Enquanto as ondas que Garret McNamara mostrou ao mundo rebentam nas praias da Nazaré, no extenso areal descansa uma das mais antigas e emblemáticas tradições do país: a seca do peixe. Vários tipos de peixe repousam abertos nas estruturas criadas para o efeito - estindartes - sofrendo a ação do sol. A zona de secagem está toda coberta por rede, para que o peixe fique a salvo dos ataques das gaivotas.

Historicamente, a prática de secagem do peixe surgiu como uma forma de conservação, em que as mulheres da Nazaré secavam o peixe que não vendiam durante o dia, para o conservar e voltar a colocar à venda nos dias seguintes. A seca do peixe era feita na areia, sobre uma "cama" de palha, o que exigia que o peixe fosse virado para que secasse de ambos os lados. Após a invenção do "estindarte", o processo tornou-se mais simples já que permite a circulação de ar que faz com que o peixe seque dos dois lados simultaneamente.

Francelina, Fátima, Manuela e Idaliza estão sentadas atrás das suas bancas repletas de peixe seco para vender. A imagem da mulher da Nazaré, com as suas saias e lenço na cabeça não mudou muito ao longo dos anos, mas em 2020 há um acessório novo: as máscaras que recordam o momento em que vivemos. Sem excursões de turistas as vendas diminuíram, embora o trabalho continue.

Francelina acordou às 4 horas da manhã para estender o peixe. É um trabalho duro de várias horas que exige que o peixe seja amanhado e colocado em água e sal durante 15 minutos, antes de ser estendido ao sol. Habituada a receber visitantes de todo o mundo, não se acanha e vai explicando o processo e mostrando o peixe que está a secar. Diz-nos que as espécies mais usadas para a secagem são o carapau, os batuques, a sardinha e o polvo e explica-nos a diferença entre o peixe seco e o peixe enjoado: o primeiro fica cerca de três dias a secar, enquanto o segundo apenas um dia ou algumas horas.

Vestida toda de negro mas com um sorriso luminoso, Manuela Falacho não se deixa abalar pelos tempos atuais e está feliz por nos ver. Não lamenta a queda nas vendas e mostra-se resiliente perante a situação. Hoje, Manuela acordou mais tarde.

"Hoje só vim às 10 horas. Não tinha peixe para estender, vim só para vender", diz alegre, como se o dia fosse melhor por ter começado mais tarde. Manuela tem 87 anos, seca e vende peixe desde os 7. Manuela trabalha de sol a sol há 80 anos, mas hoje só veio às 10 horas - como se fosse pouco.

Com a pele marcada pelo tempo e pelo sol e as mãos calejadas pelo trabalho árduo de anos, Manuela sabe que o ano é difícil e que a falta de turistas fez cair as vendas, mas depois de 87 anos, a enfrentar dificuldades que não podemos quantificar, Manuela não se queixa uma única vez.

A seca do peixe é um saber feminino que ainda se mantém vivo, passando de mães para filhas ao longo dos anos. Esta tradição ancestral é agora preservada pela Câmara Municipal da Nazaré, através do Museu (vivo) do Peixe Seco, que inclui toda a zona de secagem do peixe e a Antiga Lota - que funcionou entre 1958 e 1987 - requalificada como Centro Cultural da Nazaré.

Centro Cultural da Nazaré

A Lota da Nazaré foi a primeira lota do país onde o peixe começou a ser vendido ao quilo e não à unidade e era um espaço amplamente dominado pelas nazarenas. Na visita ao centro é possível ver imagens de outros tempos, de quando o peixe era vendido em leilão e os compradores gritava "chui" para indicar a compra do peixe. Grande parte da arquitetura da lota, como a bancada, foi mantida e é possível ter a percepção perfeita do movimento que se vivia na lota noutros tempos.

O que antigamente era uma prática necessária à sobrevivência e assegurava o sustento das famílias, hoje é também um espaço turístico, um processo amplamente fotografado e um alimento que chega às mesas de restaurantes gourmet de todo o país e além fronteiras. O que não mudou foi a força, a resiliência e, acima de tudo, a simpatia das mulheres da Nazaré que não se deixam abalar por nada e continuam a trabalhar de sol a sol para não deixar morrer esta tradição secular, tão identitária da região.

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