Nunca tivemos tanto acesso à informação mas simultaneamente nunca foi tão fácil equivocar-nos num mundo de aparências e repleto de profissionais da verdade. Ao assentar os pés em terra firme quando comecei a minha primeira caminhada na Via Francigena, respirei o mais fundo que consegui, os pulmões assim nos obrigam.

Todos nós conhecemos imagens da alta montanha, mas como diria a anedota, uma coisa é turismo outra é imigração. Durante anos adiei fazer uma caminhada à muito prometida a mim mesmo. Atravessar os Alpes entre a Suíça e a Itália tal como fez Hannibal e os seus elefantes ou séculos mais tarde, Napoleão e o seu exército. Na verdade esta é uma rota transeuropeia que liga Canterbury (no sul de Inglaterra) a Roma, na Itália.

Com alguma paciência e determinação, encontrei a desculpa perfeita. No âmbito dos programas de Walking Mentorship, sempre procurei encontrar rotas que pela sua história, espiritualidade ou paisagem ajudassem a produzir os melhores resultados a quem comigo caminha. O destino final é sempre o mesmo, a melhor versão de nós mesmos. A Via Francigena era exatamente o que procurava.

A primeira vez que atravessei a pé o mar de montanhas que povoa o centro da Europa, foi em missão de reconhecimento e aprendizagem. Um estado de espírito que acredito manter-se até aos dias de hoje. Caminhar com as montanhas é uma aula de humildade para toda a vida.

Uma viagem ao passado da Europa com paragem obrigatória no futuro de cada um de nós
créditos: João Perre/Walking Mentorship

As origens da Via Francigena são muito antigas

Primeiro os Romanos e mais tarde os Francos, fizeram desta estrada a principal ligação entre o norte e o sul da Europa. Um rota que começou por ser inicialmente comercial e que algures entre o primeiro e o segundo milénio passou a ser percorrida também por peregrinos que desejavam visitar a Santa Sé e os túmulos dos apóstolos Pedro e Paulo. Depois de chegar a Roma muitos seguiam por barco até Jerusalém.

O caminho nem sempre foi o mesmo: fenómenos naturais, mudanças nas fronteiras e bandos de bandidos acabaram por influenciar os trajetos possíveis. Na verdade, ainda hoje a Via Francigena reinventa-se a cada passo de quem a percorre.

Para a maioria dos mortais, como eu, quando caminhamos a cima dos 2500 metros começamos a sentir algo diferente. Quer seja pela altitude, pela menor concentração de moléculas ou porque a nossa perspectiva muda radicalmente, é impossível ficar indiferente.

A minha experiência ao percorrer os trilhos que testemunham o passado de uma Europa longínqua transporta-me sempre para o plano do infinito. Por breves instantes quando olhamos o mundo lá em baixo parece ser mais fácil perceber o significado da palavra universo.

Não existem duas montanhas iguais. Cada uma apresenta-se com a sua dignidade e em conjunto tornam-se quase intransponíveis, desafiando constantemente o Homem a procurar uma forma de  as conquistar.

Curiosamente a solidez e a indiferença da imensa cordilheira Alpina face à loucura que nos rodeia confirma que há muito mais para além do que a agenda de cada um dita no início de cada semana.

Uma viagem ao passado da Europa com paragem obrigatória no futuro de cada um de nós
créditos: João Perre/Walking Mentorship

O que podemos então aprender e incorporar na nossa vida ao caminhar por entre estas montanhas?

Provavelmente muitas coisas, desde que estejamos atentos. Vou partilhar uma história que se passou num dos programas de Walking Mentorship nesta mesma rota em 2017.

O programa semanal estava prestes a terminar. A vida não espera. Esta é a dinâmica que todos conhecemos bem. Tudo o que não conseguimos viver num determinado dia, nunca recuperamos e naquele não foi exceção.

Durante a nossa rota, pernoitámos no maravilhoso Mosteiro no Col du Grand Saint Bernard. As minhas expectativas eram elevadas, pois as minhas anteriores passagens tinham sido sempre experiências maravilhosas.

No entanto, um problema na cozinha acabou por determinar que o nosso jantar fosse bem diferente do esperado. Eu estava de tal forma bloqueado que nem consegui usufruir verdadeiramente da presença dos meus companheiros de viagem. Olhando para trás, diria que não soube acomodar o que a vida me estava a dar naquele momento.

No final da refeição, procurei passar ao responsável do acolhimento o meu desagrado. Como resposta, ouvi um pedido de desculpas que mais parecia uma frase de boas-vindas a quem acabava de chegar. Disse-me com uma enorme calma que procuram sempre fazer o seu melhor mas que naquele dia, o melhor tinha sido o serviço oferecido. Concluiu dizendo que a Europa tem muito a aprender com a paciência das montanhas. 

Fiquei confuso e fui dormir a tentar resolver na minha cabeça o que tinha acabado de me acontecer. Provavelmente teria sido o oxigénio a fazer das suas.

O dia começou encoberto e gelado. Para um suposto início de agosto, a jornada parecia prometer algumas surpresas. Tivemos de vestir toda a roupa que tínhamos na mochila. A vida na alta montanha tem uma personalidade muito própria que é preciso respeitar. 

Antes de partir a mesma pessoa que me tinha posto a pensar no dia anterior, veio ter comigo e deu-me um “presente” para partilhar com o grupo. Saí com um saco de plástico com várias coisas lá dentro acompanhado por um sorriso que me fez sentir em paz.

O nosso anfitrião contou-me uma pequena história que enquadrava a sua oferta, tendo-me pedido para repetir ao grupo esta mesma explicação assim que chegasse o melhor momento.

Avançámos em silêncio, encurtando a passada para podermos olhar para trás e ver uma vez mais o imponente lago que faz de fronteira entre a Suíça e a Itália. Ao aproximarmos da estátua de São Bernardo de Menthon construída por cima do outrora templo romano Plan de Jupiter, o céu por cima das nossas cabeças parecia ter saído de um filme. As nuvens afastaram-se e o azul profundo ajudou-nos a construir uma perspectiva completamente diferente. Talvez fosse aquele o momento esperado.

Uma viagem ao passado da Europa com paragem obrigatória no futuro de cada um de nós
créditos: João Perre/Walking Mentorship

Dentro do saco de plástico tinha sete barras de chocolate todas diferentes, uma para cada membro do grupo. Concentrei-me e tentei repetir com exactidão a mensagem que me tinha sido passada:

“A Europa é como estas montanhas. Cada uma delas é como um país ou uma região. Imaginem agora que cada cultura é uma destas barras de chocolate. Cada uma tem um sabor, textura e conjunto de ingredientes únicos.

Cada um de nós poderá decidir comer a barra que tem nas suas mãos por inteiro e provavelmente, sentir-se feliz no final. Mas poderá também decidir fazer de forma diferente. Se cada um partilhar alguns pedaços do que tem, e em troca, receber outros sabores, acabará por ter uma infinita combinação de possibilidades.

Ao juntarmos um pouco de cada um ao que temos e somos, criamos algo totalmente novo. Todos obtêm a mesma quantidade, mas acabamos por ter uma qualidade mais ampla, mais flexível e abrangente. Ao dar um pouco de nós acabamos por obter muito mais.”

Sem dizermos muitas palavras, a "fotografia" mais poderosa da semana foi criada no topo das montanhas. Sete Europeus de sete países diferentes provaram o sabor único da universalidade humana e voltaram para casa mais unidos do que nunca.

Com tantas nuvens que voltam a pairar sob as nossa cabeças, poderá ser este o futuro da nossa Europa? Olhando para o chocolate que tenho nas mãos e que não se pode comprar mas tão somente ajudar a criar, percebo que a mistura de sabores e experiências que cada um trouxe para o grupo tornou o todo maior do que a soma das partes. Talvez faça falta mais pessoas fazerem este caminho e ouvirem o que as montanhas tem para nos dizer.

Uma viagem ao passado da Europa com paragem obrigatória no futuro de cada um de nós
créditos: João Perre/Walking Mentorship

Em julho, o Walking Mentorship volta à Via Francigena para continuar a aprender o caminho rumo à melhor versão de nós mesmos, e desta vez, quem sabe, caminhando lado a lado com o leitor.

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