Por entre os confins dos destinos mais idílicos do mundo, a Polinésia Francesa encontra-se certamente no topo para muitos de nós. As praias de areia branca, as palmeiras sobre as águas quentes, as paisagens maravilhosas. Tudo acompanhado de sonoridades únicas que nos remetem imediatamente para a sensação de desprendimento, férias e bem-estar. Mas será que é exactamente assim?

Não esperava uma vinda à Polinésia Francesa, mas não se podia fechar os olhos à oportunidade que surgiu há vários meses, por pouco mais de 800€. E, embora fosse um destino bastante improvável, já devia saber que na minha vida não há impossíveis. Foram quatro “pernas” até ao destino final, quase dois dias de viagem com escalas em Madrid, Munique e São Francisco, por entre voos da Lufthansa e da French Bee.

Cheguei a Taiti arrasada por um jet lag como não tinha memória. Recolho um carro alugado no aeroporto, adquiro um cartão SIM que me vai manter conectada com o mundo durante a minha estadia e sigo até Papeete. É manhã cedo e o mercado está a acordar; as mesas começam a ficar revestidas de artigos de artesanato, coroas de flores, vestidos coloridos e outros produtos. Na zona dos alimentos, frutas e legumes partilham espaço com arranjos florais já terminados e prontos a levar. Tudo a preços exorbitantes, só atribuíveis ao quão isolados do mundo estão os taitianos. Enormes porções de atum são aquilo que mais chama a atenção, pela cor, frescura e dimensão. Obrigo-me a regressar ao mercado num outro dia, pois o sono começa a toldar todos os sentidos. Arrasto a mala até ao quarto de uma guesthouse de Papeete, e durmo umas boas seis horas.

Já se faz de noite quando acordo, sem saber “a quantas ando”. Peço uma pizza junto do restaurante do hotel, os exageros do natal há muito exterminados e com direito absoluto de comer uma junk food qualquer. O primeiro dia termina com uma volta de carro pela capital e arredores, não me prolongando muito pela fraca iluminação e sinalização fora da cidade.

Seguem-se mais 12 horas de sono, e acordo madrugadora disposta a usufruir do dia. O clima não está de feição, e rapidamente o tempo contraria os planos de fazer alguns trilhos. Chove intensamente boa parte do dia, em aguaceiros violentos que escondem tudo em redor. É tamanho o capricho do homem por achar que a natureza tem de se encaixar nos seus planos, quando é precisamente o contrário: somos visitantes, estamos somente de passagem e somos nós os adaptáveis.

A ilha de Taiti (que na verdade são praticamente duas, ligadas por um istmo) possui uma circular, que se percorre tranquilamente de carro em cerca de seis horas (já para enveredar pelo interior da ilha é necessário um 4x4). Reconheci na marginal e estradas de Papeete muito do nosso Funchal, encontrei na temperatura das águas e densa vegetação muito do já visto na Guiné Equatorial e em São Tomé, revi os Açores nalguns pontos e reconheci nas escarpas bem definidas os traços do Havai. Afinal, conhecia tanto de Taiti sem nunca ter cá vindo, e creio que muitos de nós não encontrarão surpresa nas suas paisagens.

As cores mudam quando o sol se abre, que recarrega energias assim como os ânimos, e a volta repete-se no dia seguinte. As praias de areia negra e cascalho, pouco vastas ou convidativas, relembram permanentemente que estamos numa ilha de natureza vulcânica, com os seus dois vulcões inactivos. Percorridos alguns pontos de interesse (como a Cascata Farumai, Pointe Venus, as Grutas de Maraa ou os Jardins de Água de Vaipahi), fiquei a gostar particularmente de Teahupo’o, uma zona pitoresca e meca do surf mundial, com algumas das ondas mais arriscadas do mundo devido à combinação de massa de água e fundo de coral.

Feitos e repetidos vários quilómetros, o espírito português desespera por um café. Taiti falha nas infra-estruturas mais básicas, sendo pobre assim que nos afastamos da capital. E encontrar uma esplanada frente ao mar, algo quase óbvio para nós, é tarefa praticamente impossível...

Ao cair do terceiro dia, vestida a preceito com um vestido florido, entro num dos hotéis mais conhecidos de Taiti, com uma arquitectura que se enquadra perfeitamente na paisagem e com uma vista deslumbrante sobre Moorea, ao fundo. Quem de colares de flores ao peito entra directamente para um resort, viverá sem dúvida o sonho que lhe é vendido, mas a verdadeira Taiti não se conhece nos golos de um cocktail ao pôr-do-sol.

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