É claro que viajar com crianças muda muita coisa. Há muito mais logística, cansaço e cuidados a ter. Mas depois de 50 países espalhados por 4 continentes e algumas centenas de voos com uma criança a tiracolo penso que temos já um certo know how a partilhar.

E porque não queremos que vos falte nada, vamos abordar o tema “como viajar com uma bomba ao colo”, perdão, “como viajar com uma criança” em 3 temáticas: viagens de avião; o que levar em viagem; cuidados de saúde. E acreditem, depois da leitura destas dicas, vão estar preparados para enfrentar o mundo de fraldas, biberons e crianças em riste.

Viajar com crianças
créditos: Mundo Magno

1. Viagens de avião

1. Tentem marcar os voos para horas em que a criança faz sesta, para as que ainda fazem, ou de noite, para todas. Eu sei que nem sempre se consegue conjugar horas de voo com horas de sono mas se tiverem opção de marcar para essas horas nem hesitem. Crianças a dormir = voo muito mais tranquilo.

2. Dica de quem já anda nestas vidas há algum tempo: se marcarem um voo de longo curso em que há filas de 4 cadeiras e vocês são 3, marquem os lugares deixando um dos lugares do meio vazio. Pode ser que acabem por não marcar ninguém para esse lugar e ficam com um espaço livre que vai deixar muito mais margem de movimento à criança. Se marcarem alguém para o lugar é só pedir para trocarem de lugar com essa pessoa.

3. Quando marcarem voos de longo curso com bebés peçam para vos providenciar berço. Para além de terem um sítio para o bebé dormir ainda ficam com os primeiros lugares, onde estão os berços, que são lugares com muito mais espaço para as pernas.

4. O melhor lugar para quem leva um bebé ao colo é o lugar junto à janela. Permite apoiar o braço e encostar-se e ir mudando de posição com mais conforto. Para mim o pior de todos é o lugar do meio. Fica muito difícil encontrar uma posição especialmente quando se viaja sozinha com um bebé entre dois estranhos.

5. Se viajarem com um bebé tragam uma pequena almofada para ajudar a apoiar o braço para o bebé dormir. Se se esquecerem a maior parte das companhias tem para emprestar.

Viajar com crianças
Índia créditos: Mundo Magno

6. Entretenimento a bordo: da criança, claro, o dos adultos é para esquecer :D

  • Bebés até aos 6 meses não precisam de brinquedos para se entreter. O “facetime” original, a vossa cara, é o melhor entretenimento possível.
  • Até ao ano, ano e pouco de idade, um brinquedo de roer para os dentes a nascer e um chocalho providenciam entretenimento para algumas horas.
  • Do ano e meio em diante a coisa vai ficando mais complicada e as viagens vão ficando muito mais desafiantes, prometo :D Para manter o Magno entretido costumamos preparar um kit com alguns pequenos brinquedos, que contenha algumas coisas novas e outras com que já não brinca há algum tempo, tais como jogos, origamis, lápis de cor e papel, plasticina, livros, autocolantes, legos e um outro kit com snacks: frutos secos, barras, fruta de beber, bolachas e água, claro. Não esquecer de ter um kit para a ida e outro para a volta.

7. Como vestir as crianças em voos de avião: para os bebés não há dúvidas, é sair de casa logo com eles de pijama/babygrow. Em voos grandes, o que fazemos com o Magno, agora mais crescido, é, ainda antes de entrar no avião, vestir-lhe o pijama e, assim, para além de fazer o voo muito mais confortável, fica logo em modo “indução para dormir”.

8. Quando o piloto anunciar que vão começar a descer é hora de aplicar técnicas para descomprimir os ouvidos. Com bebés a coisa resolve-se facilmente colocando a criança ao peito ou biberão. Enfim, qualquer coisa que faça com que o bebé engula e com isso alivie os ouvidos. Com crianças maiores é normalmente mais difícil que comam ou bebam durante tempo suficiente, ou seja, até perto do momento de aterragem.

Ensinámos ao Magno quando tinha 3 anos a manobra de valsalva, que é uma técnica que se usa na prática do mergulho para descomprimir os ouvidos na descida, e ele aplica-a com grande mestria e sucesso. Bocejar e abrir e fechar a boca repetidamente também costuma ajudar.

9. Muitos pais ficam preocupados com o barulho que os bebés e crianças vão fazer durante o voo e o incómodo que isso vai provocar nos restantes passageiros. Obviamente que coisas como crianças a dar pontapés no banco do passageiro da frente não são aceitáveis e não se enquadram no que vou dizer a seguir. Mas bebés que choram, crianças que brincam, riem e que, por vezes, choram faz parte desta coisa que é viver em sociedade. Já todos lá estivemos e algures no tempo também nós “incomodámos” os outros.

Pensem no seguinte, durante o voo farão os possíveis para manter as vossas crianças tranquilas, naturalmente, mas nem sempre vão conseguir e quem vai no voo vai ter de viver com essa possibilidade. A única forma de não ter de viajar com as crianças dos outros no nosso avião é fretar um voo privado.

Mas, na verdade, ao contrário do que se pensa, a grande maioria das pessoas costuma ser bastante prestável. Não tenho dedos suficientes nas mãos para contar as vezes em fui ajudada por estranhos em voos a solo com o Magno. Por isso relaxem em relação aos outros, não é de todo tão mau como se diz. E se correr mal, eu pelo menos costumo encontrar algum conforto no facto de saber que nunca mais vou ver aquelas pessoas que estavam no voo connosco :D

E agora a dica mais importante de todas… rufar de tambores…

Viajar com crianças
créditos: Mundo Magno

10. Deixei a dica mais valiosa para o fim. A dica que vou repetir em todos os episódios desta saga “como viajar com crianças”. Chama-se PEDIR. Durante grande parte da minha vida tive uma tremenda dificuldade em pedir ajuda. Odiava ter de o fazer e, por vezes, nem como último recurso pedia ajuda no que quer que fosse. Com o Magno, e particularmente nas minhas viagens a sós com ele, aprendi que tinha de mudar de registo. E mudei. E muito mudou e melhorou com isso.

A maior parte das pessoas sente-se pouco à vontade para oferecer ajuda ou nem sequer se lembra disso. Mas, se pedirem, dificilmente essa ajuda vos será negada. Para dar alguns exemplos:

- Em voos em que vejo que há algumas filas vazias, depois de terminar o embarque, pergunto sempre se nos podemos mudar para lá.

- Nos hotéis marco sempre um quarto duplo normal. Costumo depois enviar um pedido de cama suplementar. Quando têm essa possibilidade nunca me cobraram mais por isso. Quando não há peço para nos hospedarem no quarto maior ou com a cama maior. Nunca me recusaram essa possibilidade.

- Em voos em que as filas para depositar a bagagem estão muito grandes, e especialmente agora que o Magno já não viaja com carrinho, e o mesmo em voos muito cedo ou com muitas horas de voo pela frente, peço se existe alguma possibilidade de irmos para uma fila menor ou ter atendimento prioritário. Até hoje só me recusaram essa possibilidade uma vez, viajava sozinha com o Magno que tinha 1 ano e meio e estava a chorar desalmadamente no aeroporto Sá Carneiro. Em regra, e reforço que só peço em caso de filas muito grandes/ muito cedo/ criança cansada/ voos longos pela frente, o pedido é atendido o que facilita muito a gerir o cansaço de miúdos e pais.

Viajar com crianças
Butão créditos: Mundo Magno

2. O que levar em viagem

E chegamos agora à parte das coisas úteis que nos vão salvar as costas e energia quando se viaja com miúdos. E, como em viagem não dá para levar tudo, é bom que o que se escolha levar seja mesmo eficiente.

1. Transporte: Quando o Magno era mais pequeno levávamos sempre um porta bebés, no nosso caso uma manduca, e um carrinho de bebé pequeno e portátil. Nunca usámos carrinhos tipo chapéu de chuva porque normalmente não reclinam. O nosso era um Quinny Zapp Xtra e foi um autêntico carrinho de guerra nos mais de 30 países onde andou em 3 anos. Com a vantagem de ficar suficientemente pequeno, quando fechado, para viajar em muitos aviões como bagagem de mão e forte para aguentar caminhos esburacados um pouco por todo o mundo.

Viajar com crianças
Quinny na Tailândia créditos: Mundo Magno

2. Brinquedos: Levamos muito pouca coisa para além do que levamos para ele se distrair no avião. Mas costumamos levar uma pá e um balde desdobrável que ocupam pouco espaço e são entretenimento garantido por horas. Normalmente preferimos comprar alguns brinquedos tradicionais dos países que visitamos.

3. Vestuário: Levamos sempre o mínimo possível porque, mais uma vez, gostamos de comprar algumas roupas tradicionais em viagem e ir lavando o que se suja. No entanto, quando viajamos para países frios, e porque se trata de roupa mais técnica, levamos toda a roupa de casa. Em termos de calçado, dependendo da estação do ano, leva umas sapatilhas ou botas calçadas e uns chinelos. Mesmo para países quente levamos um casaco para dias mais frescos e um casaco impermeável.

Viajar com crianças
Calças asiáticas de pescador créditos: Mundo Magno

4. Segurança: Por motivos de segurança, caso se perca de nós (nunca aconteceu) o Magno tem na palmilha das sapatilhas um autocolante com o nome e os nossos contactos e está ensinado a procurar alguém e pedir para ligarem para aqueles números. Perder-me dele é um dos meus maiores pesadelos e espero que nunca se concretize… Há pouco tempo comprámos um localizador de GPS que ligado a uma aplicação permite saber onde ele está e permite que ele nos ligue. Estamos a ponderar levá-lo em viagem. É pequeno e pode facilmente usá-lo no pulso, como relógio ou num bolso ou mochila.

5. Fraldas e alimentação: Enquanto o Magno usou fraldas optámos por levar o suficiente para os primeiros 4/5 dias connosco e depois comprar no destino. Acho que se pode dizer com segurança que há fraldas descartáveis e toalhetes em todo o mundo. Comprámos fraldas na Índia, no Sri Lanka, no Butão, no Vietnam, no Quénia, etc… sem qualquer dificuldade. Por isso não vale a pena viajar com uma mala cheia de dodot pelo mundo fora.

Viajar com crianças
Pequeno-almoço na Namíbia créditos: Mundo Magno

Como nos calhou na sorte uma criança pouco dada aos prazeres da comida, pelo sim pelo não, levamos algumas bolachas, barras de cereais e frutas de beber connosco como complemento para os primeiros dias e até nos familiarizarmos com a comida.

O leite em pó ainda hoje o levamos na quantidade necessária para a viagem porque é um leite difícil de encontrar até na Europa. Mas mesmo que usasse um leite em pó normal penso que continuaria a levar comigo porque teria alguma dificuldade em confiar nos critérios de qualidade e conservação (aqui é uma opinião meramente pessoal e não baseada em qualquer evidência).

Viajar com crianças
Sri Lanka créditos: Mundo Magno

3. Cuidados de saúde

Este é o tema mais importante da trilogia “viajar com crianças” e para o qual vou ter de começar com um aviso importante: esta é a nossa experiência baseada nos conselhos do nosso pediatra e médico de consulta de viajante. Nada disto substitui uma visita ao vosso médico antes de partir em viagem.

1. Consulta do viajante ou com pediatra: Sempre que viajamos para um país fora da Europa e do chamado “mundo ocidental” informamos o pediatra do Magno. Com a informação dos países para onde vamos e a duração da viagem o médico decide se devemos marcar uma consulta. Na Suíça só a primeira consulta para um país “mais exótico” é feita no hospital numa consulta do viajante, até porque só aí ministram a vacina da hepatite A. A partir daí as consultas são com o pediatra.

Viajar com crianças
créditos: Mundo Magno

Depois de várias viagens pela Ásia e por África temos alguns cuidados e hábitos que, pelo menos até agora, têm levado a que as viagens tenham corrido de forma bastante tranquila em termos de saúde:

2. Farmácia de viagem: A conselho do pediatra viajamos sempre com uma pequena farmácia para o Magno que contém: termómetro, xarope de paracetamol e ibuprofeno, uma pomada desinfetante para pequenos cortes ou feridas, saquetas para a diarreia, saquetas para vómitos e náuseas e um antibiótico de largo espectro.

3. Seguro de saúde: Viajamos com seguro de saúde em viagem válido para qualquer parte do mundo e com direito a repatriamento. No nosso caso é uma extensão ao nosso de seguro de saúde na Suíça. Na Europa o cartão europeu de saúde resolve qualquer problema que possa surgir mas no resto do mundo é absolutamente fulcral viajar com seguro de saúde. Em alguns países os custos podem vir a ser incomportáveis.

Viajar com crianças
Atascados no deserto da Namíbia créditos: Mundo Magno

4. Higiene: Levamos sempre toalhetes e gel desinfetante. Não se pode esperar que os miúdos não andem sempre com as mãos em todo o lado e nem sempre é fácil encontrar água corrente para as lavar durante o dia. Levamos sempre uns 2/3 frascos por cada semana de viagem. Antes sobrar que faltar

5. Lidar com o calor: Quando viajamos para países quentes há duas coisas que nunca faltam: água em spray (tipo avène ou evian) ou um frasco borrifador que dê para reabastecer e uma pequena ventoinha elétrica e, ultimamente, também uma manual. Antigamente só se encontravam estas ventoinhas na Ásia mas agora são fáceis de encontrar na Flying Tiger.

6. Picadas de mosquito: Quando viajamos para países com risco de malária e outras doenças transmitidas pela picada de mosquitos, para além da profilaxia da malária, quando recomendada pelo médico, levamos uma rede mosquiteira mesmo que os hotéis digam que as providenciam pois por vezes essas redes estão danificadas. Levamos também repelente de mosquitos Nobite para o corpo e para a roupa.

Viajar com crianças
Butão créditos: Mundo Magno

7. Água potável: Levamos sempre um cantil que vamos enchendo com água potável para que ele tenha sempre água disponível. Não come legumes crus em países não ocidentais e a fruta é sempre descascada.

8. Dormir: Levamos ainda um pequeno lençol de viagem para o Magno para viagens em que dormimos em carros com tenda (como fizemos em algumas road trip em África) ou no caso de não confiarmos nos lençóis do hotel.

Viajar com crianças
Taiwan créditos: Mundo Magno

Lido assim no conjunto parece muita coisa e toda uma trabalheira mas garanto que não é tão complicado como parece. Em pouco tempo é apenas mais um conjunto de rotinas. Por isso vamos lá pôr estas dicas em prática e deixar os medos de lado e marcar a tão desejada viagem com os miúdos. E depois, bem, depois venham contar como foi…

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