos teríamos conhecido.

Para lá de sermos bastante diferentes, não éramos solteiros quando nos conhecemos. Tivemos de atravessar muitas montanhas e turbilhões (externos e internos) para ficarmos juntos mas mesmo depois de eu voltar para Portugal para uma proposta de trabalho em Lisboa, quis o destino (se é que existe) que nos uníssemos. Quero acreditar que as coisas na nossa vida acontecem por uma razão e muito assenta nas escolhas que fazemos para as alcançar. Talvez não acredite no destino.

Conhecemo-nos em Londres e começamos a namorar em Lisboa.

Desde cedo, começamos a viajar juntos. Sentíamo-nos vivos a explorar o mundo juntos, sempre foi uma paixão comum. Nunca deixamos de viver, conviver ou viajar mas tínhamos então o objetivo de poupar para o nosso objetivo: Viajar pelo mundo sem bilhete de regresso.

Em plena pandemia deixamos tudo para viajar pelo mundo e ainda não voltamos
Fabiana e Sandro na Guatemala créditos: nextstopwithlove

Havia apenas uma condição da minha parte. Não queria que esta fosse mais uma viagem como todas as outras até então. Viagens à turista, que são viagens incríveis e memoráveis, mas que a longo prazo talvez fosse cansativo e sem sal.  Não queria ter os dias programados com horários e roteiros. Queria algo mais autêntico, que nos tocasse de uma forma única, que nos fizesse sentir vivos e marcasse para o resto da vida.  Voluntariado ou couchsurfing? Ele aceitou fazer couchsurfing (alojamento gratuito em casa de pessoas).

O nosso “budget” (orçamento) era de 20 mil euros para os dois naquele ano a viajar e couchsurfing seria uma ótima forma de conhecer pessoas residentes, de contactar com a cultura do país autenticamente, e claro de poupar dinheiro.

Todas as formas de poupar dinheiro foram equacionadas. A mochila de 40L, que foi a nossa “casa” durante uma grande temporada, foi escolhida a dedo para nunca precisarmos de pagar por bagagem de porão, a saltar de país em país. Assim como a roupa e calçado a levar. Criamos a nossa página no Instagram @nextstopwithlove para partilhar esta aventura com quem a quisesse acompanhar e também para gritar ao mundo que nunca é tarde para lutarmos pelos nossos sonhos.

Quando tomamos a decisão de fazer esta viagem, começamos a dizê-lo aos nossos amigos e família e começou a tornar-se real. Inicialmente seriam só uns meses, ainda que sentíssemos a sociedade a empurrar-nos para a direção oposta, mas rapidamente percebemos que não fazia sentido ir por tão pouco tempo. Para “ajudar” à decisão, deparamo-nos com uma pandemia que dispensa apresentações. Trabalhamos árduo nos cuidados intensivos, investigação e urgência e quando tudo acalmou, decidimos ir à mesma. Ainda que com imensas fronteiras fechadas. “Nem que fique o ano todo em Portugal. Preciso de ir, preciso de uma pausa”, dizia ele.  A verdade é que se não o fizéssemos naquele momento (verão 2021), correríamos um grande risco de adiar para sempre. Não tínhamos uma lista rigorosa de países a visitar mas ambos queríamos regressar ao Sudeste Asiático e depois ir à Austrália e Nova Zelândia mas as fronteiras estavam fechadas. Sabíamos que seria muito difícil.

Ele tem uma licença sem vencimento. Eu despedi-me. Com um friozinho na barriga, vendemos o nossos carro usado, deixamos a nossa casa alugada e vendemos a mobília. Empacotamos algumas coisas em caixas e guardamo-las no sótão de uns amigos. Quem tem amigos, tem tudo na vida, realmente.

A sensação de liberdade de deixar tudo e ir com um bilhete só de ida é inexplicável

Costumamos dizer que não fomos nós a escolher os países a visitar, foram os países que nos escolheram a nós. Casámos em setembro e fomos à Sardenha e voltamos à ilha da Madeira (na esperança as fronteiras abrissem do outro lado do mundo) mas nada acontecia no Sudeste Asiático e Oceânia. Foi então que em novembro de 2021 decidimos partir para a América do Sul. Marcamos a viagem uma semana antes de partirmos, sem nada planeado e apenas com hotel marcado para a primeira noite em Lima no Peru.

A sensação de liberdade de deixar tudo e ir com um bilhete só de ida é inexplicável. A sensação de levar connosco o mínimo indispensável e partir à descoberta do mundo, vai ficar para sempre na nossa memória.

No Peru, graças às partilhas na nossa página de Instagram @nextstopwithlove conhecemos uma família de portugueses, a quem hoje chamámos de amigos, que nos ofereceram logo estadia. Jantamos com eles e lembro-me de nessa noite me deitar de coração cheio. De dizer ao Sandro que mesmo que a viagem acabasse ali, já tinha valido a pena sair de casa, deixar a nossa zona de conforto. O Peru foi um banho de paisagens deslumbrantes, montanhas coloridas, lagos de cortar a respiração e pessoas de uma amabilidade incrível, mesmo sem falarmos a mesma língua. Pisamos o mesmo chão que os Incas pisaram, aprendemos como é que eles contemplavam e estudavam as estrelas numa poça de água, provamos chá de folha de coca, passámos a noite num Oásis, escorregamos de cabeça nas dunas, dormimos no autocarro noturno mais incrível de sempre que mais parecia a primeira classe no avião, e numa excursão, quase ficámos encalhados no meio da lama com a carrinha do nosso grupo. Aventuras para mais tarde recordar! Ah e afastamo-nos de todo o tipo de turismo de exploração animal.

Peru
Peru créditos: nextstopwithlove
Peru
Peru créditos: nextstopwithlove

Foi também no Peru que sofremos com a altitude ao subir até à montanha colorida mais bonita que vimos até hoje. Mas foi também aqui que começamos outra grande viagem.  Saber apreciar a caminhada sem nos concentrarmos no destino final? Este não é o Sandro, diria eu. Talvez por isso neguei tanto o amor que sentia por ele quando a nossa história começou. Não me identificava com pessoas assim. Mas, e se eu vos disser que ele quis parar o caminho todo? Quis até usar o drone a nevar!

Viajar e amar tem destas coisas. Negamos a adaptação ao primeiro contacto, porque estamos fechados em nós, na nossa cultura e na nossa forma de ver e viver a vida. Mas depois, percebemos que só ganhamos com a diferença. E que não temos de deixar de ser quem somos, ou até mudar. Só precisarmos de nos abrir ao crescimento. Amar não é aceitar a diferença, é respeitar a diferença do outro e crescer com ela. E o que é isto senão viajar?

O segundo país na América do Sul foi a Colômbia. Sempre que nos lembramos da Colômbia, ficámos de coração cheio. Talvez o país sobre o qual mais “avisos” tivemos. Pessoas conhecidas pediam-nos para termos muito cuidado mas talvez tenha sido o país onde nos sentimos melhor acolhidos. Colômbia é sinónimo de calor, cor, música, alegria.  O calor das pessoas. Que energia! Fizemos uma free walking tour em Cartagena e vimos logo uma preguiça pela primeira vez no parque da cidade. É uma ótima forma de conviver com quem ali vive (os guias são locais e mostram-nos o melhor da cidade). Gostámos tanto da free walking tour que acabamos por voltar mais tarde para a food tour, foi incrível voltar a passear pela cidade desta vez para comer as iguarias colombianas e provar o café colombiano, depois de o ver fazer à nossa frente da forma tradicional.

Colômbia
Colômbia créditos: nextstopwithlove

Aqui começaram os banhos de água fria. Nunca nos tinha acontecido marcar um hotel e só depois percebermos que não havia água quente. É tão natural que nem mencionam na descrição do hotel. Mas o que não nos mata torna-nos mais fortes e depressa nos rimos da situação, depois daquele choque inicial de europeu mimado. Afinal tínhamos tudo. Tínhamos uma liberdade e uma viagem incrível, qual é o problema de tomar banho de água fria? Passado uns dias o banho de água fria até já sabia bem, com aquele calor. “Há males que vêm por bem”. Não fazíamos ideia que a Colômbia também tinha praias paradisíacas. Foi aqui que nos identificamos com a cultura latina. Não há pontualidade britânica, há sim música nas alturas na praia, cada um com a sua coluna. Chegávamos à pousada ao final do dia, depois de darmos a volta à ilha de bicicleta ou de virmos da praia e tantas vezes nos ofereciam um docinho que tinham acabado de fazer.

O terceiro país foi o Panamá, um país muito especial para nós. O país das amizades improváveis, da acro-yoga na areia ao pôr do sol, das aulas de dança na varanda da nossa nova amiga Diva, com um copo de vinho na mão. O país onde nos ensinaram a cozinhar patacones. Mal aterramos conhecemos dois estranhos que nos levaram a um mercadinho de Natal. Nós de mochilonas às costas, um calor abrasador num mercadinho de Natal, incrível (escusado será dizer que estes estranhos hoje são nossos amigos).

Panamá
Panamá créditos: nextstopwithlove

Foi no Panamá que fizemos couchsurfing pela primeira vez e onde passámos o Natal. Também foi no Panamá que ficamos sem drone (caiu do 13º andar), no mesmo mês que a nossa conta “explodiu” o número de seguidores com uns reels virais, passamos de 3 mil seguidores para 15 mil. Tínhamos a esperança de conseguir poupar algum dinheiro e tentar parcerias mas seria preciso crescer o número se seguidores e nunca nos nossos melhores sonhos consideramos que tal nos fosse acontecer com reels virais. Ainda assim, sem drone, sem tripé (não cabia na mochila)  e sem um email, media kit e tudo mais, não nos sentíamos preparados nem à altura para abordar os hotéis a estabelecerem parcerias connosco (estadias gratuitas em troca de produção de conteúdo/exposição). Mas continuámos a nossa viagem com a mesma leveza.

O Natal no Panamá é como uma festa de passagem de ano na Europa

O Sandro tinha este sonho de usar o seu gorro de Natal na praia (tinha imaginado a Austrália para o fazer, mas as praias paradisíacas de San Blas, no Panamá também não deixam ficar mal). Claro que eu levei na mala uns gorros de Natal e nos divertimos imenso na praia durante o mês de Dezembro. Tanta gente se metia connosco por achar engraçado. Fizemos amizades assim! Não tínhamos planos para o Natal e sentíamos uma certa ansiedade por saber que tínhamos disponibilidade de passar o Natal com a família (não trabalhávamos), o que nem sempre acontecia, por sermos enfermeiros e emigrantes, e mesmo assim “escolhemos” passar o Natal noutro continente. Os voos eram muito caros, tínhamos decidido, quando compramos a viagem  para o Peru em novembro, que o Natal ia ser algures na América do Sul. Mas é engraçado como a vida trata de nos surpreender a toda a hora. Quando menos esperávamos, fomos convidados pela Jasnay (a nossa host do couchsurfing, quem nos abriu as portas de sua casa para passar umas noites gratuitamente) para passar o Natal com a família dela. Ficámos em pulgas! Lembro-me de dizer ao Sandro durante a viagem internacional Madrid – Lima que adorava passar o Natal com uma família, mas ambos sabíamos que seria praticamente impossível a não ser que fôssemos bater às portas das pessoas. Mas quando saímos da nossa zona de conforto, a vida surpreende-nos. A toda a hora.

Natal no Panamá
Natal no Panamá créditos: nextstopwithlove

O Natal no Panamá é daquelas experiências em viagem que vamos guardar para sempre. Vamos contar aos nossos filhos aquele Natal que chorámos de felicidade, abraçados a pessoas que no dia anterior eram completamente estranhos para nós. Vamos ser velhinhos e vamo-nos sentir vivos ao contar que fizemos pela primeira vez uma direta no Natal. Sim, o Natal no Panamá é como uma festa de passagem de ano na Europa, mas de t-shirt, música nas ruas e comida partilhada. Repetíamos vezes sem conta a frase “Ainda bem que viemos”, ainda bem que partimos para o nosso plano B. Ainda bem que fizemos couchsurfing e que abraçamos o desconhecido, ainda bem que nos mantivemos de coração aberto pelas  pessoas que conhecemos e que marcaram para sempre a nossa vida. Afinal o Natal é isto. E não temos de nos preocupar em devolver o amor a estas pessoas que dão sem querer nada em troca. Só temos de ser da mesma forma para quem se cruza connosco, talvez esta seja a maior forma de amor. A vida encarregar-se-á do resto.

Passámos a fronteira terrestre do Panamá para a Costa Rica. Fomos atacados pelos mosquitos, ao ponto de ter de tomar medicação oral para controlar todo o desconforto. Um pesadelo que me fez ficar de cama uns dias, começamos com o pé esquerdo mas podia ser pior (não fôssemos nós portugueses!).

Costa Rica é um país lindo. É a natureza no seu estado mais puro. Guardamos na memória aqueles dias de praia de água quentinha, com os nossos amigos dos Países Baixos, envolvidas de palmeiras, vida selvagem e muito pouca gente. Vimos pela primeira vez baleias, tucanos, araras, cobras venenosas, guaxinins, caranguejos eremitas e macacos de várias espécies. Fizemos atividades radicais no meio da floresta e fomos tão felizes. Mas era tudo tão caro. O nosso orçamento levou um grande desfalque e tememos não ter dinheiro para os restantes meses. Ainda fizemos couchsurfing, conhecemos pessoas incríveis e que nos empurraram a acreditar em nós e nos impulsionaram a tentar parcerias com empresas de excursões e hotéis, a quem hoje chamamos de amigos (sim, acontece em todos os países). E foi graças a eles que ganhámos coragem de começar a tentar, até que conseguimos a nossa primeira parceria na Costa Rica. Começamos por necessidade e nem acreditamos o que já conseguimos hoje em dia, só por nos dedicarmos, empenharmos e acreditarmos em nós. Mas voltando à Costa Rica... Ainda tivemos mais peripécias. Apercebemo-nos a dois dias de acabar o prazo, que só nos tinham concedido 18 dias de permanência no país. Como portugueses, o nosso passaporte dá-nos uns 90 dias de permanência mas por alguma razão só nos concederam 18. Voltamos à fronteira e passamos uma noite no Panamá para podermos depois entrar na Costa Rica novamente e ter mais uns dias de permanência no país.

Costa Rica
Costa Rica créditos: nextstopwithlove
Costa Rica
Costa Rica créditos: nextstopwithlove

O nosso quinto país foi o México. Não escolhíamos países, eles iam-nos escolhendo a nós. Todos os países que não exigiam um teste covid ou quarentena, escolhiam-nos para os visitar. Apesar de viajarmos sempre com seguro de viagem, não queríamos perder nem um dia em quarentena profilática nem gastar mais um cêntimo do nosso apertado orçamento em testes. Preferíamos gastar o dinheiro numa iguaria local ou experiência. Foi a nossa segunda vez no México e foi ainda melhor. É incrível conhecer o México em regime tudo incluído mas é ainda mais incrível explorar zonas lindíssimas menos conhecidas, voltar a fazer couchsurfing e andar à boleia. O México é aquele país onde vamos voltar, sem dúvida. O país onde a comida é melhor e onde as pessoas nos ajudam sem esperar nada em troca.

México
México créditos: nextstopwithlove

Nunca nos sentimos a viajar só os dois, é incrível como as horas que dormíamos a menos para partilhar tudo com quem nos acompanhava nos trouxe uma família (algumas delas já conhecemos pessoalmente). Quando criamos a página, não fazíamos ideia que iríamos ganhar outra família. O México foi o país que nos abriu portas às parcerias com hotéis 5 estrelas! Ainda me lembro da nossa máxima “mais sorte que juízo” ter feito tanto sentido quando ali entramos de mochila às costas. Temos plena noção que chegámos onde chegámos pela nossa dedicação, mas também por nos termos cruzado com as pessoas certas pelo caminho. Fizemos amizades no digital e durante a viagem, que nos deram o empurrão de confiança e as dicas que precisávamos. Estamos muito gratos por isso. Não sabíamos como agradecer tudo o que estava a acontecer à nossa volta, o privilégio de ter uma lua de mel de um ano pelo mundo e ainda a sorte de encontrarmos pessoas incríveis pelo caminho. Sabem aquela sensação de adrenalina? Sentíamo-nos assim todos os dias. Todos os dias íamos explorar algo novo, todos os dias de alguma forma o nosso coração enchia. É uma felicidade difícil de pôr em palavras.

México
México créditos: nextstopwithlove

O último país no continente americano foi a Guatemala. E foi aqui que tivemos a melhor experiência em viagem de sempre. Subimos um vulcão. Mas não foi um vulcão qualquer. Demoramos seis horas a subir, foi uma grande prova de superação com muitos palavrões dele à mistura, reflexão e introspeção. Mas a melhor parte foi chegar ao topo e ver a erupção de outro vulcão mesmo em frente. As conversas com o grupo à volta da fogueira e aquele clarão vermelho a aparecer de meia em meia hora, seguido de um barulho ensurdecedor. Aquele chocolate quente foi talvez o mais maravilhoso que alguma vez bebemos. À noite fomos para a nossa tenda (pouca era a vontade) e depois de uma noite mal dormida, devido a todo o espetáculo que continuou a acontecer, tivemos o nascer do sol mais mágico e incrível de sempre. Vai ser difícil esquecer aquele amanhecer. Em cima das nuvens com um vulcão em erupção à nossa frente.  Sentimo-nos muito pequeninos e muito sortudos também. Lembro-me de ficarmos ali só a contemplar em silêncio e a deixar escapar umas lágrimas. Somos mais fortes do que o que pensamos e definitivamente mais sortudos também.

Guatemala
Guatemala créditos: nextstopwithlove

Foi também na Guatemala que voltei a ficar doente mas tudo se resolveu. Tivemos a ajuda de um amigo português que fizemos dias antes numa free tour. Eu nem forças para andar com a mochila às costas e o Rui veio de propósito ter connosco a outra margem do Lago Atitlán para me ajudar. Tínhamo-nos conhecido há uns dias e já sentia que nos conhecíamos há anos. Adaptamos o nosso plano e viajamos com mais amigos, como em todos os países por onde passamos. É engraçado a intensidade com que as coisas acontecem quando estamos em viagem. Um dia juntos parece uma semana, a entre ajuda e a camaradagem que se criam é algo incrível que escala uma amizade muito rapidamente. Era isto que procurávamos nesta longa viagem que a distinguiu de todas as outras. A Guatemala também era um país sobre o qual nos diziam para termos muito cuidado mas a verdade é que, tal como na Colômbia e México, sentimo-nos muito bem recebidos. Esquecemo-nos da nossa máquina fotográfica num autocarro e conseguimos recuperá-la graças à ajuda daquele povo. Naquela noite deitamo-nos de coração cheio e gratos por tudo o que a vida nos proporcionava, por todas as pessoas que punha no nosso caminho. Era mais sorte que juízo.

Voltamos a Portugal, fizemos “contas à vida” e decidimos voltar “à estrada”, desta vez para o Sudeste Asiático. Restavam uns 3000 euros para cada um, e depois de conseguirmos parcerias em hotéis (para poupar dinheiro em estadias), compramos os voos para Singapura. Desta vez, o tripé tinha de caber na mala.

Singapura foi incrível, tínhamos medo de ser dececionados já que toda a gente falava bem daquele destino, mas ainda conseguiu surpreender pela positiva. O mesmo aconteceu com Bali,  e com o Vietname, mas já lá vamos. Ficámos pela primeira vez num hotel luxuoso em parceria e só acreditamos quando na hora de fazer check-out não tínhamos nada a pagar. Entramos de mochila às costas e fizeram-nos sentir em casa. Não vamos esquecer esse carinho todo, nem aqueles ursinhos vestidos de noivos, nem todas as refeições deliciosas que nos ofereceram sem termos pedido nada. Incrível.

Singapura
Singapura créditos: nextstopwithlove

A cidade é super futurista, como já devem ter ouvido falar. Parecia que estávamos dentro de uma cena do Avatar. Tudo muito bem pensado e muito limpo também, nem parecia que estávamos no Sudeste Asiático. O país onde é proibida a pastilha elástica é também o país de várias religiões e etnias onde e todos vivem em comunidade, respeitando-se. O mundo seria um lugar melhor se existissem mais “Singapuras”.

Singapura
Singapura créditos: nextstopwithlove

A comida tem influencias malaias, chinesas e indianas, deliciosa por sinal! Fizemos um amigo de descendência chinesa que nos levou a sítios típicos para comer e ainda nos tirou umas fotografias lindas, ficou prometido visitar-nos para conhecer o norte de Portugal. Foi interessante perceber através dele a história daquele país, de como o trabalho é a prioridade na vida deles. Sentimo-nos os rebeldes por sermos europeus mas foi ele quem nos levou até ao topo do Marina Bay Sands sem qualquer bilhete de acesso. Rimo-nos todas as vezes que revemos as nossas stories de Singapura com o Grismond. Ainda hoje mantemos contacto e sem dúvida que o melhor da viagem são as pessoas. As pessoas incríveis que se cruzam no nosso caminho. Lembro-me de nos deitarmos naquela cama super confortável do Conrad e de nos sentirmos as pessoas mais sortudas do mundo por poder estar a viver um sonho, por nos sentirmos tão vivos a cada dia. Acordávamos antes do despertador tal era o entusiasmo de viver.

Seguimos viagem para o Vietname. Não temos palavras para este país. Um povo sorridente, que fala connosco por gestos, olhares e sorrisos mesmo não falando a língua. Um país onde as crianças não são ensinadas para não falarem com estranhos, muito pelo contrário. São incentivadas a abordarem os estrangeiros e a praticarem o seu inglês para um dia poderem singrar na vida. Sentíamos que ser turista ali era a melhor coisa do mundo para aquelas pessoas, era assim que nos faziam sentir. Atravessar a estrada, mesmo na passadeira, era o desafio do dia. Ninguém parava para nos deixar passar mas também ninguém se atropelava. São organizados no meio do caos. Foi no Vietname que me esqueci do telemóvel num autocarro às 5h da manhã (ainda era de noite) e fizeram-mo chegar até mim de táxi. Nunca nos vamos esquecer do povo vietnamita. A pergunta que pairava no ar “será que em Portugal o telemóvel não tinha desaparecido?” Não sabemos, mas a verdade é que no Vietname apareceu.

Vietname
Vietname créditos: nextstopwithlove
Vietname
Vietname créditos: nextstopwithlove

Nadamos à chuva, fizemos um cruzeiro luxuoso em parceria na Halong Bay e fomos imensamente felizes ali. Ainda nos questionamos se estar parte da viagem seria tão autêntica como a primeira, uma vez que íamos ficar hospedados em hotéis incríveis em parceria e longe do que é mais autêntico e do povo, mas sabem que mais? A vida surpreende! Depois de fazermos check-out do Sheraton Nha Trang, a Kay, diretora de marketing, ofereceu-se para nos dar boleia. Foi a Kay que personalizou os nossos cartões de quarto com a fotografia do nosso casamento, que é ainda hoje a nossa foto de perfil. Vamos guardar para sempre essa recordação linda. Pelo caminho paramos num tasquinho de rua onde ela  vai regularmente comer desde criança e ficamos ali. Na beira da estrada, sentados num banquinho de plástico super pequeno (mais parecia de crianças) a falar sobre tudo e mais alguma coisa. Nessa mesma manhã, por termos acordado para fotografar ao nascer do sol, e por termos umas vistas incríveis para o mar da nossa suite, tínhamos descoberto algo muito interessante na cultura vietnamita: vão nadar para o mar e fazer exercício na areia ao nascer do sol, tudo porque não querem ficar morenos, uma vez que deste lado do mundo estar moreno não é sinal de beleza, muito pelo contrário. Foi no Vietname que andamos de mota pela primeira vez em Ninh Binh. Foi o sair da nossa zona de conforto e uma sensação de liberdade indescritível de sentir o vento na cara, agarrada a ele. Uma aventura que não vamos esquecer. Fizemos amigos de várias nacionalidade e temos vontade de voltar. Não queríamos deixar o Vietname, só o fizemos porque já tínhamos parcerias fechada em Bali.

Vietname
Vietname créditos: nextstopwithlove

Chegados a Bali fomos para o Norte e não podíamos ter começado melhor. Como assim uma casa (villa) só para nós com piscina e jacuzzi privados? Nem nos nossos melhores sonhos achamos ser possível ter uma lua de mel assim. “Isto está mesmo a acontecer?”, fartavamo-nos de perguntar um ao outro. Não vamos nunca esquecer aquele pôr do sol no jacuzzi. Bali foi o desacelerar que precisávamos e nem sabíamos. Acordar, fazer yoga ao nascer do sol e  restabelecer energias com mergulhos na piscina a contemplar a Natureza envolvente. As pessoas que ali moram aquecem-nos o coração na mínima interação. Genuinamente agradecem por estarmos ali e tratam-nos como se fôssemos da família. Nunca tivemos esta sensação noutro país, eles vão mais além para nos agradar e surpreender. Querem mesmo que fiquemos com uma boa impressão da ilha deles, mas fazem-no genuinamente como nunca antes vimos. Óbvio que queremos voltar.

Bali
Bali créditos: nextstopwithlove

É uma ilha onde sentimos a confusão e aquele ambiente frenético de saber que estamos no Sudeste Asiático em algumas cidades, mas ao mesmo tempo é um retiro espiritual no meio das montanhas, cascatas, praias e florestas. A comida é deliciosa, e deste lado do mundo é tudo tão mais barato, que ainda sobrou dinheiro daqueles 3000 euros nestes quase três meses (certo que fizemos várias parcerias com hotéis, mas também fizemos muitas experiências e comemos muitas vezes fora).

Bali
Bali créditos: nextstopwithlove

Bali não é a melhor ilha para uma praia paradisíaca serena mas as ilhas Gili são um paraíso caído do céu. Ficamos encantados e não vamos esquecer aquela água azul e o dia em que nadamos com tartarugas, no seu habitat natural. Assim como as Nusas, estendemos a nossa estadia por gostarmos tanto de Nusa Lembongan. Ficamos com pena de não visitar as Komodo mas havemos de voltar. Preferimos andar devagar e explorar de forma autêntica do que andar a correr e sentir tudo de uma forma mais superficial. Claro que pelo meio fizemos amizades e estivemos uns 12 dias com os nossos novos amigos portugueses. Foi incrível e voltaríamos a fazer o mesmo. Viajar desta forma permite-nos adaptar o nosso roteiro e seguir rumos diferentes, uma liberdade sem igual.

Terminámos a nossa passagem pelo Sudeste Asiático na Málasia, voltamos aos banhos de água fria (nas ilhas paradisíacas pouco desenvolvidas chamadas Parhenthian). Foi muito giro ver o contraste entre Kuala Lumpur e estas ilhas, uma cidade super desenvolvida e futurista a umas ilhas com muito poucas infraestruturas. Vimos a felicidade e simplicidade na sua forma mais pura. Ainda hoje é o dia que dou por mim a rever as nossas histórias das ilhas Parhenthian, quando as crianças brincavam descalças num barco abandonado. Quando faziam uma festa debaixo da chuva. Pouco importava o que tinham vestido. Todos sabemos que o melhor desta vida não são coisas mas é tão fácil sermos absorvidos por todo o estímulo diário de uma sociedade consumista... Mas ali, de mochila às costas e a vestir sempre a mesma roupa (claro que íamos lavando!) e a observar toda aquela felicidade nas pequenas coisas, tínhamos a certeza que estávamos no caminho certo. Não restavam duvidas.

Malásia
Malásia créditos: nextstopwithlove

Foi na Malásia que nadamos com tubarões pela primeira vez, que voltamos a ver peixinhos coloridos e tartarugas. A comida é deliciosa, não tivéssemos nós a sorte e o hábito de fazer amigos que nos tiram umas fotografias e ainda nos levam a comer a sítios tradicionais maravilhosos. Tudo começou no México, quando tivemos a ideia de contactar fotógrafos locais para fazerem uma parceria connosco. Como tínhamos já uma comunidade de mais 15000 pessoas, a nossa exposição potencialmente traria clientes para eles e a nós tirava-nos o peso de cima de tirar fotografias nas ruas com tripé - detestamos fazê-lo, apesar de termos uma página de viagens. Identificamo-nos muito mais com vídeos, apesar de também gostarmos de ter recordações bonitas em fotografia, mas falta-nos a paciência. Gostámos tanto da experiência e de conhecer desta forma as pessoas que ali moram, as histórias por detrás dos monumentos, os restaurantes e barraquinhas onde quem ali mora mais gosta de comer e claro de fazer amizades, que decidimos continuar a fazê-lo no Sudeste Asiático, ainda que com um tripé na mochila desta vez.

Malásia
Malásia créditos: nextstopwithlove

No regresso a Portugal ainda estivemos umas 22 horas em Abu Dhabi e visitámos uma das mais bonitas mesquitas do mundo. Voltámos a Portugal antes ainda de completar um ano em viagem porque o nosso orçamento não nos permitia viajar por muito mais tempo, e também porque tínhamos combinado umas férias em família. Explorar o mundo é incrível mas, tempo de qualidade com as pessoas que mais amamos na vida, é ainda melhor.

Durante a viagem fomos “bombardeados” de mensagens sobre como fazer parcerias com hotéis e assim que chegamos pusemos mãos à obra a desenvolver o ebook com todo o nosso conhecimento, media kit e email “pitch” em português e inglês, que nunca pensámos ter tanto sucesso. É com muito orgulho que podemos dizer que lançamos o primeiro ebook em Portugal de como estabelecer parcerias com hotéis. Da mesma forma, sempre que deixávamos de partilhar histórias uns dias por cansaço ou desmotivação, a nossa caixa de mensagens enchia. Tanta gente se preocupava connosco, tanta gente nos dizia que ver as nossas histórias era o momento mais esperado do dia. Sentiam a nossa falta quando fazíamos uma pausa. Sentiam-se a viajar connosco e verbalizavam que adoravam um dia fazer uma viagem connosco. Incentivaram-nos a organizar viagens de grupo e decidimos arriscar. Era suposto já termos voltado a Inglaterra, ao nosso emprego como enfermeiros, mas adiamos o regresso para dar uma oportunidade a este pequeno projeto. A nossa primeira viagem de grupo é já no próximo ano à Tailândia e não podíamos estar mais entusiasmados. Há uma grande probabilidade de não conseguirmos o número mínimo de pessoas para a viagem se concretizar, mas a vida tem-nos mostrado que o segredo da felicidade e do sucesso é não ter medo de falhar. E se não tentássemos por medo de falhar, nunca saberíamos se este seria um outro sonho adiado para sempre.

A vida é curta demais para deixarmos os sonhos na gaveta.

Até à próxima paragem!

Com amor,

Fabiana e Sandro

@nextstopwithlove

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