No primeiro dia, passeamos pelo centro de Cabeceiras e fomos conhecer o seu património cultural, gastronómico e etnográfico. Para o segundo dia guardamos o trilho e os moinhos quase camuflados da Levada da Víbora e as histórias do fim da linha ferroviária do Tâmega. O SAPO Viagens deixa-lhe as sugestões para dois dias nesta fronteira entre Trás-os-Montes e o Minho.

DIA 1

VISITAR A CASA DO TEMPO DE CABECEIRAS DE BASTO

Para se ter um panorama geral do concelho, nada melhor do que começar o dia na Casa do Tempo. As tradições, histórias e património cultural são desvendados nas salas que percorrem este centro interpretativo. Aberto ao público desde 2013 e situado em pleno centro da cidade, é aqui que os visitantes podem conhecer as origens da região e recolher a informação turística que necessitem para fazer um plano de visita à medida.

Recriação de uma tasca na Casa do Tempo
Recriação de uma tasca na Casa do Tempo créditos: Bárbara Gouveia

VISITAR O MOSTEIRO DE SÃO MIGUEL DE REFOJOS

Construído no século XVII e XVIII, este mosteiro é considerado a joia do Barroco e foi a casa dos monges beneditinos até 1834. Manuela Martins, técnica de turismo da Câmara de Cabeceiras, acompanha a visita e explica que o restauro demorou três anos e ficou concluído em julho de 2019. Neste local também funciona a Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto e o Externato São Miguel de Refojos.

À entrada, a figura de São Bento, o fundador da Ordem de São Bento, e a sua irmã, a Santa Escolástica, dão as boas-vindas a quem se prepara para entrar para um local onde a simetria era sinónimo de perfeição artística.

Mosteiro São Miguel de Refojos
O Mosteiro São Miguel de Refojos na praça principal da cidade créditos: Bárbara Gouveia

De tal modo que, nas laterais do interior do mosteiro há dois órgãos, um de cada lado. Um toca e o outro foi construído para criar harmonia arquitetónica. Podemos ainda apreciar a Capela do Santíssimo Sacramento, construída de raiz no século XVIII, e o zimbório – a parte mais alta da cúpula, única nos 29 mosteiros da Ordem Beneditina portugueses e que se eleva a 36 metros e que hoje é um dos símbolos do concelho.

PROCURAR O NÚCLEO MUSEOLÓGICO DE ARTE SACRA

É na antiga sacristia que estão guardados alguns dos maiores tesouros de arte religiosa. As grandes esculturas de S. Bento e de Santa Escolástica são os anfitriões deste espaço, mas há várias pinturas do século XVII. Além das pinturas e esculturas, há ainda mobiliário, têxteis e outros objetos de valor histórico.

ALMOÇAR NO RESTAURANTE "O PAÇO"

Junta o lado emocional de um restaurante familiar com o lado profissional de um espaço incontornável na região. O espumante de vinho verde, produção da casa, acompanha as entradas e a conversa. António Manuel Magalhães conta-nos a história do Paço, com humor e leveza dos seus 24 anos mas com a sabedoria de quem cresceu em outros tempos e ligado ao negócio da família. Diz que o que distingue o restaurante são as carnes e o bacalhau na brasa e o arroz de robalo. Nós dizemos que não pode também deixar de provar o arroz de grelos com os filetes de polvo.

Se quiser experimentar algo mais regional, prove o estufado de feijocas e javali. O almoço continua com o verde da casa e espreitamos a garrafeira, consequência do passatempo de António, que dá a cara, e que junto com as irmãs e mãe, tem vindo a transformar o que era inicialmente o restaurante de diárias dos pais. Para terminar, prove uma das rabanadas (uma delícia!).

CONHECER A CASA DA LÃ DE BUCOS

A serra da Cabreira vai estando presente ao longo das muitas histórias e tradições desta região e ainda hoje, nas aldeias da região, os rebanhos fazem parte da etnografia. A roca e as lãs ocuparam os tempos de mulheres e meninas e estes afazeres serviam de ganha-pão em épocas em que não abundava a fartura. Hoje, na freguesia de Bucos, um grupo de dez mulheres reúne-se para fiar e manter viva esta tradição. Desde lavar a tecer, na Casa da Lã conseguimos perceber todo o percurso que dá origem ao tecido e as estórias que mantêm vivas as tradições.

A Casa da Lã situa-se na antiga escola primária de Bucos. Em alguns dias, é possível acompanhar todo este processo e, de camisolas a mantas, comprar alguns dos produtos feitos de forma quase ancestral.

JANTAR NA QUINTA DO BOTAS

Num local muito isolado e envolvido pela Natureza, e depois das contracurvas da paisagem e de atravessar a Ponte de Cavez, chegamos ao Botas – um restaurante frequentado pelos locais e que marca também muitas das festas da região. Com um salão de festas e outra sala de refeições, independentemente do motivo e do número de pessoas, aqui o menu é tradicional. Provámos o bacalhau grelhado acompanhado por um prato de couves e feijão – algo aparentemente tão simples e que conseguiu juntar a novidade de um prato desconhecido com os sabores antigos de casa.

DORMIR NA CASA DE CARCAVELOS

Diz-se, nesta fronteira entre as regiões mais a norte do país, que os seus habitantes têm “a alegria dos minhotos e a hospitalidade dos transmontanos” e não há melhor sítio para se sentir isto do que a Casa de Carcavelos. As portas desta casa tradicional de pedra dão as boas-vindas a um ambiente familiar e acolhedor, onde se sente o silêncio do campo e se acorda ao de leve com o cantar da zona rural.

O pequeno-almoço é servido numa grande sala de jantar, em que as comodidades de hotel se misturam com os doces tradicionais feitos por Lucinda Coutinho, que gere a casa com a filha Rita. Além dos quartos na casa principal, há ainda uma casa com três e outra com cinco. Estas têm também cozinha, lareira e permitem o acesso ao jardim envolvente, piscina e campo de ténis. Apesar de termos a sensação que estamos bem remotos no campo, a casa está situada a 10 minutos de carro do centro de Cabeceiras.

Dia 2

PERCORRER A LEVADA DA VÍBORA

São quase 11 km para percorrer a pé pela levada da Víbora, um caminho acompanhado pelo som da água a correr. Nesta emersão de natureza, em plena Serra da Cabreira, podemos apreciar o bosque repleto de pinheiros, azevinhos, carvalhos ou madressilvas. A levada de granito que nos encaminha tem 5300 metros e acompanha metade do percurso.

Também a fauna habita o caminho, aliás foi mesmo a víbora que lhe deu o nome, mas o mais certo é não se cruzar com ela. É venenosa e a protagonista de várias lendas, mas não é mortal para um adulto. Nuno Rebelo, responsável pelo projeto de animação turística Raízes, e habituado a fazer o percurso, diz que nunca a viu sem a procurar, mas que quando a procurou, encontrou rápido. Dizem que esta espécie é preguiçosa e que espera pela presa. Nuno menciona que os especialistas em répteis a encontram rápido, mas que há pessoas que passam incontáveis vezes pelo caminho sem nunca ter encontrado esta anfitriã.

DESCOBRIR OS MOINHOS DE REI

O Núcleo dos Moinhos de Rei é um dos ex libris do percurso. Filipe Bastos, presidente da Junta de Freguesia de Abadim, explica a dificuldade que têm tem tido para reativar os moinhos. Foram mandados construir por D. Dinis e muitos deles já têm vários proprietários que se foram multiplicando ao longo das gerações. Há alguns moinhos em melhor estado, mas em geral recuperar os 27 que há pelo caminho não é tarefa fácil – e isso explica o modo como a natureza foi avançando e incluindo-os lentamente na paisagem.

Aqui muito perto, é também possível visitar o Núcleo Interpretativo da Vida Selvagem e a Casa do Pão.

PARAR NA ÁREA DE LAZER DA VÍBORA

A paisagem muda quando chegamos à Área de Lazer da Víbora, o caminho que se estreitava agora abre-se para uma paisagem bucólica e igualmente verdejante. Aqui há mesas, grelhadores, lava-loiças e casas de banho. E daqui continuamos o caminho e desta vez, vamos subir.

Levada da Víbora
créditos: Bárbara Gouveia

SUBIR ATÉ AO MIRADOURO PORTO D'OLHO

Este caminho ainda não tem sinalização – “normalmente, as pessoas seguem a levada e regressam pelo mesmo caminho”, explica Nuno Rebelo, que já perdeu a conta às vezes que fez este caminho e que o deu a conhecer aos viajantes que procuram este tipo de turismo. Para potenciar o percurso, a ideia é vir a sinalizar o caminho, e criar um círculo, juntando este ao PR das Torrinheiras, que conta com mais 10 km e criar a possibilidade de um caminho conjunto de 20 km.

Depois da subida, Porto D'Olho apresenta uma vista desafogada e panorâmica sobre a região. Além da Capela, visitada sobretudo pelos emigrantes, a autarquia quer vir a chamar a atenção para a vista que este miradouro natural proporciona, inserindo-o numa rede com os onze miradouros do concelho que está a ser desenvolvida e criando uma moldura com materiais naturais no local.

FAZER UM PIQUENIQUE OU IR A BANHOS NA BARRAGEM DO OURAL

A barragem do Oural é outro dos locais imperdíveis para uma paragem. Além da possibilidade de dar um mergulho, pode ainda estender a toalha na relva. Há ainda tudo o que é necessário para preparar um piquenique à beira de água e material de apoio para piquenique bem como casas de banho.

Levada da Víbora
créditos: Bárbara Gouveia

VISITAR O ARCO DE BAÚLHE, O FIM DE LINHA

Esta pequena vila no fim da antiga linha de comboio é um autêntico baú de histórias e aventuras de outros tempos. “Foi em tempos um local de trocas comerciais tão importante como Amarante e Ponte de Lima”, conta Carlos Teixeira, presidente da União de Freguesias de Arco de Baúlhe e Vila Nune, que fala da freguesia com um entusiasmo contagiante.

Entre 1949 até 1990, a Linha do Tâmega, com partida na Livração e direção a Marco de Canaveses, terminava em Arco do Baúlhe. Por ser o fim da linha, era um sítio de paragem e de passagem. “O Camilo Castelo Branco ficava ali na Estalagem Pacheco quando ia para Ribeira de Pena”, afirma Carlos, que conta que o escritor português terá também descrito o Arco como o lugar onde “se saciam todas as fomes”.

Que continua: “O Mário Soares ficou ali à frente uns dias antes de dar o salto” e aponta para a na loja do Sr. Teixeira, uma tasca cor-de-rosa em frente à estação de comboios, e afirma: “Era ali que as negociatas se davam. O meu avô e o meu tio foram passadores e era ali que se combinavam as passagens, depois seguiam para Chaves e passavam fronteira.”

Corre a história que o contrabando de volfrâmio também trazia muita riqueza à região, que contrastava também com as lágrimas que ficaram na linha de quem viu partir os seus para o Ultramar.

Já antes da linha de comboio, e por estar entre a serra da Lameira e a serra do Alvão, esta vila era um ponto de paragem. “O que foi muito bom! Trouxe-nos muito conhecimento, convivemos com ideias de outros sítios mais urbanos e fomos o motor de arranque das Terras de Basto”, conclui Carlos.

Arco de Baúlhe
créditos: Bárbara Gouveia

ESPREITAR O NÚCLEO FERROVIÁRIO DO ARCO DE BAÚLHE

Entramos na antiga estação ferroviária e a bilheteira está preservada de forma a relembrar uma época que parece, mas não foi assim tao distante – a estação foi inaugurada com toda a popa em 1949 e encerrou em 1990.

Hoje, os visitantes podem percorrer o núcleo museológico e visitar vagões, cisternas, locomotivas a vapor e a carvão. Estão ali as carruagens-salão utilizadas pelo Rei D. Carlos e pela Rainha D. Amélia aquando da viagem a Pedras Salgadas. Podemos ir exatamente até ao final da linha: a placa giratória usada para a inversão de marcha da locomotiva e automotora.

Arco do Baúlhe

CAMINHAR NA ECOPISTA DO TÂMEGA

Da linha de comboio já não resta quase nada e ficaram as antigas estações de comboio que servem de apoio a quem percorre a Ecopista. Do Arco até Amarante são 40 km que se podem percorrer a pé ou de bicicleta.

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