Bilhete-postal enviado por Catarina Pereira

Como o avião partia bem cedo, decidimos passar a noite no aeroporto, o que implicou comprar num supermercado aquelas pseudo-refeições duvidosas já embaladas. Passadas umas horas de tédio, pela uma da manhã, começo a sentir umas dores de barriga bem agudas, e, depois de algumas inócuas idas à casa-de-banho, acabei por adormecer. Sono este que pareceu prolongar-se ininterrupto até cerca de metade da viagem de avião. Acordei num sobressalto de suores frios, e comecei a vomitar tudo o que tinha ingerido nas últimas seis horas. Um daqueles saquinhos de papel que eu achava que era para efeitar afinal deu jeito, e foram precisos dois..!

Quando finalmente aterrámos, tínhamos de ser bastante rápidos pois o autocarro que nos ia levar para Reiquiavique partia pouco depois. Claro que oportunamente começa a ressurgir nas minhas entranhas uma vontade desmesurada de ir à casa-de-banho...

Após uma caminhada de dez minutos entre terminais (dez minutos exactos, eles têm uma barrinha no chão que indica quanto tempo falta até ao destino), não aguentei mais e tive mesmo de ir. Apanharíamos o autocarro seguinte, paciência! Tiro a mochila, casaco da neve, cachecol, luvas, gorro, calças e, quando finalmente me sentei no silêncio daquela casa-de-banho imaculada, o som do alarme de incêndio interrompe a minha felicidade. Sim, o alarme de incidêndio. De todos os momentos em que poderia ter tocado, escolheu aquele precioso instante. Toca a vestir tudo outra vez, não vá o diabo tecê-las e ser mesmo um incêndio. Talvez ainda aguentasse mais uns minutos...

Saio e seguindo religiosamente o protocolo de segurança, para onde é que temos de nos dirigir? Para o terminal de onde tínhamos acabado de vir! Mais uma caminhada de dez minutos com dez quilos às costas, muito suor que o ar-condicionado funciona bem para aqueles lados, enchumaçados nos trajes típicos de quem não queria mesmo passar frio, cansadíssimos, e acima de tudo, com toda uma contractura distribuída pelo sistema digestivo que só me fazia andar mais depressa.

Finalmente chegámos ao ponto de segurança, e eis que quando soa nos altifalantes uma voz feminina: “This was a fire drill. Thank you for your cooperation.”, ou qualquer coisa equivalente. Não aguentei mais. Sentei-me no chão e comecei a chorar num misto de gargalhadas e desespero, tal o ridículo da situação. Passada a emoção ainda precisava mesmo de ir à casa-de-banho, então larguei tudo e comecei a correr em jeito de Obikwelu. Aquela terceira caminhada de dez minutos passou então a um sprint meio torto e desengonçado de três! Depois desse dia a palavra alívio ganhou uma nova dimensão no meu vocabulário.

Conseguimos apanhar o autocarro que com a agitação do simulacro pareceu ter ficado à nossa espera e fomos os últimos a entrar.

Foi o começo único e hilariante de uma viagem que se revelaria inesquecível.

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