Imagem: Museu Guggenheim, Bilbao - créditos: Joana Firmino Ribeiro

Viajar deixou de ser apenas viajar. E juntar a palavra “apenas” ao ato de viajar é uma heresia que não queria cometer, mas que me ajuda a estabelecer o propósito deste texto. Viajar sempre trouxe riqueza, conhecimento e abertura de espírito. E só por isso já fazia de nós “mais” – mais esclarecidos, mais conscientes, mais humanos e mais ativos. Mas se antes ganhávamos estas dimensões de forma inconsciente, agora viajamos em sua direção. Agora viajamos com um propósito.

O relato que hoje vos trago teve como propósito a autodescoberta. Quantas não são as pessoas que conhecemos que gostavam de viajar sozinhas e que não o fazem por medo, não é verdade? E qual o rácio entre mulheres e homens? Viajar a solo é importante para qualquer pessoa, mas comecemos pelas mulheres cujo medo está muitas vezes relacionado com a perceção (ou não) de falta de segurança.

Viajei sozinha pela primeira vez até Bilbao. Escolhi um destino a uma distância relativamente próxima de Portugal, caso acontecesse alguma coisa, fiquei alojada num hostel junto ao terminal dos autocarros para que no dia de regresso não tivesse de andar mais de cinco minutos sozinha na rua de madrugada, optei por não descobrir a vida à noite da cidade e mantive a mala sempre feita e pronta para partir. Prevenção foi a palavra de ordem. Se podia ter sido mais descontraída? Claro que sim, mas tudo isto fez com que me sentisse mais tranquila durante aqueles dias, trouxe-me segurança numa cidade desconhecida e num país que não o meu, e tornou o meu caminho de reflexão e de autodescoberta melhor e mais focado.

Bilbao não é de todo uma cidade que te faça olhar por cima do ombro de cinco em cinco minutos. É uma cidade portuária, rodeada pela ria de Bilbao e pela natureza, carregada de cultura e de arquitetura e repleta de ritmo e agitação. Percorrer parte da ria todas as manhãs era o meu passatempo favorito – começava perto de San Mamés, o estádio do Atlético de Bilbao, e ia percorrendo a Avenida Abandoibarra passando pelas várias pontes que unem os dois lados da cidades, os vários parques que e jardins que a rodeiam, e cumprimentando a Torre Iberdrola, a Biblioteca Universitária Deusto, o “Pop Rooster” (da nossa Joana Vasconcelos), o “Puppy” de Jeff Koons (uma escultura floral de um gigante Terrier), o Guggenheim como não podia deixar de ser, e logo de seguida “Maman” de Louise Bourgeois e a Ponte Zubizuri de Calatrava. Começar os dias a beber arte, sem gastar um euro (isto em optando por não entrar no Guggenheim) e a caminho de Casco Viejo, o antigo bairro medieval da cidade.

Bilbao
"Maman", de Louise Bourgeois, junto ao Museu Guggenheim, em Bilbao créditos: Joana Firmino Ribeiro

Fazendo jus ao sítio onde me encontrava, aquilo a que tão bem em inglês chamam de Art District, não perdi a oportunidade de me sentar junto à ria, tirar o bloco de notas e uma caneta da mochila e escrever sobre o que via, sobre mim, sobre o efeito de um no outro. Acredito que deixamos a nossa marca por onde quer que passamos, nem que seja por trocarmos um sorriso cúmplice com uma mãe que passa com o filho aos pulos à sua frente.

Chegar a Casco Viejo é fazer uma viagem ao passado, deixar-nos envolver em lendas que contam a sua história e pensar em como tudo está relacionado, como por muito que tentemos pôr o nosso passado para trás das costas, há sempre lições que tiramos dele e que não queremos esquecer. Lição aprendida - não viver no passado, mas aprender através dele. Casco Viejo é o sítio certo para isso. É visitar a Plaza Nueva, o Mercado de la Ribera, deixar-nos sentar nas escadas do Teatro Arriaga a ouvir a rapidez de fala de quem por ti passa, não deixar passar a Catedral e as inúmeras igrejas que habitam as suas sete ruas. E deliciar-nos com os pintxos, porque aquilo que levamos da vida também se mostra pelo sabor.

Bilbao
A caminho de Casco Viejo créditos: Joana Firmino Ribeiro

Há muito para descobrir, há quilómetros para palmilhar nesta cidade que divide o velho e o novo, mas que o mistura nas suas pessoas. E são elas quem te guiam pelo teu trajeto nesta cidade e que te dão essa sensação de segurança que qualquer mulher (aqui falo pelas mulheres, mas acredito que qualquer pessoa o deseje, na medida certa) gostava de ter em qualquer destino. Deixo aqui um pequeno excerto do meu bloco de notas, escrito na minha última noite na cidade.

“Aqui as pessoas são barulhentas e enchem qualquer cantinho com a sua rapidez de fala. São elas que, se te faltar algum dia a luz, te vão iluminar e guiar. Foi delas que me escolhi rodear nesta minha última noite por aqui”.

Bilbao
Sentar, respirar, observar e refletir junto à ria de Bilbao créditos: Joana Firmino Ribeiro

Sim, não precisei que corressem em meu auxílio, foi a viagem mais tranquila da minha vida, mas não tenho dúvidas nenhumas de que, se precisasse, haveria sempre alguém para me dar a mão e caminhar a meu lado. De qualquer das formas, deixo aqui algumas dicas que a Gap Year Portugal partilhou no Instagram sobre ser mulher e viajar sozinha. Alguma dúvida, basta seguirem a Gap Year Portugal por lá (@gapyearportugal) ou continuarem a acompanhar-nos aqui pelo SAPO Viagens.

Ser mulher e viajar sozinha

1. A sensatez é essencial. Mantém os cuidados que já tens na tua vida normal e aplica-os ao teu gap year.

2. Confia, desconfiando. E se necessário alia-te a alguns mecanismos de defesa que te permitam sentires-te mais confortável e segura a cada passo (curso de defesa pessoal, mini-desodorizante que possa servir como gás pimenta, entre outros).

3. As grandes vantagens em fazeres este caminho sozinha são a autodescoberta e a realização pessoal. Sozinha estás mais predisposta ao que te rodeia e ao teu interior e percebes que és capaz de tudo.

Texto por: Joana Firmino Ribeiro , Voluntária na Associação Gap Year Portugal

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