Mas o que há para ver e conhecer em Loikaw, afinal? Provavelmente, nunca ouviram falar de Loikaw, mas das mulheres girafa sim. Apesar de muitos as conhecerem na Tailândia, já que elas se refugiaram por lá, Loikaw é a sua cidade natal. É daqui que elas fogem para a Tailândia para evitar os conflitos étnicos que se vivem no Myanmar. De mencionar que são inúmeros. Não só os mais conhecidos como o caso dos Rohingya.

As mulheres girafa são conhecidas pelos anéis dourados que usam em volta do pescoço. Elas fazem parte de uma minoria étnica originária do Myanmar que tem sido perseguida pelo exército birmanês, daí fugirem para a Tailândia. Mas ainda aqui vivem algumas comunidades que também se abrem ao turismo como forma extra de subsistência. Em Loikaw ficam localizadas aldeias desta etnia, e foi a uma delas que fui.

Não fui sozinha porque assim o intercâmbio cultural seria muito difícil devido à barreira linguística. Não costumo fazer tours, mas neste caso quis fazer para assim compreender o que esta senhora que visitei tem a dizer. Estas etnias têm por norma a sua própria língua, não o birmanês. Aliás, no Myanmar existem centenas de línguas diferentes. Para poder entender estas senhoras é preciso falar a língua local, o que por vezes nos levou a ter dois tradutores: um do dialecto local para birmanês e outro de birmanês para inglês. Daí visitar estas tribos não ser das actividades mais económicas em viagem. Mas é das experiências mais enriquecedoras e únicas!

Nesta visita à aldeia das mulheres girafa, entramos na casa de uma delas e tivemos à conversa. Esta senhora tem 56 anos e a sua filha mais nova tem 9. Ela está a fazer um cachecol enquanto falamos com ela ao sabor de um chá. Usa os anéis dourados com orgulho e nunca os tira. Nem para dormir, nem para tomar banho. A última vez que os tirou foi porque teve de fazer uma cirurgia, há cerca de dois anos. Os anéis são difíceis de tirar, daí perceber o porquê de não o fazerem. São um único fio enrolado à volta do pescoço. Não têm uma abertura atrás como se vê por vezes em sítios turísticos só para fotos. Os que ela usa pesam 5 kg mas podem chegar aos 10 kg.

A razão certa sobre o porquê de estas mulheres usarem estes adereços ainda não é totalmente conhecida. Alguns dizem que era para as proteger de ataques de tigres, outros por beleza, e ainda outros que dizem ser para as tornar mais feias para que o rei, na altura, não as escolhesse para o seu harém. Fica a dúvida. Eu cá acho lindíssimo e se há coisa que estas tribos tentam fazer é diferenciar-se umas das outras pela vestimenta, portanto isso também seria uma razão plausível para mim.

A senhora que conhecemos vive numa casa muito modesta de madeira. A cozinha é dentro e funciona a fogo, tal como antigamente. Veem-se alguns alimentos pendurados para serem conservados. Faz alguns cachecóis para vender aos poucos turistas que a visitam. Além disso, vive da agricultura. Esta senhora tem pena que a sua filha já não use os anéis em torno do pescoço. Ela queria que a tradição não se perdesse, mas ela cisma em se ir esvaindo com o tempo. No entanto, para esta tribo, penso que o futuro está assegurado ao nível das suas tradições já que o governo birmanês tem um tratado para a preservar.

Existem mais grupos étnicos na região e visitei mais uma aldeia: Hta Nee La Leh. Nesta aldeia encontra-se outro grupo étnico com os seus costumes e tradições distintos dos demais, e vestimenta também. Infelizmente, este está mais ameaçado de se perder. Já só 10 mulheres na aldeia se vestem da forma tradicional, e penso que em breve não será vista mais nenhuma já que a tradição está a cair em desuso. Elas usam tons vermelhos numa indumentária linda e atraente. A senhora que visitamos diz mesmo que os poucos turistas que ela vê lhe tecem vários elogios.

Esta senhora tem mais de 60 anos e é casada com um aldeão na casa dos trinta. O seu sorriso é contagiante! Estava a apanhar algodão mesmo do seu quintal quando chegamos a casa dela. Esta já tinha a cozinha separada do resto da casa, o que acho boa prática pois os fumos que de lá saem são prejudiciais. Neste grupo étnico as tradições são bem diferentes das mulheres girafa. Eles penduram ossos de galinha fora das casas para dar boa sorte. Têm um campo dedicado à espiritualidade onde se dão rituais que executam para os espíritos, e assim atrair boas culturas e boas energias para a vila. Existe inclusivamente um xamã que é o responsável por tomar decisões. Ele tem um bungalow só para ele no qual mais ninguém é autorizado a entrar.

É surreal ver que estas realidades ainda existem, estão lá e estão a acontecer. Uma realidade que a nós parece do passado, mas é bem real e presente. É fantástico ficar a conhecê-la antes que se extinga, já que esse me parece o caminho inevitável. Estar nestes locais com estas pessoas é arrebatador e faz-me perceber o quanto a diferença é essencial neste mundo. Existem centenas de grupos étnicos no Myanmar e visitar este sítio faz-me querer conhecê-los a todos. É inspirador! Alguns destes grupos étnicos vivem em áreas interditas a forasteiros pelo que são muito difíceis de visitar. Mas é também a existência de todos estes grupos étnicos que faz do Myanmar um país com muitos conflitos, pois muitos deles querem a sua independência. É um país complicado mas o mais rico em diversidade cultural que já visitei. Daí ser tão especial. É uma viagem ao passado.

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