Entre murais recentemente pintados nos prédios, exposições de fotografia e vídeo projetados nas paredes, projetos de artes visuais e artes plásticas a ocupar o espaço público, assim como obras de design e moda, as ruas estreitas dos bairros de Lisboa transformaram-se numa galeria de arte a céu aberto, com obras de 235 artistas nacionais e internacionais.

“Os prédios estão todos velhos. Quando vi os andaimes pensei: ainda bem que vão fazer obras. Mas, afinal não foi. Foi para fazerem isto tão bonito”, disse à Lusa uma moradora do bairro da Mouraria, Gracinda Gregório, de 74 anos.

Pelas ruas da Mouraria é possível contemplar um mural pintado de fresco e batizado de “SMILE!”, da artista Andrea Tarli, que retrata um jovem com um ‘selfie stick’ pronto a disparar e uma velhinha a borrifar-lhe a cara com uma lata de tinta de ‘graffiti’.

Como forma de chamar a atenção para o “duplo problema” de habitação no bairro da Mouraria, onde ainda existem muitos prédios devolutos e degradados e “os prédios reabilitados são disponibilizados apenas para alojamento temporário de turistas”, a Associação Renovar a Mouraria integrou o roteiro de arte com a colocação de sete tendas, ilustradas com mensagens: “Família de quatro pessoas procura casa”, “Libertem o espaço” e “Paz, pão, habitação”.

A morar na Mouraria há mais de 30 anos, Antónia Sequeiros, considera que a iniciativa do Paratissima “traz uma nova vida para os bairros”.

“Ainda bem que isto está a evoluir. Estão a fazer eventos. É bom, porque assim uma pessoa nem se sente sozinha”, declarou a moradora.

Com sotaque nortenho, Inês Perez, de 27 anos, e Teresa Adão da Fonseca, de 28 anos, desceram até à capital para pintarem, em conjunto, um mural num parque infantil da Mouraria.

“É uma oportunidade incrível, porque às vezes os artistas não têm uma parede no meio da cidade” para fazerem um mural, contou à Lusa Teresa Adão da Fonseca, confidenciando que “é giro trabalhar num espaço muito comunitário”, em que as crianças acabam também por interagir e opinar sobre o que está a ser feito.

Entre pinceladas nas paredes do parque infantil, a artista plástica explicou que não foi feito um projeto inicial, pelo que o mural resulta da inspiração, no local e no momento, a partir do que já existe, nomeadamente as cores.

Com um mapa do roteiro do Paratissima na mão, a alemã Eva mostrou-se impressionada com os bairros históricos de Lisboa. “Estes bairros têm muitos imigrantes, não há muitas pessoas que são mesmo portuguesas, mas ainda assim têm uma identidade própria”.

No espaço da Fundação INATEL da Mouraria encontram-se também várias obras expostas, desde fotografias penduradas nas janelas e nos ramos de árvores a pinturas fixadas nas portas do edifício.

Entretida a pintar em tela, Ana Maria, de 56 anos, é uma das artistas do Paratissima, com quatro obras expostas no edifício do INATEL.

“Tenho algum gosto pelo trabalho performativo, para além da pintura mais tradicional. A ideia de poder intervir em espaços públicos também me interessa e a relação entre os diferentes públicos, sem ser o público que visita a galeria normalmente”, afirmou a pintora.

No percurso de 2,5 quilómetros de arte contemporânea descobrem-se ainda várias obras expostas no Centro Cultural Dr. Magalhães Lima, em Alfama.

Com origem na cidade italiana de Turim em 2004, o Paratissima nasce de um movimento de rutura com a musealização e elitização da arte contemporânea, funcionando como “um festival sem seleção à partida dos artistas” e que pretende ser “completamente público, democrático e inclusivo”, afirmou o organizador Vítor Barros.

Organizado pelo EBANOCollective, o é um evento de arte pública que reflete a identidade dos bairros e que tem o apoio da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, responsável pelo espaço público deste território.

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