Do Chile para o Porto

Susana Ribeiro, jornalista e fundadora do site Viaje Comigo, foi apanhada pela pandemia de Covid-19 em pleno Deserto do Atacama no Chile.

“Quando cheguei ao Chile, fui direta para o Atacama e tinham poucos casos, todos concentrados em Santiago, mas numa semana tudo se alterou e o vírus espalhou-se muito rapidamente”, diz Susana, que já está em Portugal, depois de ter passado por momentos de tensão durante a longa viagem de regresso.

Pelas redes sociais, espalham-se relatos de viajantes portugueses que estão ter dificuldades em regressar a casa. “São tempos muitos difíceis em todos os sentidos. Estive em contacto com a embaixada de Portugal no Chile e tentei ajudá-los da melhor maneira que pude, divulgando o meu percurso nas redes sociais e ajudando outros viajantes por mensagem. Claro que eles tinham casos bem mais graves do que o meu para resolver e muitos ainda estão ‘presos’ nos países”, conta a viajante profissional.

O momento mais desesperante da viagem de volta a Portugal foi quando já se encontrava em Madrid. “Não tinha voo para Vigo e a única alternativa era vir de carro, porque Madrid está totalmente em quarentena. Felizmente, consegui encontrar alguém com quem dividir o carro e chegámos sãos e salvos em Portugal, pela fronteira de Vilar Formoso. Estou agora de quarentena em casa”, indica Susana, que tinha várias viagens agendadas para os próximos meses.

“A primeira a ser cancelada foi um tour que tinha em Marrocos. Mas tinha viagens o ano inteiro que vão ter de ficar suspensas até isto tudo passar”, diz. "Estamos todos a sofrer com isto, mas o que interessa é ter saúde (agora mais do que nunca) e depois arranjaremos forma de dar a volta. E nós, portugueses, somos já peritos em dar a volta. Força!”, conclui a viajante.

Ainda no Uzbequistão, "um dia de cada vez"

A partir do Uzbequistão, Daniela e Bruno, autores do blogue Circum-Mundum, ainda estão à procura de uma solução para regressar a Portugal. Conseguiram comprar um voo de regresso (510 euros por pessoa) nesta segunda-feira, mas ainda não sabem nem quando, nem para onde este voo os irá levar. “Pode ser Frankfurt, Munique ou Madrid”, escrevem, via Instagram, ao SAPO Viagens.

Daniela e Bruno estavam a começar uma viagem de 8 meses por países asiáticos mas decidiram suspender a aventura face ao agravar da pandemia do novo coronavírus. “Quando deixamos o país não havia casos, agora a história é outra e estar longe da família ‘em tempos de guerra’ é difícil”, referem.

Quando o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) lançou o apelo para que todos os portugueses em viagem regressassem ao país, o casal decidiu cancelar os planos e iniciar o regresso. No entanto, desde que começaram esta empreitada, o MNE não responde aos e-mails, nem atende as ligações feitas por estes viajantes, que estão a ser auxiliados pela embaixada italiana no Uzbequistão, uma vez que não existe embaixada portuguesa no país.

“Estamos na lista da embaixada italiana, gostávamos de acreditar que eles sabem [MNE] disso e por isso não somos prioritários na resposta. Mas, honestamente, não nos parece que seja este o caso. Achamos que há uma enorme desorganização”, apontam.

A pandemia de Covid-19 está a desestabilizar por completo o mundo e o setor das viagens não ficou de fora. Os países fecham fronteiras, as companhias áreas cancelam rotas e, todos os dias, a situação para quem está a tentar regressar ao seu país de origem pode mudar.

Daniela e Bruno encontram-se num hotel em Tashkent, capital do país, com as despesas de alojamento e alimentação asseguradas pelo governo uzbeque, enquanto aguardam as próximas indicações, neste caso, quando será o voo que os deixará em alguma cidade europeia. Quando aí chegarem, será “a segunda saga da aventura”.

Até lá, é “um dia de cada vez”. “Sentimo-nos seguros e saudáveis, isso é importante”, afirmam. Podem continuar a acompanhar a viagem de regresso de Daniela e Bruno através do Instagram do Circum-Mundum.

De São Miguel para Santa Cruz

Matilde e Miguel, os viajantes do projeto TravelB4Settle, estavam em São Miguel, Açores, quando perceberam que tinham de regressar a casa. “Tomamos a decisão de abandonar os Açores assim que a situação começou a piorar e o primeiro caso positivo nos Açores apareceu”, descrevem, por em-mail, ao SAPO Viagens.

Com alguns momentos de stress, devido ao cancelamento de voos e à possibilidade do encerramento do aeroporto de São Miguel, o casal conseguiu voltar para o continente na semana passada, estando agora numa #quarentenaquevaleapena.

“Gostamos sempre de pensar no lado positivo. Por brincadeira criamos o #quarentenaquevaleapena no Instagram, para motivar as pessoas a fazerem tudo aquilo que sempre quiseram mas nunca tiveram tempo (criar um blog, criar um negócio online, aprender uma nova skill, etc.) e partilharem com quem quiserem para inspirar mais pessoas a fazerem o mesmo e ficar em casa”, explicam.

“As viagens não acabaram, só estão em pausa. Imaginem que este é o nosso tempo para sermos a melhor versão de nós próprios sem desculpas. E depois poderão ir viajar orgulhosos do que atingiram e com novos hábitos saudáveis e aprendizagens”, acreditam os viajantes que, de momento, ainda têm uma viagem marcada para as Filipinas no dia 21 de abril. Por um lado, aguardam que sejam as próprias companhias aéreas a cancelar os voos, por outro lado, têm uma “pequena esperança” de que tudo isso passe até lá.

#viajarsemsairdosofa

“Felizmente, não tive que cancelar nenhuma viagem, pois quando estava prestes a fazer a reserva começou a falar-se do vírus no destino para qual eu ia, o Irão. Decidi aguardar, e ainda bem que o fiz”, conta-nos Mara Durán, responsável pelo projeto Boleias da Marta.

Habituada a estar “na estrada”, esta viajante está, agora, a aproveitar o tempo em casa para fazer aquilo que habitualmente não consegue quando está em viagem: “ler, editar fotos, vídeos, escrever”. “No Instagram tenho mostrado as minhas invenções diárias e motivo as pessoas a partilharem a sua quarentena usando o #viajarsemsairdosofa”, refere Marta, que também lançou uma série de entrevistas a outros viajantes em direto através do Instagram (todos os dias às 21h).

“Estamos todos no mesmo barco”, constata a viajante, deixando um conselho: “remarquem as viagens, não cancelem, acima de tudo pelo impacto económico que irá ter para as agências, países e famílias que dependem do turismo. Este acontecimento não foi o fim da viagem de sonho, foi apenas um adiamento”.

Já pensando no futuro, Marta não tem dúvidas que todos os viajantes vão tirar uma lição deste período: “acima de tudo, a lição do que é ser impossibilitado de sair de casa, da sorte em que (neste caso) tínhamos em ser livres de voar sem fronteiras e com saúde”.

A sonhar com um passeio na serra do Gerês

Com viagens em vista para o Irão e a Itália, dois dos países mais afetados pelo Covid-19, João Amorim, criador do projeto Follow the Sun Travel, soube que teria de abdicar destes planos. Ainda tem outras viagens em fila de espera, mas nada é certo neste momento. “Em maio os meus planos eram ir até ao Paquistão, mas, sinceramente, acho que não vai acontecer. Tenho voos marcados para a Islândia em Junho, Colômbia em Agosto, e por aí fora”, revela.

Ficar em casa e motivar os outros a fazerem o mesmo é, agora, a maior preocupação de João. “Todos juntos conseguimos parar isto, mas só se formos mesmo todos juntos. O futuro dirá que viagens aí vêm, mas por agora só penso no dia em que vou poder sair de casa outra vez, dar uma volta ao parque, ou ir até à serra do Gerês”, esclarece.

Num momento que é também de reflexão, João deixa uma mensagem de esperança. “Acredito que depois disto vamos todos valorizar tudo muito mais! Não só as viagens, a liberdade e possibilidade de conhecer outros lugares e culturas, mas também a nossa cidade, o nosso país. Somos uns privilegiados por vivermos numa sociedade e num país onde só nos sentimos presos em momentos como estes. Há que se sinta assim sempre. Nem consigo imaginar o que isso é. Espero que isto nos faça mais humanos e mais conscientes e que, no final, sejamos melhores pessoas”.

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