A proteção da fronteira e o castelo de Algoso

Algoso fica no concelho de Vimioso. É uma povoação pequena que não consegue esconder um esplendor passado, atestado pela presença do castelo, de um pelourinho e de um rico património religioso. O castelo possui um centro de interpretação extra-muros e é aqui que nos devemos dirigir em primeiro lugar.

O castelo de Algoso remonta aos alvores da nacionalidade, no século XII, tendo sido construído pela mão de D. Mendo Rufino. Desde muito cedo os castelos portugueses foram dispostos de forma a garantir a integridade dos territórios subtraídos à coroa leonesa ou conquistados aos muçulmanos.

No nordeste transmontano a defesa da fronteira era facilitada pela proteção das serras, com rios e estreitas gargantas, o que facilitava a escolha de lugares naturalmente vantajosos para o confronto. Por isso, nesta região, podemos observar uma autêntica rede de pequenos castelos no cimo de afloramentos rochosos. Por funcionarem de forma articulada, estas posições defensivas formavam uma linha de contenção cujo principal objetivo era atrasar os inimigos e dispersar as suas forças, retirando poder de penetração à invasão.

Algoso e a Guerra Fantástica: para ler (antes ou depois da visita)

Partimos para esta viagem com o mínimo de informação possível e só levámos na “bagagem” um livro que já tínhamos lido há uma meia-dúzia de anos, A Paixão do Conde de Fróis, do escritor Mário de Carvalho. A ação desta obra de ficção anda em torno de uma personagem – o Conde de Fróis – que, depois de uma violenta rixa com tiros e espadeiradas numa quelha de Lisboa, acabou por ser desterrado pelo Marquês de Pombal para a raia de Trás-os-Montes, incumbido de assessorar o coronel da praça de São Gens. Esta ficava perto de Miranda do Douro, e, como local ficcional, teria sido certamente inspirada numa das praças e castelos vizinhos, como Penas Róias, Mogadouro ou Algoso.

A história tem como pano de fundo a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), um conflito internacional que opôs dois blocos de países: um encabeçado pela Inglaterra e outro pela França, tendo Portugal alinhado com a Inglaterra. Como Mário de Carvalho bem notou, em Portugal, “mereceu também a designação nacional de 'Guerra Fantástica' por parte de historiadores militares que preferiam qualificá-la pelos desatinos”. E desatinos houve muitos, alguns dos quais mais parecem ter saído de uma ópera bufa. O romance sublinha algumas dessas peripécias e momentos dramáticos como a explosão do paiol de Miranda do Douro que levou à capitulação da praça forte raiana e ao assédio das tropas franco-espanholas sobre as praças e os povoados vizinhos em 1762. O castelo de Algoso conseguiu resistir guarnecido por um pequeno efetivo.

As vistas: do castelo e a partir do castelo

O que impressiona, em primeiro lugar, é a localização privilegiada do castelo de Algoso sobre um o Cabeço da Penenciada, com 681 metros de altitude. A vista do castelo a partir do lado da escarpa pronunciada é simplesmente espetacular e devemos procurá-la a partir da estrada que segue para Mogadouro.

Será boa ideia visitar o castelo sem pressa e com binóculos, até porque podemos ser surpreendidos por um conjunto interessante de aves: caso do grifo (Gyps fulvus), o britango (Neophron percnopterus), o peneireiro-vulgar (Falco tinnunculus) ou a cegonha-preta (Ciconia nigra). Se entrarmos e subirmos ao alto da torre de menagem deparamo-nos com outra vista impressionante: pode-se identificar alguns pontos do planalto Trás-os-Montes, como Vimioso e Outeiro, no norte, ou Pena Roias e Mogadouro, no sul. É possível que os mais dados a essas coisas sintam algum efeito vertigem, potenciado pelos profundos vales dos rios Angueira e Maçãs que convergem nas proximidades. Daí vemos velhas estradas e velhas pontes, caminhos que afligiam o invasor, ou no dizer de Mário de Carvalho: "as velhas geiras romanas de conduzir sempre a Roma, nunca ao objetivo tático".

 Créditos imagem: Portuguese medieval castle in Algoso, Vimioso, north of Portugal nearby Spain. Watercolor, pen and ink.  © Albatriz | Dreamstime.com 

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