Depois da saga iniciada (no artigo anterior) com o alojamento escolhido pela fotógrafa premium @ana.abrao.photo, na frente da estupa de Boudhanath, em Catmandu, vários dos seus sentidos foram testados até à exaustão. Afinal ela estava em pleno local consagrado dedicado aos mortos e aos vivos que creem de diferentes formas na vida. Mas o que importa aqui é que quando lá for prepare-se: há fenómenos que só ocorrem na lua cheia e é algo secreto! O que não é segredo é tudo o que vai sentir.

No entanto, bem ao estilo tibetano, não se trata de exaustão mas de libertação. Depois do corpo estar praticamente a ceder ela encontrou um restaurante típico nepalês. Faltava um sentido: o paladar. Ainda de jejum, ela tinha até aí, num só dia, sentido tudo naquela zona. Atirou o corpo, lânguido, numas almofadas que eram as cadeiras confortáveis do restaurante. Pediu o primeiro alimento daquele dia. Parecia um ritual, até porque precisamos de estar em jejum para sentir toda a energia de forma verdadeira. Tendo esquecido um pouco a máquina fotográfica, fez um vídeo através da janela do restaurante que também estava de frente para a estupa. Na estupa cada pessoa acende uma vela aos antepassados e tudo se transforma num santuário de centenas de pequenas luminárias.

O cansaço vai saindo do corpo e da mente depois da refeição e sai para a rua. Tudo muda. Ela agora senta-se, de lente mais furtiva na mão, e observa um espetáculo de luzes fantástico. Tudo era velas em pequenos candelabros nepaleses, mantras, vendedores ambulantes, devotos… e ela ainda não tinha percebido o que ali se passava. Era um festival de velas tão intenso que quase não é permitido haver palavras para contar. Outro sentido é ativado: o sexto sentido! Começou a intuir que algo transcendente ali ocorria, era preciso respeitar. Assim, manteve a lente quieta e decidiu apenas absorver tudo com o olhar. Fotografou tudo no dia seguinte. Não porque não pudesse fotografar, mas porque ‘algo’ não permitiu que ela estivesse como fotógrafa, mas como humana no dia da lua cheia. Aliás o bom viajante, primeiro inala o momento, depois capta-o num frame.

No dia seguinte, saiu na “hora dourada” e sem pressa. Tinha de ser assim para conseguir vários ângulos, nem que eles aparecessem como um susto na esquina do mundo. O Nepal é uma das ‘esquinas’ espirituais mais fortes do planeta. Fotografou rostos exóticos, cores das indumentárias, movimentos dançantes, momentos triviais. De repente ficou em alerta: onde estavam as lanternas do festival de ontem?

Perguntou no hotel, perguntou às pessoas e percebeu nesse momento que tinha sido o festival dedicado à lua cheia e que ela experienciou como devia. Sem saber o nome. O corpo e a mente dela tinham intuído, porém. Os nepaleses acreditam que é nesse dia que acontecem eventos aos quais têm de ser gratos. Sobretudo desde o terramoto de 2015, na lua cheia, os locais fazem oferendas a quem sucumbiu a esse terramoto. Outros nativos fazem homenagem e pedidos às divindades para assegurarem a tranquilidade do processo de reencarnação. Ainda, outros creem que é o dia mensal que podem, entre velas, redimir-se.

Ela sentiu, decerto, que aquele ‘transe’ foi algo que a lua cheia lhe ensinou. Daí que nem conseguiu suportar a máquina fotográfica no dia forte da lua. Todos têm de ser corpo e mente, unicamente, nesse dia. Uma vez por mês. Neste dia de consciência renovada foi-lhe indicado que já era lua nova e as lanternas voltaram a aparecer, contudo a celebração era outra: em cada luminária acenderam o carinho para os entes queridos que já haviam partido. A Ana sentiu que tinha sido abençoada por ter estado entre luzes e desejos. Mais 28 dias se seguiram de vida nova naquele lugar antes de voltar a atravessar fronteiras. Vão na lua cheia e limpem os sentidos, ao modo ‘tibetano’. Marque a sua viagem, mas não voltará… igual. Ainda bem!

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