Uma ‘tinta escrita’ na nossa pele. E se eu lhe disser que pode fazer uma viagem à área Mesoamericana (países como México, Guatemala, Belize) sem sequer sair de casa? Ou seguir todas as pistas, todavia através de um corpo tatuado, o da Sara, por exemplo!

A Sara Lopes (@callme.saarah) tem 40% do corpo tatuado como um mapa mundo, mas não percetível ao olho incauto. Eu já vivi mais de 40 países. Assim vou fazer um artigo diferente e escrever colada ‘ao corpo dela’ e às minhas corridas pelo Mundo. Vou focar-me hoje em Guatemala, como ir ao melhor sítio de lá e começando por alguns dos segredos do mapa de Sara. Nos nós dos dedos a Sara vemos triângulos invertidos que contam a história Asteca (México) sobre a lei do pensar, falar e dizer. Falar e dizer são coisas distintas, podemos contar aqui uma série de coisas, mas não as dizer: ou seja, revelar.

A mandala nas mãos da Sara não é apenas da América Central como se sabe. Mandalas estão muito mais ligadas ao Oriente, sobretudo ao Budismo. Mas, também as encontramos em Jerusalém, na Índia e um pouco pelos lugares mais antigos do Mundo. Porquê? Porque significam unidade e transformação da energia. A meta das mandalas é difícil de atingir até pela meditação. A própria meditação é uma viagem que podem fazer todos os dias. Não é?

E reparem no pescoço e colo da Sara, que destino será? Destinos. Essas tatuagens conduzem-nos rapidamente numa viagem ao outro lado do Mundo: Oriente. Essas tatuagens são típicas da cultura Kalinga que esta está extremamente representada na Índia e noutras partes do atual subcontinente indiano (por exemplo, em Bangladesh), mas também nas Filipinas.

Quem já foi à Índia? Enviem-me mensagem sobre sensações de lá. Das Filipinas posso falar, pois são o paraíso de praias e uma turbulência visual maravilhosa. Para mim, as melhores praias do Mundo. A simplicidade a baloiçar de árvores e bungalows a pairar nas águas azuis e verdes. Nunca vi aquelas cores como ali. Seja qual for a praia a que vá. Eu vivenciei Boracay, com direito a tufão e tudo. Não tenham receio, mal se sentem ali. Aliás, faz parte do menu. O calor sempre de mão dada com nuvens e humidade 90%.

Boracay, Filipinas
Boracay créditos: Unsplash

Contudo, nas Filipinas há um profundo e curioso misticismo nas mulheres. Além da extrema pobreza e do sonho americano que os filipinos tentam, de muitas maneiras, alcançar. Também eles querem a sua viagem. As tatuagens da Sara explicam o seguinte: o sentido do feminino foi-se alterando com os tempos e de uma marcação de vergonha na pele da mulher antiga, então tornou-se outro o simbolismo: igualdade entre as mulheres (e poder).

Por exemplo, no Ocidente, especificamente na Guatemala ainda hoje as mulheres têm um poder respeitado pelos homens. É verdade que as notícias nos transmitem a desigualdade de género nesse país, mas já a civilização Maia, portanto não só a Kalinga, apresentava a mulher como um ser protegido e responsável pela maior bênção celestial: a geração da vida. Quando estive em Tikal, onde encontram o maior templo Maia do Mundo, eu ouvia o guia repetir constantemente esse significado. E agora reencontro-o na Sara. Quem mais conhecem que partilhe estas tatuagens? Interessante. E, não é bonito viajar e pensar no que as culturas foram escrevendo nas suas peles?

Viajar através de uma pessoa? Sim, claro, sobretudo se ela tiver o mapa tatuado
Viagem através do significado das tatuagens créditos: DR

E ligado com a força e empoderamento da mulher, a Sara apresenta um lobo numa das pernas. Além do poder, é a mulher na sua essência selvática. Selvático é mais que selvagem, é origem! Também aprendi isso enquanto me encantava entre árvores e templos de Tikal, Guatemala. O calor era imenso, a viagem de horas desde o Belize não ajudou, mas quando entram neste Património Mundial da Unesco… a corrida foi só um saltinho do corpo para o fundo da alma. Crescemos imenso a ver de perto e a subir os degraus de cada um dos templos, praças, casas e recintos de vilas Maias.

Lá não vão visitar um ou dois templos, visitam uma imensidão num só local. Um dia inteiro. Além disso deparam-se com animais exóticos que vos acompanham, não por carinho, mas porque querem comida. Não devem alimentar, pois o que lhes damos, por muito boa vontade que tenhamos, não prolonga as espécies que ali existem. Perceberam como só um local em Guatemala pode ter tudo: fauna exótica, flora indescritível (as árvores são de perder de vista… parecem nascidas no céu), templos intactos e histórias que nos cortam o poder das palavras.

Tikal, Guatemala
Tikal créditos: Unsplash

Nunca estive num espaço do Mundo em que tanto gostasse de estar calada! E olhem que sou muito faladora. Escutar, escutar. Uma das coisas que registei: esse poder das mulheres e as casas baixas construídas para o período específico de quando estavam grávidas. Ficavam ali, sozinhas, como sagradas. O topo dos templos com segredos ainda em mitificação: os sacrifícios aos deuses.

Outras teorias: aliens que instruíram os guatemaltecos a edificar cada templo e toda a arquitetura de Tikal. Algo muito importante: na altura não havia forma de fazer chegar aquelas pedras (inigualáveis no planeta) a Tikal. Não havia população sequer suficiente para a mão de obra ali necessária. Então há duas grandes teorias: os deuses e os aliens. Mas os guias ficam-se pela ajuda celestial.

Eu fui a turista afoita, única portuguesa no grupo, que perguntei pela teoria dos aliens e que já a ouvimos sobre a construção de pirâmides no Egito. É que em Guatemala… temos ali pirâmides igualmente! O guia desviou o assunto, insisti. Façam o mesmo quando lá forem, pois eles depois, à parte, falam convosco enquanto caminhamos quase assaltados pelos macacos que estão a subir connosco os templos. Há um outro templo e história de Guatemala que vos falarei noutra altura: o famoso templo onde se gravou uma cena essencial da saga Star Wars.

Templos em Tikal
Templos em Tikal créditos: Unsplash

Guatemala divide e luta com Belize por causa do poder patrimonial e não é um conflito que se note tranquilo quando passam a fronteira. Estejam de passaporte e dólares na mão para transporem fronteira e mudarem de carrinhas. Tenham as tours antecipadamente preparadas (são seguras e com ótimos automóveis, mas não esperem sempre boas estradas).

Os responsáveis pelo turismo de Guatemala não permitem que os guias do Belize atravessem a fronteira consigo. Cada um no seu lugar, literalmente separados por uma linha. Achei demasiado dividido, mas nem pensei mais nisso quando, na mesma linha, avisto uma enorme carrinha de reportagem da National Geographic. Éramos todos, afinal, contadores de histórias. E cheguei aqui, pelo SAPO Viagens, até vocês! Quando estive nessa fronteira não imaginava isto.

Bem, já tinha viajado horas de carro desde Placência (zona mais bonita de praias do Belize) até à fronteira. Depois mais duas horas e cheguei a Tikal. Pelo caminho veem procissões e muita pobreza. Muita, de facto. Mas têm uma grandeza agrícola de que se orgulham e contam repetidamente. O guia fazia questão de comparar (exaltando Guatemala) tudo com o Belize, ali ao lado. Ora parecia um jogo da Liga. Ah, e por falar em jogo, eles adoram Portugal porque é “Cristiano Ronaldo”. Não me parece que soubessem bem onde era pois disseram que a língua era igual. Eu não quis desfazer a coisa até porque a simpatia guatemalteca era-me necessária para explorar templos e me tirarem algumas das fotografias que aqui veem.

Tikal
Tikal créditos: Sandra Figueiredo

A ansiedade é grande durante a viagem, só o calor é extenuante. Tikal é um mapa de segredos, saí de lá com a sensação que julgo que deve ser a mais acertada: não se pode saber tudo dali. O cosmos está escrito como as tatuagens de Sara, mas não tem de ser tudo decifrado. Por exemplo algo agora me arrepia enquanto vos escrevo: no último templo que vi em Guatemala, dedicado ao estudo astronómico dos Maias, eu andava alienada do grupo a tocar nas pedras dali mas ia ouvindo atenta o guia. Algures na história sobre aquele local foi dito que o povo antigo tinha calculado o calendário de forma milenar e que 2020 teria uma dura praga. Sentiram o arrepio? Tudo está escrito ou tatuado.

E a cultura mesoamericana continua ainda, vejam, nas costas dela pois lá encontram as fases da lua. A civilização Maia organizava o seu calendário sob a influência lunar. Mas não só esta cultura, muitas outras. Sobretudo as da América Central. E, por outro lado, a serpente que tenta chegar-lhe ao ouvido. A serpente é para os Astecas e também os Maias símbolo de poder e nobreza. Embora a simbologia por vezes mude. Noutros países, como Grécia, a serpente estava associada à saúde. Para a Sara, serpente é um segredo naquele local do seu corpo. E qual é o segredo que vai querer desvendar na sua próxima viagem? Não queira desvendar tudo, é bom sentirmos que algo fica na caixa de Pandora.

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