Vais ver: uma torre muito alta - de que todos falam -, muitas pontes que atravessam um rio bonito e carrosséis dourados com cavalos de madeira.  Vais ouvir: música tocada em acordeões em ruas estreitinhas e vais - eu sei - parar para ouvir melhor e, quem sabe: dançar. Sabes Mia, os papás também já dançaram ao som dos músicos da margem desse rio, iluminados pela luz dessa torre e amanhã vamos poder mostrar-te tudo isso’.

Foram as últimas palavras que ela ouviu na última noite que dormimos em nossa casa.

Estamos em Paris, é aqui que situámos a nossa partida. Há precisamente seis anos, neste mesmo dia, estávamos a casar e fazíamos os nossos votos um ao outro, sem adivinharmos que hoje seria daqui que partiríamos - com a nossa filha nos braços – para uma volta por esse mundo.

Já quase enchemos uma mão ao contarmos as vezes que aqui (em Paris) estivemos, mas esta foi a primeira a três. Das outras vezes fomos namorados, fomos noivos, fomos marido e mulher, desta: somos família.

Tanto foi já dito sobre Paris. A Paris intelectual, a cultura que respira e que conta a sua história, os monumentos obrigatórios, os jardins, la bohème, la place Vendôme, les Champs Élysées; e Paris à la carte e la cuisine française; e Paris, a cidade da luz, a cidade do amor, How cliché! Não vos vou dizer o que visitar em Paris, nem onde comer… mas vou dizer-vos que esta visita a Paris foi diferente, vivida a um ritmo diferente, ela fez-nos parar em sítios onde já não pararíamos (por não os estarmos a ver pela primeira vez), mas fizemos questão de a levar e de lhe mostrar os nossos sítios preferidos, a nossa Paris.

No contraste entre as suas avenidas largas e simétricas e as ruelas estreitas e incertas: ganham-nos - a cada visita - as segundas, para nós muito mais carismáticas e, por isso, o nosso lugar preferido para ficar em Paris é Montmartre, sendo a praça dos artistas de passagem obrigatória. Desta, quando lá chegamos, vimo-la desvirtuada, montaram uma tenda gigante (uma creperie), de toldo azul, que rouba a possibilidade de viajarmos aos tempos em que ali pintavam, desenhavam, escreviam ou tocavam nomes grandes. Foi, assim, mais difícil cruzarmo-nos com Dalí, Picasso ou Modigliani, ouvirmos Porter ou conversamos com Hemingway: a nossa imaginação não nos terá levado tão longe quanto a de Woody Allen; mas para que precisamos de imaginação? Para quê imaginar quando podemos sentir, rir, provar, ouvir, beber e amar em Paris? Ficaram as melodias que atravessam estas ruas, esta praça, tocadas por instrumentos que tentamos adivinhar até conseguirmos ver os dedos e bocas de quem as toca.

Saímos no Trocadero, lá está a torre Eiffel - como nós sabíamos, como ela não podia saber – e, ao olhá-la pela primeira vez, ela disse: casa.

Casa. Poucas palavras me dizem tanto quanto tudo o que cabe na palavra casa (quando a faço minha). E parece que a Mia já sabe o seu verdadeiro significado: não o de paredes com teto, mas o de o lugar onde amamos e somos amados. Eu posso dormir em tantos lugares, mas não posso abraçar e encostar a cabeça em qualquer peito: é isso que sinto como casa. Eu posso sentar-me ao lado de tanta gente, em mesas fartas onde se trocam gargalhadas (e gosto tanto disto), conversas, mas tantas vezes é no silêncio, num olhar cúmplice, numa mão que se dá no escuro, numa lágrima que é limpa com a mão do outro, que vive a casa; é isso que sinto como casa. É aí que quero morar. Um sorriso de quem está deitado ao meu lado, logo ao amanhecer: é aí que quero morar. E por isso, também é esta a casa que lhe quero construir, onde as janelas e portas ficam abertas ao mundo e são maiores que as paredes.

Sim, Mia, espero que vejas uma casa em todos os lugares por onde passarmos e vou sempre entender que isso significa que sentes: o afago, o calor em que vives, o amor à tua volta. É esta a casa que te (nos) construímos, dia após dia. Por isso, quer voltemos daqui a uns meses, daqui a meio ano, daqui a um ano, será como se nunca tívessemos saído de casa.

Descemos as escadas, subimos ao carrossel - mais uma voltinha mais uma viagem -, descemos à margem direita do Sena e deixamo-nos demorar aí, e que privilégio o de amamentar enquanto divido o meu olhar entre a Mia e a torre.

Au revoir Paris, siga para Pequim.

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