Por: João Damião Almeida

Depois de um mês no Quénia a conhecer a capital, os safaris e a sua costa, um autocarro de doze horas leva-nos de Mombaça à fronteira com a Tanzânia e daí a Dar Es Salaam, de onde apanhamos um ferry para Unguja, a (principal) ilha de Zanzibar.

Esta ilha do oceano Índico é um paraíso de história centenária e praias tropicais que todos os anos leva centenas de milhares de turistas a visitá-la. As alturas mais populares são a época seca entre julho e setembro e os meses quentes de dezembro a fevereiro, constituindo aliás um dos destinos mais populares de África para celebrar a passagem de ano.

Também nós decidimos entrar no novo ano em Zanzibar. Querendo evitar aviões e acordando dia 30 de dezembro no Quénia, conseguimos chegar ao nosso destino antes das doze passas e inaugurar assim uma semana de descoberta deste paraíso.

Dia 0 - chegada a Zanzibar e Kendwa Rocks

Chegados à capital de Zanzibar e saindo do ferry, cumprimenta-nos um calor húmido e uma chuva miúda que nos preveniu de admirar imediatamente a beleza rústica das ruas de Stone Town.

Dia 0 - chegada a Zanzibar e Kendwa Rocks
créditos: Projeto Prá Frente

Dirigimo-nos ao hostel para nos aliviarmos do peso crescente das mochilas e do corpo. Tínhamos reservado o alojamento mais barato do site, com pequeno-almoço incluído mas sem comentários nem pontuação, e portanto apenas descansámos verdadeiramente quando sentimos debaixo de nós os lençóis macios das camas do pacato alojamento que até há dois minutos era provável não existir.

Faltavam oito horas para entrarmos em 2022. Check-in feito, saímos do hostel para levantar dinheiro, espreitar a cidade e começar a preparar uma das noites mais aguardadas do ano.

Tínhamos decidido ir passar a meia-noite na ponta norte da ilha, à praia de Kendwa, que recebia uma das maiores e mais aclamadas festas de ano novo. A ida e o regresso de Stone Town até Kendwa Rocks, separados por 60 quilómetros de estrada que muitos tanzanianos se recusavam a fazer de noite, eram um desafio, principalmente a duas horas do pôr-do-sol e numa noite onde todos já tinham planos, menos nós. Para nossa sorte, o jovem que trabalhava no nosso hostel ofereceu-se para nos levar e trazer no seu jipe. Mostrámo-nos desconfortáveis por ele ficar à nossa espera no carro, à porta da maior festa de Zanzibar, mas depressa nos tranquilizou: passaríamos por casa dele no caminho a apanhar a família e vinham todos connosco!

Saímos do hostel ao anoitecer. Depois de ir buscar jantar numa banca de rua, comprar cerveja num dos poucos supermercados com álcool numa cidade 99% muçulmana e passar em casa do nosso motorista (entretanto amigo) para apanhar a esposa, uma amiga e dois filhos bebés, começámos a viagem de hora e meia que nos levaria a Kendwa Rocks.

Apesar de não ser considerada a melhor zona de praia, a costa norte de Zanzibar é célebre pelos resorts de luxo, é uma das zonas com melhor oferta noturna e é um paraíso para mergulhadores. A festa onde nos dirigíamos, nós e centenas de pessoas, era na praia privativa de um resort dessa zona e oferecia pistas de dança, zonas de bar e um enorme areal de espreguiçadeiras. As medidas de contenção da pandemia eram inexistentes, aqui e em quase todo o lado neste país, já que a Tanzânia aparentava não ter COVID-19: mais de um ano depois do falecido presidente negar a ameaça do novo coronavírus, a informação sobre o número de testes ou casos na Tanzânia continuava quase inexistente.

Dia 0 - chegada a Zanzibar e Kendwa Rocks
créditos: Projeto Prá Frente

Eram quase onze horas quando entrávamos no recinto. Certamente não esperava, há um ano atrás, que me fosse despedir de 2021 desta forma: em Zanzibar, num grupo de portugueses e tanzanianos, segurando uma mochila de cerveja às costas e um bebé com alguns meses ao colo. Umas horas depois do fogo de artifício com que o novo ano nos cumprimentava, corri para o Índico quente, quase fumegante, para o primeiro banho de 2022.

Dia 1 - Stone Town e Slave Market

O primeiro dia de 2022 foi passado na "cidade-UNESCO" de Stone Town. A capital de Zanzibar, voltada de costas para o Índico, terá tido a sua história transformada no dia em que o primeiro europeu desembarcou na ilha e não voltaria a ver independência durante centenas de anos. A passagem de Vasco da Gama no regresso da Índia iniciou duzentos anos de ocupação portuguesa, que deu lugar a outro longo período sob o domínio do sultanado de Omã, tendo sido ainda um protetorado inglês até à união da TANganyica com ZANzibar, em 1964, para formar a TANZÂNIA. Em todo este tempo, a ilha foi um ponto estratégico no comércio e exportação de especiarias e de escravos, e Stone Town a sua capital.

Stone Town e Slave Market
créditos: Projeto Prá Frente

O centro histórico colheu influências dos séculos que viu passar, parou no tempo e no tempo certo. É um portal entre África, Arábia, Índia e Europa, como tem sido nos últimos quinhentos anos, ainda que hoje de forma tão distinta.

Passámos algum tempo só a percorrer o labirinto de ruas pedonais estreitas, ladeadas por casas de influência árabe, persa e europeia, por vezes apenas colorido por um jogo de futebol de rua ou uma bicicleta, outras vezes caóticas com gente, bancas de rua e motorizadas. Apesar de já não ser tão notório, muitos dos edifícios foram construídos com pedra de coral e foi essa predominância pétrea e porosa, em tons quentes, que terá dado o nome à cidade.

No lado interior de Stone Town, vale a pena perdermo-nos na confusão do mercado de Darajani. O sabor forte a peixe fresco e frito assalta-nos o nariz enquanto nos enchem os olhos as cores da canela e da baunilha, da pimenta e noz-moscada e os tons fortes das frutas exóticas.

Acabámos o dia no antigo mercado de escravos. É antigo mas foi também dos últimos do mundo. No lugar do mercado, existe hoje uma igreja Anglicana, um memorial e a Exposição de Tráfico de Escravos da África Oriental, que vale muito a pena visitar.

Stone Town e Slave Market
créditos: Projeto Prá Frente

Dia 2 - Prison Island e marginal de Stone Town

A tarde do segundo dia do ano ainda foi dedicada a Stone Town. A marginal da cidade é também ela cheia de excelentes atrações culturais que não vos posso recomendar. Desde o Palácio das Maravilhas, encerrado para obras desde a sua ruína no Natal de 2020, ao Palácio Árabe, cujo interior é visitável mas está desde há uns anos despido de quase todos os móveis e adornos, ou ainda ao Museum de Freddie Mercury, que não visitámos por parecer armadilha turística.

Pudemos visitar sim o interior do Forte, construído para defesa dos ataques portugueses e usado hoje em dia como espaço cultural e artístico e passeámos pela marginal, a olhar os tons turquesa e indigo do mar, a admirar os saltos para a água dos jovens locais (recentemente viralizados no TikTok) e a lanchar Zanzibar pizzas, espetadas e chicken shawarmas no mercado de rua noturno.

De manhã, tínhamos feito uma das várias excursões oferecidas em Stone Town. É comum ser abordado nesta cidade por guias turísticos a oferecer uma panóplia de experiências e excursões: a floresta de Jozani, a quinta de produção de especiarias, uma viagem de barco para avistar golfinhos e praticar snorkeling, etc. Decidimos reservar para esta manhã uma visita à ilha de Changuu.

Prison Island e marginal de Stone Town
créditos: Projeto Prá Frente

Changuu é frequentemente chamada de Prison Island (ilha da prisão) ou Quarentine Island (ilha da quarentena) o que permite descortinar duas das utilizações da ilha ao longo dos tempos. A ilha foi em tempos usada para manter alguns escravos antes de serem vendidos no mercado e chegou a ser lá construída uma prisão (hoje visitável) apesar de esta ter servido afinal como local de quarentena para os viajantes dos navios que chegavam e partiam de Zanzibar, principalmente para casos de febre amarela.

Mas além do interesse histórico-cultural nesta ilha, que nos conta, pelo seu percurso, também a história de Zanzibar, Changuu atrai alguns turistas também pelas suas praias paradisíacas e por ser santuário de tartarugas gigantes Aldabra. A razão de podermos aqui encontrar algumas das maiores tartarugas do mundo tem origem em 1906, quando o governador britânico das Seychelles ofereceu um grupo de quatro tartarugas gigantes à ilha, que se proliferou rapidamente resistindo ainda hoje em grande número.

Prison Island e marginal de Stone Town
créditos: Projeto Prá Frente

Dia 3 - Jambiani

Ao fim de três dias em Stone Town, decidimos atravessar a ilha até Jambiani. A viagem foi de daladala, o transporte comunitário da Tanzânia, na forma de carrinhas barulhentas e sobrelotadas, semelhantes aos Matatu que tínhamos encontrado no Quénia. Incluem sempre um condutor expedito e um ‘pica’ extrovertido e impaciente que trata de pedir o dinheiro e garante que não se perde tempo. Em Zanzibar, este transporte é diferente dos do resto do país na aparência, sendo uma carrinha de caixa aberta, com dois bancos laterais incrustados e um toldo baixo que faz com que se entre e saia quase de cócoras.

Com alguma caminhada de mochila às costas e dois daladala conseguimos ir do nosso hostel em Stone Town ao destino, onde procurámos o nosso alojamento sob um calor abrasador e árido.

Jambiani é uma antiga aldeia de pescadores que o turismo ainda não conseguiu fazer desaparecer. Apesar dos vários alojamentos locais convertidos para turistas e dos hotéis e bares imediatamente junto à praia, a aldeia mantém a autenticidade das rotinas dos que ali se viram crescer. As casas em pedra ou tijolo alternam-se com palmeiras no chão arenoso e passamos por cabras ou galinhas despreocupadas enquanto uma criança ao fundo nos grita "Mambo! Mambo!" (Tudo bem?) ao ver-nos passar. Nas ruelas áridas de terra, debaixo do sol, os locais vendem fruta à porta de casa ou separam algas marinhas secas no alpendre. Não se vê estrangeiros praticamente e os únicos comércios são restaurantes locais e mercearias modestas.

Jambiani
créditos: Projeto Prá Frente

Descobrimos o hostel com esforço. Aqui a oferta não é tanta, principalmente para quem tem o orçamento contado, mas ficamos positivamente surpreendidos à chegada. Aparentemente, os 150 metros extra de distância ao mar e a novidade do estabelecimento desvalorizam este grupo de bungalows com piscina e pequeno-almoço para os 10 euros por pessoa.

Almoçámos já tarde numa banca de comida improvisada junto à via principal que consistia numa frigideira larga com óleo e uma vitrine onde se empilhavam meios frangos preparados na grelha e batatas fritas. Não quisemos ir ver as Kuumbi Caves nem comprometer-nos com nenhum tour e a tarde foi passada a aproveitar a maior atração de Jambiani - a praia, - mergulhados num mar rasteiro de quase trinta graus, conversando e vendo o sol pôr-se atrás da linha de palmeiras no horizonte da praia à nossa frente.

Jambiani
créditos: Projeto Prá Frente

Dia 4 - Costa nordeste

Ao quinto dia em Zanzibar (quarto de 2022), e para alegria deste roteiro, decidimos ir conhecer uma nova zona da ilha, a costa nordeste. Poderia escrever que apanhámos um táxi que nos levou ao destino em uma hora, onde vimos todas as atrações turísticas disponíveis, como as grutas de Kiwengwa ou a reserva natural de Pongwe, cujos pormenores partilhava aqui para vosso deleite, mas logo a seguir teria de ir mudar o título desta crónica. Não, decididos a fazer a ligação ao nordeste da ilha sem recurso a táxis, acabámos a utilizar vans, barco e mota em 6 horas de viagem para ir e regressar.

Apesar de Pongwe, que marca o início de uma costa contínua de praias tropicais, distar pouco mais de trinta quilómetros de Jambiani, o trajeto que nos aconselharam para ir de daladala passava por Stone Town, num desvio enorme que totalizava quase o triplo da distância. Decidimos fazê-lo à mesma, numa viagem de quatro carrinhas e quatro horas. O tempo passou rápido, surpreendentemente. A viagem de daladala pode ser divertida para um turista habituado à tranquilidade entediante da Rede Expressos. Entretivemo-nos a apreciar a velocidade excessiva do condutor e as travagens bruscas a cada lomba (muito comuns neste país) ou a comunicar fracamente com os outros passageiros, colados a nós (a certa altura éramos 28 no calhambeque de caixa aberta), divertidos com os wazungu (“estrangeiros”) pouco comuns naqueles contextos.

Costa nordeste
créditos: Projeto Prá Frente

Chegámos a Pongwe às três horas para almoçar e decidimos recompensar-nos com um refeição de peixe e marisco, muito comuns nesta zona e relativamente baratos. A maré subiu pelo menos uma centena de metros enquanto almoçávamos e tivemos ainda tempo de espreitar as planícies de areia onde um hotel ou restaurante isolado vira ilhéu numa questão de minutos.

Para regressar, descartámos fazer as mesmas 4 horas de viagem e arriscámos em ir até ao estreito de Chwaka para fazer corta-mato (ou ‘corta-mar’) até à costa sudeste e evitar assim ter de ir dar a penosa volta por terra. Uma vez em Chwaka, vimos logo a frota de canoas e barcos piscatórios e negociámos a travessia com um jovem que se apressou a ir buscar um motor para prender ao seu estreito barco e nos levar à outra margem, numa viagem onde a oscilação da fraca embarcação não impediu que nos deixássemos deslumbrar pelo reflexo na água escura das cores barrentas do sol que se punha.

Costa nordeste
créditos: Projeto Prá Frente

Para o último troço, já de noite, as opções não era muitas e aceitámos de bom grado o transporte de um motociclista que se mostrou muito entusiasmado em nos levar. Seguimos viagem, os quatro na mota. O nosso motorista, que ia à frente e era o único de capacete, viajava sem luzes em noite de lua nova, com óculos escuros, a uma velocidade que - não vos sabendo eu dizer já que o velocímetro estava estragado - era certamente excessiva e enquanto mandava mensagens e atendia telefonemas. Eu, logo atrás dele, ia soltando berros para avisar toda a tripulação quando via qualquer lomba, enquanto imaginava um plano de emergência para me dar alguma falsa tranquilidade.

Costa nordeste
créditos: Projeto Prá Frente

A certa altura, saímos todos da mota que fazia cada vez mais barulhos e o  motorista foi examinar o motor durante uns minutos, deu uma pancada seca numa peça, subimos todos de novo e continuámos viagem. Por cima de nós, um céu absolutamente excecional que fazia lembrar o planetário e tinha mais estrelas juntas do que alguma vez tinha visto. Guardava Orions e outras constelações do equador que nos levaram sãos e salvos até ao hotel.

Dia 5 - Costa sudeste

Não pudemos deixar Jambiani sem antes percorrer as restantes praias dessa costa. Assim, nesse dia decidimos fazer a pé, pela areia, a costa até Pingwe.

Também aqui a inclinação nula do nível da areia faz com que as marés mudem totalmente a paisagem. Partimos em maré vazia, com a rebentação ao longe, quase sem se ver, e a praia promovida a um enorme areal.

Costa sudeste
créditos: Projeto Prá Frente
Costa sudeste
créditos: Projeto Prá Frente

Caminhámos sempre para norte, passando por zonas com espelhos de água, por barcos encalhados à espera do regresso do seu elemento e por zonas de rochas, crustáceos e ouriços do mar. Por toda a praia, entusiastas e aprendizes de kitesurf povoavam os céus de bandeiras em azul e vermelho.

A nossa paragem final é o "The Rock", o mítico restaurante sobre um penedo na areia, que depois de chegarmos, com o avanço do mar, vemos ser engolido pela água e para onde, a partir daí, já só é possível ir e sair de barco.

Costa sudeste
créditos: Projeto Prá Frente

Apanhamos um daladala de volta para Jambiani, a tempo de apanhar as nossas mochilas, despedir daquelas praias edénicas e voltar a Stone Town. Lá, espera-nos um ferry noturno para nos devolver ao continente. Um ferry de mercadorias que só faz a viagem em certos dias da semana e para o qual só alguns locais sabem ser possível comprar bilhete.

Nessa noite, a regressar a Dar Es Salaam, deitado ao comprido sobre uns bancos do convés, com a venda nos olhos e agarrado à mochila, máscara posta para proteger do COVID e das pequenas baratas que passeiam pela cabine, vou embalando com a ondulação e imaginando que mais surpresas me guardará aquele país.

Costa sudeste
créditos: Projeto Prá Frente

Projeto Prá frente

O Projeto Prá Frente foi criado por dois jovens engenheiros, com a intenção de conhecer (e partilhar) uma perspetiva completa do Sudeste Africano, focando-se não só no seu património deslumbrante, mas também nas suas pessoas e naquilo que tem para oferecer para o futuro.

Para saber mais siga o Instagram: @projeto_prafrente

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