Rituais assim tão distintos têm muito em comum: repetem-se há decénios no "coração" do Porto como prova de vida de um punhado de lojas históricas que sobreviveram à feroz concorrência do comércio eletrónico ou dos ‘shoppings’ multiplicados na cintura urbana. E que vão resistindo a uma impiedosa pandemia que infetou meio mundo, mandando outro meio fechar-se em casa.

Na primeira linha do grupo de lojas resilientes encontra-se uma mercearia tradicional: a Casa Januário, fundada entre guerras, em 1926, por Januário Ferreira, um filho de lavadores que trocou o Fundão pelo Porto.

“Rapidamente se tornou uma das referências ao nível das mercearias finas nacionais”, orgulha-se Nuno Miguel, neto do fundador e atual responsável pelo estabelecimento.

“Os tempos que correm não dão para ficar de braços cruzados, à espera que o cliente entre”, pelo que a Casa Januário foi reajustando a oferta, mas evitando ferir a matriz de mercearia tradicional, equidistante das lojas ‘gourmet’ e dos supermercados.

“Não somos ‘gourmet’, nada disso. Somos uma mercearia, no seu conceito tradicional, e os supermercados não nos assustam. Não os consideramos concorrentes diretos, nem nada que se pareça. Tentamos ter sempre produtos distintos”, afirma Nuno Miguel.

Há mercearia grossa e fina, a granel se se preferir, vinho, azeites e tudo o mais que encha uma dispensa. E ingredientes para bolos.

Entre a multifacetada oferta conta-se ainda o cafezinho “do melhor”, vendido ao quarto de quilo – depois de torrado fora de portas, embora a Januário mantenha o alvará para essa atividade.

“Temos muito essa clientela” por oposição à menos expressiva “clientela dos Nespressos e Segafredos”, assinala o responsável pela mercearia histórica que, tendo em conta a atividade que desenvolve, pôde enfrentar a pandemia sem fechar portas, apenas reajustando horários.

“Não ficar de braços cruzados” levou também a Casa Januário a apostar nas vendas ‘online’ e nas entregas ao domicílio, ambas “a funcionar muito bem”.

Parte do imóvel que a Januário detém foi entretanto alocado ao alojamento local, uma atividade que representou já 40% da faturação total no último ano pré-pandemia.

Tudo para garantir que nenhum percalço ensombre o futuro da firma.

Do lado menos resiliente do comércio histórico do Porto estão os livreiros tradicionais, mas José Alves, que se dedica à atividade há quase 55 anos na Rua de Avis, a um passo da boca do túnel de Ceuta, recusa ser mais um a fechar portas.

“Como livreiro, já passei por algumas crises e a forma de sobreviver à concorrência das grandes redes livreiras é o atendimento de qualidade e personalizado, onde nem é o preço o fator principal. Por isso nos mantemos a funcionar”, sublinha José Alves, gestor da livraria homónima.

“Com muitas dificuldades, é verdade”, consente.

Dos turistas, que um dia começaram a encher a Baixa do Porto e que a pandemia retraiu, José Alves diz que lhe compram uns guias da cidade e da região, coisa “muito residual”.

Declarando o mercado eletrónico como “outra machadada” que teve de enfrentar, o livreiro tradicional preserva, apesar de tudo, a esperança de que vai continuar a dar um chega-pra-lá às dificuldades.

O mesmo se diria da Lamiré, uma casa da Rua da Alegria, a dois passos do Coliseu do Porto, que desde 1979 enche de música muitas casas e palcos.

Expõe, vende, transporta, afina instrumentos, sobretudo pianos (os tradicionais e os digitais), fez-se representante de uma das mais conceituadas marcas internacionais de órgãos e construiu uma carteira de “assíduos clientes”, “poucos mas bons”, como assinala Isabel Costa, funcionária-quase-coproprietária, porque é filha de um dos sócios da Lamiré.

Afinal, falar francês pode já não ser moda, mas, garante a fonte, tocar piano ainda o é. E o ensino articulado (estudo da música no ensino público em articulação com a escola convencional) alimenta a vertente do negócio relacionada com os pianos digitais.

A Lamiré sabe que enfrenta a concorrência poderosa de um “gigante” que também atua na área, mas recusa imitá-la como “mero um posto de venda”.

Prefere formar os seus quadros para poderem fornecer toda a ajuda técnica necessária aos clientes – aos seus, mas não aos dos concorrentes.

“Não somos uma agência de informações”, observa, a propósito, Isabel Costa, que sublinha, mas relativiza, a aposta também feita pela empresa nas vendas ‘online’.

“A maioria das compras é feita presencialmente. A pessoa vê a montra, entra, pergunta, experimenta e muitas vezes compra”, elucida a funcionária, que reconhece dificuldades de percurso recentes decorrentes da pandemia.

Mas mostra-se dona de uma inabalável confiança.

“Temos sobrevivido, apesar de tudo, e vamos continuar a resistir”, afiança.

As lojas históricas do Porto estão na origem do programa municipal “Porto de Tradição” de apoio à sua preservação. Foi criado em 2016 e está dotado, na sua edição deste ano, com um fundo de 400 mil euros.

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