Por Tiago Fidalgo, líder de viagens The Wanderlust e autor do blog O mundo na mão

Depois da aventura de dar a volta ao mundo à boleia com a minha mulher, quando me propuseram apresentar um país e dar a conhecer o que de melhor se pode encontrar numa viagem, escolhi o Uzbequistão sem grandes hesitações. Para quem procura uma experiência cultural relevante e consiga abdicar das redes internacionais de restaurantes e lojas, este é o destino indicado; até mesmo para aqueles que nunca conseguiram encontrar o Uzbequistão no mapa mundo.

1. Bonitas cidades históricas

Um daqueles países com as cidades mais bonitas que se podem visitar. É muito difícil alguém não se apaixonar por Samarkand (a número um na minha lista pessoal), Bukhara ou Khiva, todas estas cidades consideradas património mundial pela UNESCO. O ambiente, as construções, as ruas, as luzes, as pessoas e a vida de cada lugar faz-nos identificar com ele. E as interações entre o oriente e o ocidente resultaram numa brilhante mistura. Religiosos ou não, o património religioso do Uzbequistão é admirável e começamos aqui a falar das coloridas mesquitas, minaretes, mausoléus e madraças que nos acompanham ao longo de toda a viagem.

Khiva, cidade-museu
Khiva, cidade-museu créditos: O mundo na mão

2. Um reviver da Era Soviética

Após mais de um século de domínio dos Russos, ficou bem demarcada a época da União Soviética no país, em especial nas grandes cidades e muito particularmente na capital, Tashkent – devastada por um terramoto em 1966 e posteriormente reconstruída pela força do comunismo. Ao estilo do regime da altura, o que não se identificasse com os princípios do governo central foi fechado, destruído ou proibido e, por isso, muito outro património foi devastado sem que tenha sofrido com o terramoto. As grandes avenidas, as estações de metro, os grandes edifícios, como o Hotel Uzbekistan, ou os comboios estilo soviético são o reflexo deste fenómeno de russificação no país.

Comboios que nos transportam para o tempo da União Soviética
Comboios que nos transportam para o tempo da União Soviética créditos: O mundo na mão

3. Rota da seda concentrada

Para quem quer fazer a Rota da Seda, mas não têm tempo para completar todo o percurso, desde a Turquia até à China, o Uzbequistão oferece uma experiência muito interessante sobre esse trajeto comercial histórico, ao qual os Portugueses, guiados por Vasco da Gama, puseram termo no final do Século XV.

Bukhara era um dos grandes centros de comércio até ao séc. XV e uma cidades de enorme importância histórica e religiosa para o Islão; Samarkand, umas das cidades mais antigas e mais maravilhosas do mundo, capital de um império é mais um ponto de paragem da Rota da Seda onde se pode apreciar um incrível património religioso em tons de azul; Khiva é uma cidade museu onde o tempo volta atrás e conseguimos imaginar excursões europeias a chegar de camelo enquanto nos deslumbramos com minaretes, mesquitas, mausoléus e madraças indescritíveis, por entre as muralhas construídas no deserto.

4. Um lugar exótico

Dada a história da região, o Uzbequistão é um destino muito diverso, extremamente interessante e por permanecer desconhecido do público em geral, continua sem turistas.

As pessoas vestem-se de forma tradicional e muito colorida, conseguem ouvir-se na mesma cidade pessoas a falar 3 línguas entre si, dependendo se a sua origem é uzbeque, tajique ou russa. Existem lugares muito bem preservados culturalmente, mas também existem lugares muito cosmopolitas e com um ambiente mais ocidental – como é o caso da capital, Tashkent. Esta consegue congregar várias línguas, crenças e culturas, enquanto preserva o passado nas ruas e nos mercados, perpendiculares às grandes e modernas avenidas.

Um país especial
Um país especial créditos: O mundo na mão

Esta é a altura certa de viver todas estas experiências, a altura em que o Uzbequistão, tal como os outros “Stans” da região, se solta das amarras russas e dá passos largos na transição entre a URSS, as crenças dos povos (Uzbeques, Tajiques, Turcomanos, Quirguizes, Cazaques) e a globalização.

5. Uma mistura de sabores

Nem só do prato regional – Plov – é feita a cozinha Uzbeque, encontrada em vários lugares do mundo. Viajar é também experimentar novos sabores e sabores antigos cozinhados de outra forma. Dos amantes de carne aos vegetarianos, há opções para todos os gostos. Além do referido Plov (arroz frito com carne e vegetais), existem também Somsa (pastel recheado), Lagman (noodles), Shurpa (sopa com carne cozida), Shashlik (kebab) e os vários tipos de queijo com diferentes formas, cores e sabores. Para os vegetarianos, há formas alternativas de cozinhar estas iguarias sem a carne como o caso do Plov ou optar por uma Somsa de vegetais, mas também há originais como é o caso do pão Non, da típica de salada Achichuk, as doces melancias de que tanto se orgulham, as beringelas assadas, os frutos secos e os variados doces acompanhados com o chá de que tanto gostam. A vodka, o leite de camelo e o Kefir são também muito apreciados.

Nos mercados vende-se de tudo
Nos mercados vende-se de tudo créditos: O mundo na mão

6. Respira-se arte

No Uzbequistão encontram-se algumas das maiores obras da arquitetura islâmica no mundo, e é em tons de azul, do azul-turquesa ao marinho, que se apresentam os azulejos que cobrem o património arquitetónico do país.

Dos mercados aos museus, das pinturas à seda, da cerâmica aos tapetes: será difícil esquecer todas estas coloridas lembranças.

Um dos mais icónicos museus do país, e do mundo, é o Museu Savietsky (Karakalpakstan State Museum of Art), com tanto de espetacular como de controverso. Este museu está localizado em Nukus, na região autónoma do Karakalpakstan, uma área claramente afastada dos modestos holofotes do turismo no país. Este museu é uma compilação do espólio de artistas Uzbeques que viram as suas obras proibidas e destruídas nos anos 30 por não estarem de acordo com a arte Socialista Realista preconizada pelo regime soviético.

Detalhe artístico de uma mesquita
Detalhe artístico de uma mesquita créditos: O mundo na mão

Savietsky nasceu na Ucrânia, mas era apaixonado pela região. Assim, decidiu colecionar desde obras proibidas a artefactos locais, o que mais tarde deu origem ao museu que representa os distintos artesãos da Ásia Central e, acima de tudo, o sucesso da arte da resistência perante a repressão política. É o segundo maior e mais importante museu de coleções de obras de vanguarda russa e a melhor coleção de obras de arte da Ásia Central.

7. Conhecer uma ditadura por dentro

Por esta altura já suspeitamos que o Uzbequistão tem pouco de democrático e que o legado deixado pela Sovétsky Soyúz (União Soviética) é grande e a vários níveis. A política não é exceção.

À semelhança de outras ex-repúblicas soviéticas, desde a independência em 1991, só foi eleito um segundo presidente após a morte do primeiro chefe de estado, Islam Karimov. Apesar de existir um culto da personalidade ao presidente, o herói nacional é Amir Timur, o líder Uzbeque que construiu um poderoso império no século no final do Século XIV.

A presença frequente de agentes policiais, a existência de postes de controlo nas estradas e nas cidades, os registos de dormidas, ou a proibição de entrar no país com a Bíblia, são sinais de que a noção de liberdade é diferente daquilo a que estamos habituados na Europa, particularmente em Portugal.

Uma nota pessoal sobre esta questão: liberdade e segurança são conceitos muito difíceis de conciliar e a população local reconhece que apesar de não poderem falar contra o seu presidente, podem sair à rua sem temer o crime. Os mais conservadores revelam que uma tentativa de democratizar o país poderia colocá-lo ao nível do vizinho Afeganistão. São diferentes perspetivas que, sobretudo em viagem, têm de ser piedosamente respeitadas.

8. Natureza fantástica

Fora das cidades, o país tem para oferecer paisagens de rios, lagos, florestas, desertos e montanhas, sendo uma boa oportunidade para passar tempo na natureza e desfrutar das caminhadas, do campismo ou até dos desportos de neve.

Outra das atracões naturais do país tem uma história muito pouco natural e, acima de tudo, triste. Falamos do mar Aral, ou o que resta dele. É possível visitar um cemitério de barcos em Mojnak, que com a drenagem da água do mar acabaram por enferrujar ancorados na areia. Nos tempos da União Soviética, os recursos naturais desta zona foram explorados desmedidamente e o encolher do mar Aral foi uma das consequências dessa exploração na produção de algodão. Hoje o mar Aral está reduzido a cerca de 5% da área original daquele que fora o quarto maior lago do mundo.

Embarcação esquecida depois do desastre do Mar Aral
Embarcação esquecida depois do desastre do Mar Aral créditos: O mundo na mão

Com um sem fim de atracões históricas, naturais e culturais, esta é uma experiência incrível que pode ser aproveitada sem o ar comercial dos destinos mais turísticos e artificiais. Está na altura certa de conhecer e viver de perto a realidade de uma das regiões mais misteriosa e das mais preservadas do mundo.

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