Palestina. Decerto é o nome de um Estado que vos fará pensar em conflito e confusão político-religiosa. Só quem viaja até lá, portanto explorando Israel ou mesmo indo pela Jordânia, percebe a luta daquele lugar a que chamo "sem passaporte" com uma poeira permanente. Pessoas presas naquela terra de pó avermelhado, com mercearias imensas à beira da estrada e com um pôr-do-sol cansado. Cansado de pedir partes de três diferentes regiões. Quem tem razão? A poeira lembra-me confusão, névoa, coisa desalinhada. E a Palestina parece um território perdido de armas pobres em punho. Mas é muito mais que isso. Quem se atreve a conhecer mais sobre as origens do mundo? É que ali está a cidade mais antiga do planeta e também o lugar mais baixo da terra: Jericó. Parece uma parábola bíblica, mas não é parábola embora seja bíblica.

A escassos quilómetros do Mar Morto, no deserto escaldado da Judeia, pode entrar na Palestina, mas tem um enormíssimo letreiro, a vermelho: se for israelita está em perigo de vida e não deve trespassar. Isto instigou-me mais a passagem, vamos, vamos lá! Éramos muitos num autocarro muito bem guarnecido e os olhos da maioria estavam tão assustados quanto desejosos que parássemos para tocar na árvore milagrosa da Bíblia e depois perceber o segredo de Jericó. Os palestinianos tinham todos um ar muito agradável e olhavam para nós com vontade de nos conhecer. Ou (senti) de explicar o ponto de vista deles. Com fronteiras que lhes desenharam sem lhas terem perguntado no passado. Algo assim: concordam com esta linha no vosso mapa? E o que é vosso em Jerusalém? Pois, a guerra é sangrenta. Deus é o mesmo e não é desculpa para os atos que vêm dali, da Cisjordânia, da Jordânia ou de Jerusalém.

créditos: Sandra Figueiredo

Eu só via poeira e pobreza em volta dos semblantes. As casas nada têm a ver com a sumptuosidade hebraica, arménia, cristã ou mesmo muçulmana de Jerusalém. Lá tudo é mais rico ou com mais mantimentos, com destaque para a zona judaica. Sim são quatro zonas, embora duas se destaquem: a muçulmana, depois da porta de Damasco e a judaica antes dessa porta ‘temida’. A zona judaica, onde fiquei hospedada, é a mais cara e mais segura. Não estou aqui a discriminar religiões ou etnias, mas é a zona mais segura. Basta pesquisarem. Pelo contrário, procuro aventura onde veja linhas vermelhas e procuro compreender a rivalidade daquele cartaz vermelho na fronteira da Palestina, entrando pela Cisjordânia.  Lembrou-me a recente série Netflix “Messiah”. Não conseguimos tomar partidos e quando tomamos, está algo incompletíssimo. E a aventura começa logo no aeroporto, seja qual for a escala que faça, pois, antes de ingressar na aeronave para Israel, a sua identidade é literalmente interrogada.

Sobre escalas, se partir de Portugal aconselho que faça escala em Budapeste e percorra a cidade totalmente em dois dias, depois siga para Telavive. É a viagem mais económica. A tripulação pergunta tudinho sobre si desde que nasceu e qual a sua intenção nesta viagem. Levem documentos convosco incluindo os que possam estar relacionados com uma viagem de trabalho. Por exemplo, eu fui a uma conferência – como na maioria das minhas viagens – e apresentei o comprovativo da minha participação enquanto oradora. Nem isso lhes chegou. Estranharam bastante eu ter viajado no espaço anterior de 12 meses para a Ásia, sobretudo Malásia e Emirados Árabes. Compreendi, colaborei, fui sincera. Sou cientista e tenho alma de exploradora. Depois de tudo confirmado, boarding!

Se há coisa que me define é ser temerária e fui a Israel dias depois de um atentado. Saí pelas quatro horas da manhã para uma de muitas tours que me abalou a energia, em diversos sentidos: o sepulcro de Cristo, as armas levantadas na porta de Damasco, a porta Dourada (Jerusalém), o sítio recôndito onde nasceu Jesus (Palestina), a ida ao Mar Morto e …. a entrada na Palestina pela Cisjordânia, especialmente Jericó. Já tinha ouvido falar sobre o microclima na cidade de Jericó. Era janeiro e, em Israel, o inverno tem o mesmo frio seco que o de cá. Mas quando atravessam a fronteira palestiniana e chegam a Jericó… os casacos e cachecóis são retirados pois o corpo sente todo o calor que aquela latitude milagrosamente alberga. Um calor repentino no meio do inverno. Imagine-se no verão e com o deserto ali perto!

créditos: Sandra Figueiredo

Jericó tem isso e uma história cativante de factos reais que os cuidadosos guias vos contam. Pedem para se sentar e escutar. Os guias das tours de toda a Israel, mesmo incluindo o Estado da Palestina, são escrupulosamente sábios storytellers ao estilo National Geographic.

As tours são muito caras, mas a segurança conta muito. Incluem guia e várias paragens, fiquei absorta com tantos locais. Os beduínos com os seus camelos são muito atrativos. A viagens turísticas internas não incluem refeições e os horários são bem madrugadores (eu que sou um mocho…imaginem!). O pick-up pode variar, mas é 100% seguro e são tantas as nacionalidades entre os turistas que procuram perceber a terra prometida, o ouro de Jerusalém e a eterna guerra santa! Fiz amigos por ali.

Vá e prometo focar-me hoje na Palestina, especificamente em Jericó. Ora já vinha eu com a alma e corpo salgado do Mar Morto, sem qualquer vida avistada naquelas águas quentes, de olhar pasmado colado ao vidro do autocarro ao calcular a travessia que teria sido por ali no deserto, mais que uma vez na História. Deserto puro e estéril que divide terras tão conflituosas. Mas de alma salgada pelo Mar Morto, reavivei os sentidos quando entrei em Jericó. Passando uma fonte muito antiga e bonita, sentei-me a ouvir o guia e olhava em volta respirando com dificuldade. Ar quente este aqui, pleno inverno, história da Bíblia real. E eu pensava que Jericó nem existia. Os primeiros povos terão ali começado e Jesus estivera ali. E eu estava agora ali. E quero muito que vocês estejam também.

Parece este fim indefinido? Pois, é que Jericó e a sua localização não têm também fim definido. Pensem como sofre a Palestina, um lugar onde os nativos não têm fronteiras nem passaportes pacíficos. Ou são palestinianos confinados ou são refugiados. Somos muito livres no nosso confinamento atual de viagens. Sejamos gratos. Amar e orar é aqui, em Israel. Comer também! Deveriam ter revisto o famoso título do livro e filme, acreditem. Quando lá estiverem e explorarem Israel, ficarão divididos sobre tudo aquilo em que acreditam.

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