A SATA Air Açores, que opera entre as ilhas da região, retomou hoje a sua operação, depois de dois meses e uma semana de interrupção. Durante este período, os aviões da companhia apenas levantaram voo para o transporte de cargas ou em casos de força maior.

Quem não soubesse do regresso da operação da SATA, provavelmente não notaria diferença no Aeroporto João Paulo II, em São Miguel, porque foram poucos os passageiros que decidiram aproveitar o primeiro dia da retoma das viagens.

Eram 07:30 quando saiu o primeiro voo com destino a Santa Maria, a ilha vizinha do grupo oriental. Apesar de o avião ter capacidade para 53 pessoas, foram apenas 12 os passageiros que viajaram.

Um dos passageiros foi Dinis, natural de Santa Maria, que foi autorizado pela Autoridade de Saúde a deslocar-se a São Miguel por motivos de saúde. Uma viagem que habitualmente dura 20 minutos, demorou cinco horas naquela vez, porque foi necessário ir buscar passageiros a outras ilhas.

"Tivemos de ficar no Faial [vindos de Santa Maria] porque eles [SATA] iam às Flores. É muito triste ver o aeroporto deserto. Só se via eu e a minha esposa lá dentro e um ou dois funcionários da SATA. É muito triste ver os nossos Açores assim", recorda.

Na manhã de hoje, o cenário não era "muito diferente", assume Dinis, referindo que as "pessoas estão com medo de viajar".

"Aos poucos tenho fé que isso vai acabar. Mas isso depende de nós. Depende de cada um. Não depende dos médicos, depende de nós próprios", diz.

Além dos poucos passageiros, o próprio aeroporto encontrava-se a funcionar a 'meio-gás'. Com as lojas todas encerradas, apenas estavam abertos dois postos para o aluguer de viaturas, um centro de informações e uma tabacaria.

O segundo voo da manhã saiu às 9:25 e tinha como destino final o Corvo, fazendo escala no Faial e nas Flores.

Elisabete Soares foi uma das 13 pessoas que seguiu no voo com capacidade para 20 passageiros. Vive em São Miguel, mas costuma trabalhar durante cerca de "quatro, cinco meses" num restaurante no Faial por altura do verão.

"Fiquei um mês à espera dos voos. Foi o que para mim causou mais transtorno, porque para retomar essa atividade profissional tive de ficar à espera que abrissem os voos", diz à agência Lusa.

Elisabete diz que o Governo dos Açores "agiu bem" ao fechar o espaço aéreo, reconhecendo que o seu caso não foi dos "piores", porque conhece pessoas que ficaram sem emprego ou que não conseguem regressar a casa.

"Tenho pessoas amigas que ficaram sem trabalho. Pessoas que foram mesmo despedidas ou que os contratos não foram renovados por causa da situação [da pandemia]. Inclusive tenho os meus sogros nos Estados Unidos que estão à espera de voo para virem para casa", assinala.

Quem também segue nesse voo é Barbara Proença, que ao falar com a Lusa mantém a distância de segurança, devidamente identificada pelas marcas no chão do aeroporto.

É natural do Corvo, estuda Belas Artes no Porto, mas para chegar à região teve de vir por Lisboa. Está ansiosa por regressar a casa depois de ter estado em quarentena num hotel em São Miguel desde 18 de maio.

"Temos de fazer o nosso esforço. Não são 14 dias que nos vão prejudicar assim tanto e temos as condições todas para conseguir sobreviver sem nenhum dano psicológico", refere.

Apesar de compreender a suspensão dos voos interilhas, defende que deveria ser encontrada uma solução para os estudantes açorianos retidos no continente, porque os apoios pecuniários do Governo Regional destinados aos alunos, mesmo sendo "rápidos e positivos", são insuficientes.

"Ao nível do transporte, acho que podia ter sido feito de outra forma. Podiam ter arranjado outras maneiras. Ainda vão a tempo de arranjar uma maneira de trazer os estudantes de volta. Há gente a pagar balúrdios por bilhetes, o que não faz sentido", aponta.

Ao contrário de muitos estudantes que já estão nos Açores, Barbara Proença diz que não irá ter dificuldades em realizar as avaliações porque a sua faculdade é "super compreensiva" e permitiu "exames virtuais" ou a realização dos exames presenciais em setembro durante a época especial.

Pela falta de movimento no Aeroporto de Ponta Delgada, ninguém diria que o dia assinalava o regresso da operação do grupo SATA, mesmo que, para já, apenas entre as ilhas.

A pouca movimentação levou uma funcionária do aeroporto a reconhecer à Lusa que não sentiu "grande diferença" entre a manhã de hoje e os dias anteriores, porque, mesmo com os voos suspensos, "alguns passageiros" tinham autorização para viajar por motivos de saúde.

Talvez a circulação de passageiros aumente em 15 de junho, altura em que a Azores Airlines, que opera de e para fora do arquipélago, vai retomar as ligações aéreas entre Lisboa e Ponta Delgada e Lisboa e a Terceira, bem como entre o Funchal e Ponta Delgada.

Posteriormente, em 22 de junho, recomeçam os voos entre Lisboa e os aeroportos da Horta e do Pico, e, por fim, em 01 de julho, serão retomadas as operações entre o Porto e Ponta Delgada, bem como as ligações internacionais a Boston (EUA), Toronto (Canadá), Praia (Cabo Verde) e Frankfurt (Alemanha).

Além das marcas no chão para alertar para a distância de segurança, a ANA Aeroportos avançou à Lusa ter implementado várias medidas de proteção nos aeroportos, como a utilização de máscaras, o "reforço de limpeza e desinfeção", a "melhoria dos sistemas da renovação do ar" e a instalação de um "sistema de câmaras de medição de temperatura na área das chegadas" nos Aeroportos de Lisboa, Porto, Faro, Madeira e Ponta Delgada.

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