“É muito bom para ser verdade, mas vou candidatar-me”, decidiu Amanda Fink quando se deparou com a oferta de emprego que lhe iria permitir viajar pelo mundo ao mesmo tempo que estaria a juntar dinheiro.

Amanda Fink, 22 anos, estava prestes a terminar a licenciatura e procurava por oportunidades na internet a partir da sua casa em Orlando, Florida, EUA. Foi enquanto procurava por novas oportunidades que descobriu o emprego que iria mudar a sua vida: das explicações de inglês a crianças chinesas através de videoconferência.

Graças ao novo emprego, nos últimos dois anois, Fink teve a oportunidade de viajar pelos mercados das ruas do norte da Tailândia, de explorar as praias de Bali e de ver a agitação de Hong Kong, enquanto ia armazenando dinheiro na sua conta bancária. No total, segundo o artigo da Travel and Leisure, Fink conseguiu poupar à volta de 8.500 euros.

A explicadora de inglês à distância é mais um dos exemplos da geração millenial que anda a trocar o stress financeiro dos Estados Unidos por dar aulas online no exterior. As baixas despesas permitem a esta geração viver de forma confortável e ainda poupar. Estes explicadores on-line costumam partilhar ideias e dicas em grupos de Facebook dedicados à área com milhares de outros membros. Os grupos de Facebook também permitem que se encontrem em diferentes cidades do mundo.

“Assim que consegue dar o primeiro passo e compra o tal bilhete de ida, descobre um grande grupo de pessoas fantásticas e viver passa a ser barato”, partilha Fink. “É difícil dar esse primeiro passo, mas depois passa a ser a sua realidade.”

Fink ensina na VIPKID, uma das maiores empresas da indústria da educação on-line e que liga professores de inglês a estudantes na China e em outros lugares. Em cinco anos, o VIPKID criou uma rede que conta com 40 mil professores e 300 mil estudantes. Prevê-se que a empresa continue a crescer, uma vez que dezenas de milhões de pais na China procuram aulas de inglês extra para os seus filhos, de acordo com a Forbes.

A grande procura por professores, especialmente americanos e canadianos, permite que jovens explicadores como Amanda Fink ganhem 20 euros por hora. Para dar estas aulas on-line não é preciso ter experiência anterior, apenas o nível de bacharelato. Após uma entrevista de meia hora, alguns tutoriais em vídeo e uma aula fictícia, os explicadores estão prontos para começar e podem criar o seu próprio horário, selecionando os dias e as horas que estão disponíveis para dar as explicações individuais que duram 25 minutos. Após estarem aptos e selecionado o horário, basta aguarda que os pais reservem aulas com eles.

Para abraçar esta profissão e começar a explorar o mundo não basta ser aventureiro. Também é preciso ter paciência. Fink, que começou a dar aulas em abril de 2016, levou meses a criar uma base de estudantes fiável. Assim que conseguiu ter uma boa base, reservou um voo para Chiang Mai, no norte da Tailândia, e alugou um apartamento.

Amanda Fink ensinava, em média, 30 horas por semana e ganhava cerca de dois mil euros por mês. O dinheiro permitia-lhe fazer refeições fora, massagens e até mesmo ter uma motobicicleta. Fink ainda conseguia colocar dinheiro de parte.

“Consegui juntar uma boa quantia e viver de forma confortável”; comenta. “Isto é algo que não teria conseguido fazer nos Estados Unidos”.

Depressa, Fink percebeu que podia trabalhar em qualquer lugar - desde que tivesse uma ligação de internet sem fios. A professora de inglês e o namorado, que também trabalha remotamente, passaram uma semana na Malásia, regressaram à Tailândia e depois seguiram para Hong Kong, Vietname, Indonésia e Japão. No inicio deste ano, o casal fixou-se em Da Nang, cidade costeira do Vietname.

Dar explicações on-line nem sempre é fácil, pelo menos no início. Walter Hampton, 28 anos, natural da Califórnia, é um bom exemplo. Quando se candidatou pela primeira vez para dar explicações na VIPKID, Hampton foi rejeitado. Candidatou-se uma segunda vez através de outro e-mail, mas sem sucesso - a empresa descobriu que era ele. Felizmente, nem tudo são más notícias e a VIPKID decidiu dar uma oportunidade ao californiano, prometendo-lhe trabalho caso fizesse um curso de duas horas. Assim o fez.

A residir atualmente na cidade de Mérida, México, Hampton confessa que estava muito nervoso na primeira aula. Terminou quase a adormecer, pois o aluno faltou à aula. Apesar dos 25 minutos parado, Hampton foi pago à mesma.

Hampton decidiu juntar-se à VIPKID para complementar as aulas que dava numa escola local de Mérida em regime part-time. A escola pagava sete euros por cada hora de ensino. Aos poucos, Hampton começou a dar mais explicações on-line, tendo chegado às 30 horas por semana. As explicações on-line passaram a ser a maior fatia do seu rendimento mensal. Em sete meses, o professor conseguiu fazer cerca de 9 mil euros e guardar mais ou menos 3500 euros.

Walter Hampton veio do México após viajar para a China, Tailândia e Berlim. Hampton pretende tornar-se fluente em sete idiomas até 2023 - sete idiomas em sete anos. Fluente em inglês e alemão, Hampton espera dominar o espanhol até ao final do ano. Depois quer viajar de país em país para aprender francês, português, italiano e japonês.

Durante este tempo continuará a dar aulas on-line. “O ensino on-line permite-me viver sem morada fixa”, diz. “Isto veio mudar o jogo”.

E como nada é perfeito, este trabalho também tem as suas desvantagens, entre elas, alunos mal comportados. “As crianças vão à casa de banho a meio da aula”, desabafa. “Elas pegam no iPad e sentam-se na sanita”.

O tempo de diferença entre o México e a China obriga o jovem explicador a levantar-se às três da manhã de forma a estar preparado quando os alunos chegam a casa da escola.

Como trabalham no exterior, os explicadores on-line estão isentos de impostos nos Estados Unidos, mas, por serem trabalhadores independentes, pagam uma taxa anual cujo montante é fixado a cada ano (cerca de 15% do rendimento).

Por serem trabalhadores independentes também não têm seguro de saúde ou outros benefícios. Três meses após ter ido para fora dos Estados Unidos,  Amanda Fink e o namorado foram atropelados por um carro enquanto estavam na motocicleta e cortaram os gémeos. Felizmente, o seguro da motocicleta cobriu uma ambulância e a  cirurgia. "Foi sorte",  assegura.

E o estilo de vida itinerante pode fazer com que momentos tranquilos pareçam solitários. Mas tanto Fink como Hampton elogiam a comunidade que encontraram por meio de grupos do Facebook, como Digital Nomad Teachers e Tutors, que não só oferecem fóruns com soluções para problemas, como também ajudam estes profissionais a encontrar pessoas para conhecer numa nova cidade. Só um dos grupos do Facebook tem 15 mil membros, refere Fink.

Para Fink, as aulas on-line tornaram-se numa carreira. Hoje para além de dar aulas, faz entrevistas e forma novos explicadores para a plataforma. Fink concilia estas funções com a gestão do mercado local de alimentos orgânicos que faz a part-time. Faz o segundo trabalho com amor e pretende investir num programa de MBA online ou na Europa. No entanto não quer desistir de dar explicações. “Eu posso fazer isto durante a próxima década”, partilha. “Não há limite para mim”.

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