Hoje, não escrevo só para viajantes. Hoje, falo para todos aqueles a quem a COVID-19 virou a vida do avesso. Em 2020, o meu emprego como tour líder ficou parado, como podem imaginar. Tinha viagens, com grupos, todos os meses, e fiquei sem nada. A pandemia virou-nos tanto do avesso que fui viver dois meses para o Algarve, mesmo no pico do verão. Dinamizei workshops de escrita online  e em breve vou lançar tours em Portugal  mas faltava-me a emoção de experimentar algo novo. E precisava de um emprego: escolhi as vindimas!

Decidi, por isso, fazer uma imersão numa atividade milenar, numa das mais belas regiões do mundo: o Douro Vinhateiro. E quanto eu adoro esta região! Sabia que trabalhar nas vindimas ia ser difícil, cansativo, sabia que era um trabalho muito árduo. Mas é um facto que não sabia de metade. Só mesmo vivendo esta experiência se percebe todo o trabalho que é exigido! E, apesar de ter escrito este diário, há muita coisa que só mesmo quem aqui está sabe!

Pensei em, durante a vindima, conseguir fazer os textos diários, à noite, e publicar, mas os horários de trabalho e o cansaço não mo permitiram. Às vezes, saía da quinta, já jantada, tomava um banho e ia direta dormir de cansaço. Por isso, é com algum atraso que vos conto como foi a minha primeira vindima. Durante uma semana estive a trabalhar na Quinta da Côrte, em Valença do Douro, fazendo de tudo um pouco: corte e colheita da uva, seleção dos cachos e das uvas, carregar caixotes, e lavar os “cestos” e toda a maquinaria. É incrível como o trabalho nunca acaba!

Depois de tanto tempo juntos, a trabalhar, já começa a ser difícil saber em que dia da semana estamos e a quantas andamos.

  Que dia é hoje?

  Aqui é sempre segunda-feira, diz-me Maria.

  Pois, é sempre segunda-feira porque há sempre trabalho para fazer, sublinha a enóloga Marta.

Dia 1 na vindima

Quando cheguei para o meu primeiro dia na Quinta da Corte, já o corte da uva (a vindima, propriamente dita) tinha começado há uns dias. Por isso, comecei pela seleção das uvas, algo que é muito importante nesta quinta. Nesse processo, são escolhidas as melhores uvas com o intuito de fazer... o melhor vinho, claro.

Ora, muita gente poderá imaginar que é uma máquina que faz esse trabalho... mas não! É tudo feito manualmente, num tapete que vai andando e as uvas vão passando pela vistoria, ou seja, pelos nossos olhos e mãos, de forma a selecionarmos as melhores. São horas e horas nisto.

Diz-me a Raquel, que já anda nisto das vindimas há muito tempo: "Isto é como na depilação das mulheres, há a gilete e aqui fazemos a pinça". Rimo-nos, mas na verdade é mesmo esse pormenor, da escolha das uvas, que faz com que os vinhos desta quinta sejam cada vez mais premiados. Ou seja, em vez de "pêlo a pêlo" fazemos quase uva a uva, quando os cachos não são os "melhores".

Leia mais aqui

Dia 2 na vindima

Há tempos li, algures, "se os teus sonhos não te assustam é porque não são grandes o suficiente". Penso nisso sempre que olho em meu redor e me perco nesta paisagem de socalcos do Douro. Parte de mim estava com receio deste desafio. Ia eu conseguir acompanhar o ritmo do pessoal que já anda nisto há muito anos? Será que ia aguentar?

Quando, a meio do dia, começaram a chegar os primeiros caixotes, de uma parcela em particular, começámos a perceber que as uvas, que há dias estavam belíssimas, já tinham começado a mirrar. Eu consegui ver o desalento do pessoal que trabalha todo o ano na quinta. A partir do momento em que se viu que havia que aproveitar as uvas ao máximo, a seleção começou a ser cada vez mais criteriosa. Só para vos dar uma visão geral do problema, ficámos todos (cerca de 20 pessoas) a escolher uvas até às 11 da noite.

Mas, volto ao início do meu dia: são 7 da manhã e pedi para ir fazer companhia ao pessoal que estava no corte e colheita das uvas. Pus o meu chapéu, protetor solar, camisa e botas, para andar no meio da terra, e lá fui eu munida do kit de vindima: balde, tesoura e luvas. Benditas luvas! Estive cerca de duas horas e meia a andar atrás do pessoal. Enquanto eles enchiam dois baldes, eu ainda ia a meio do meu.

Mas faz parte, não é? É aprendizagem ao lado de pessoas que fazem isto todos os dias, todos os anos. "Andamos aqui o ano todo", solta uma das senhoras que está ao meu lado, quando meto conversa com ela. "Depois da vindima, o trabalho está todo por fazer", acrescenta outra. Só agora entendo esta frase e o que ela quer dizer.

Leia mais aqui.

Dia 3 na vindima

Hoje, foi um dia muito quente. O mais quente desde que aqui estou. Se Eça de Queiroz passasse agora pelo Douro, diria que "isto  está de ananases", ou seja, que está como se fosse uma autêntica estufa. Posso dizer que um pouco de mim derreteu no Douro, mas hoje diria que cozeu. Estava tanto calor que mesmo o vento, que só de vez em quando surgia, não conseguia atenuar o calor.

Sabem o que noto, cada vez mais? Que realmente quem faz vinho tem de ter uma paixão desmedida por isto e pelo que faz. Tanto trabalho! Já pensaram no preço do vinho e no quanto trabalho o produtor tem? "Isto não é meu, mas até me deu vontade de chorar quando vi as uvas de um talhão queimadas pelo sol e calor, em poucas horas", confidenciou-me um dos trabalhadores. Há muito amor à camisola nesta equipa. Muito sangue, suor e lágrimas.

Leia mais aqui

Dia 4 na vindima

Ao quarto dia, acordo surpreendida... só me doem as costas e as pernas, quando me baixo para apanhar algo! Eheheh! Qual ginásio, qual quê?! É uma verdadeira coça que apanhámos, a levantar caixotes com uvas, a estar de pé muitas horas, a subir e a descer o terreno, para o corte da uva...

Fui buscar o meu balde, luvas e tesoura e, antes das 8 da manhã, já andava atrás do pessoal habitual. Tento seguir a Tânia, que é super rápida no corte dos cachos, mas até o barulho do trabalhar da tesoura dela é mais frenético do que o meu. Demoro muito mais do que eles, é certo, mas hoje consigo ser bastante mais ágil do que no primeiro dia!

A meio da manhã alguém diz:

 O Eduardo foi ali ao manco buscar as uvas.

O manco?!, pergunto eu?

Leia mais aqui

Parámos para almoçar e voltámos a subir para um vinhedo bastante inclinado (o balde estava sempre a virar, tal era a inclinação), com um calor quase infernal... Mas, lá fomos, cacho a cacho. A maior luta é com as folhas. Tento abrir caminho, para chegar aos rechonchudos cachos, e tive umas certas lutas com eles... os cachos! Alguns são tão compactos que se enrolam, ora na própria videira, ora no arame que sustenta a vinha. Ando ali às voltas para cortar; dou um clique com a tesoura e... bolas!, cortei uma folha, o cacho ficou ali intacto. Só à segunda, ou à terceira, é que consigo retirá-lo. Isto com a prática vai lá!

Os restantes dias desta experiência podem ser acompanhados aqui , no Viaje Comigo

E também nas stories e feed do Instagram e página do Facebook do Viaje Comigo.

Newsletter

Receba o melhor do SAPO Viagens. Semanalmente. No seu email.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.