Já conhecem o projeto
Ecovia do Litoral Algarvio - Tavira créditos: transeunte desconhecido

Por: Cuentame Quilómetros

Quando começámos a falar em viajar para outro continente, percebemos rapidamente que com os meus 22 dias de férias e dado o preço e tempo dos voos, essa viagem só poderia ser concretizada – pelo menos como a imaginávamos – no momento em que tivéssemos amealhado dinheiro suficiente para largarmos os nossos empregos (o que, pelas nossas contas, seria mais ou menos aos sessenta anos).

No ano passado, ainda considerámos a hipótese de concorrer à bolsa de gap year (ano sábatico) do projeto “Emunicipa-te” da Gap Year Portugal em parceria com o município  de Viana do Castelo, mas não éramos elegíveis.

E eis que, em 2022, surge uma nova bolsa! E agora sim! Reunimos todas as condições para tentarmos a nossa sorte! No entanto, a decisão de nos candidatarmos não foi instantânea.

No início de maio enviei o link do regulamento, seguido de um print de uma conta da luz, ao Rui. O assunto mundano prevaleceu sobre o sonho e pouco ou nada falámos do concurso. Provavelmente nesse dia ao jantar dissemos que tínhamos de nos candidatar, mas rapidamente colocámos o tema debaixo do tapete, tanto que nem fomos às palestras sobre o assunto, organizadas pelo gabinete da juventude da Câmara Municipal de Viana do Castelo.

Em junho começámos a falar com mais regularidade na possibilidade de fazermos o nosso gap year, mas, todos os dias, queríamos ir para um país diferente, o que muitas vezes nos levava a concluir que não queríamos verdadeiramente ir para lado nenhum. Ter o mundo todo por onde escolher dificultava a decisão.

Quando vimos que as palestras se iam repetir, ficámos aliviados. Decidimos ir com o objetivo de sugar toda a informação que conseguíssemos e fizemos figas para sairmos de lá com um ponto de partida, pois ao fim de tantas conversas, sobrava apenas uma folha com o nome de vários países e alguns pontos de interesse em cada. Tudo muito embaciado e salpicado de dúvidas e medos.

Depois do fim de semana da palestra, senti-me com imensa energia para levar a candidatura para a frente. Para mim foi o ponto de viragem. Decididas as perguntas às quais queríamos responder e os capítulos que iam estruturar o documento: o porquê da viagem, porquê agora, qual o impacto que queremos provocar em nós, nos outros e no município, qual o roteiro, o plano de alojamento e transportes, as opções de voluntariado e atividades de lazer e ainda o orçamento. Na minha cabeça seria "só" escolher os países, arregaçar as mangas e escrever. Digamos que nesta fase o meu entusiasmo era incontrolável. Se de repente decidíssemos ir para a Tailândia, África do Sul ou  Canadá, eu estava disposta a inventar uma maneira disso ser exequível.

Felizmente, existe o Rui para deitar água na fervura dos meus impulsos. Por mais motivação que houvesse para andarmos com a candidatura para a frente, a escolha dos países não era um assunto secundário, antes pelo contrário. Todo o projeto só faria sentido se por trás estivesse um objetivo bem delineado do que queríamos fazer e onde. O plano tinha de ter significado para nós, para as pessoas que íamos encontrar e para a nossa cidade. A vontade de ir estava a cegar-me.

Resolvemos falar com uma amiga, que sabíamos ter viajado pelo Sudoeste Asiático e pela América Latina, com quem o Rui se tinha aconselhado antes de ter decidido parar um ano em 2015, depois de terminar a licenciatura, para trabalhar na Suíça e viajar três meses com o dinheiro amealhado. Nessa altura, a Ana ajudou-o na decisão dos destinos. Desta vez não foi diferente, com a sua forma entusiasta e sensível de contar histórias, rapidamente convenceu-nos que seria a América Latina a zona mais indicada para as nossas aventuras.

Amarante
Amarante créditos: Luísa Coelho

Saímos de lá com a sensação de que aquele continente estava à nossa espera. Como se o destino já estivesse há muito tempo planeado. A decisão fazia tanto sentido que parecia terem sido estes países (Colômbia, Peru e Equador) os escolhidos desde o início. Quando algo encaixa tão bem é um pouco difícil de explicar, mas muito fácil de sentir. E, desta vez, tanto eu como o Rui sentíamos o mesmo. Estávamos alinhados.

Conhecemo-nos entre histórias, namorámos através de trocas de livros, passámos temporadas de deleite a ler sobre a América Latina: “O falador”, de Vargas Llosa, “Rosinha Minha Canoa”, de José Mauro de Vasconcelos, “A Selva” do Ferreira de Castro, “O velho que Lia Romances de Amor”, de Luís Sepúlveda, a culminar no “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez. Era a estas paisagens humanas e naturais que recorríamos para momentos de deslumbramento! Ter a oportunidade de contarmos as vivências de pessoas vindas de lugares que sempre nos encantaram, era encontrar um eco do que nos fazia estar apaixonados pela nossa cidade. Soava ao fechar de um ciclo, talvez ao abrir de outro. Finalmente surgia o sentimento de que a decisão de nos candidatarmos, de deixarmos a nossa vida, despedirmo-nos e largarmos a nossa casa, era acertada.

Sofá da avó do Rui - Amarante
Sofá da avó do Rui - Amarante créditos: Luísa Coelho

Objetivo atingido

Se o Rui é o procrastinador que precisa de muito tempo e ponderação para tomar uma decisão, eu sou a apressada que decide tudo na hora, muitas vezes sem pensar muito sobre o assunto.

A junção destes dois extremos parece um cocktail molotov, mas, na verdade, é uma pina-colada. Para conseguirmos apresentar a candidatura a tempo, o ideal era aproveitar o melhor de cada um: a minha energia, rapidez, prontidão e sentido de demanda para tratar da parte mais objetiva da viagem: roteiro, transportes, alojamento e orçamento. E o arrojo, criatividade, sensibilidade e engenho do Rui para escrever a parte mais importante do projeto: o porquê de o queremos fazer.

Em primeiro lugar, começámos por definir que visitaríamos apenas três países, de modo a ficarmos mais tempo em cada um. Se queríamos falar das paixões que um lugar consegue semear, tínhamos de dar tempo para que nos abrissem o coração.
Pensámos que fazia sentido fazermos voluntariado em áreas bastante diferentes entre si, mas sempre ligadas à cultura de cada país. Por exemplo, na Colômbia, numa quinta de produção de café, no Peru numa galeria de arte e livraria para crianças e no Equador numa associação de replantação de espécies autóctones.

Tomadas as decisões importantes, enquanto o Rui escrevia o tema do nosso projeto, restava-me abrir o excel.

Criei um documento para o voluntariado e couchsurfing com uma coluna que indicava o porquê de nos parecerem projetos ou pessoas interessantes e algumas características de cada um. Depois, dividimos o nosso orçamento em várias folhas dentro do mesmo excel: uma folha para o orçamento pré viagem (medicação, seguro, vacinas); outra para os voos (tanto os de ida e volta, como entre cidades que visitaremos), ainda uma folha para cada país de destino (com alimentação para dois meses, transportes, dormidas e atividades de lazer) e, por fim, uma com o somatório das folhas anteriores.

Sabemos que já passaram quatro meses desde o momento em que criámos este plano, pelo que temos de estar preparados caso algumas das organizações de voluntariado não nos possam receber. Estamos cientes que gerir expectativas vai ser uma das nossas atividades diárias, mas também concordamos que os imprevistos são, quase sempre, uma escada para chegar a aventuras mais inesquecíveis.

Depois de três dias enclausurados e com muito poucas horas de sono, o projeto nasceu. Agora, olhando para trás, e depois de fazer esta retrospectiva, percebo que a nossa viagem começou nesse fim de semana, em que demos as mãos e caminhamos juntos (no sofá). Nem todas as travessias são feitas em movimento.


Projeto “Cuentame Quilómetros”

“Cuentáme-quilómetros” é o nome do projeto vencedor do “Emunicipa-te” de Viana do Castelo. Um projeto de bolsas municipais de gap year através do qual, durante 6 meses, a Teresa Osório e Rui Coelho vão viajar pela América Latina.

Projeto “Emunicipa-te”

O “Emunicipa-te”: Programa Municipal de bolsas de gap year é um projeto desenvolvido pela Gap Year Portugal em parceria com vários municípios. O projeto já vai na terceira edição e todos os anos aumenta o número de municípios aderentes que premeiam jovens dos 18 aos 30 anos residentes ou estudantes no seu concelho com uma bolsa de gap year, que pode ir até aos 6.500€. As candidaturas para as bolsas de gap year de 2023 dos municípios de Odemira, Viana do Castelo e Oeiras já se encontram abertas no site oficial assim como o respetivo regulamento. Mais municípios parceiros serão anunciados em breve.

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