Estacionado perto da Catedral de Havana, próximo de outros trinta automóveis clássicos americanos dos anos 50 - uma marca registada da capital cubana -, o veículo de Esteban não é o único sem clientes.

"Estão aqui parados, como vêem, todos estes veículos, que (...) num dia normal a maioria estaria a trabalhar", explica o motorista de 37 anos, salientando que tem sido assim há "vários dias".

Dezenas de colegas conversam sentados num banco ou tentam atrair turistas: "Um táxi, princesas?", diz um deles a duas mulheres que passam.

Esteban Estrada aproveitou o boom turístico gerado pela aproximação entre Cuba e Estados Unidos no final de 2014 para deixar o seu trabalho de taxista. Durante cinco anos dedicou-se a passear com os turistas na sua relíquia vermelha e branca pelos locais mais emblemáticos da cidade: a costa do Malecón, a Praça da Revolução, o Capitólio.

Entretanto, a "reconciliação" entre os dois países foi interrompida com a chegada de Donald Trump à Casa Branca, multiplicando as sanções contra a ilha socialista. O alvo mais recente de Trump foram os cruzeiros americanos, que não podem mais viajar para Cuba, como faziam desde 2016.

"Não há plano B"

No dia 5 de junho, alguns motoristas destas antiguidades despediram-se em Malecón do último cruzeiro americano, conscientes que aquele cruzeiro levaria as suas principais fontes de receita.

Para o Estado, a proibição significa menos receitas por atraque e para os cubanos que vivem do turismo, a perda de uma clientela generosa.

"Normalmente, o turismo europeu vem na época de inverno, portanto, o que nos mantinha a trabalhar era o turismo americano, o turismo de cruzeiro", comenta Estrada.

Os americanos ainda podem viajar para a ilha de avião, mas a grande maioria fazia-o por mar.

Perto de Estrada, Héctor, que dirige um Chevrolet rosa dos anos 1950, prefere omitir o seu sobrenome. Afirma que no dia anterior não teve nenhum cliente. "Vou dar mais um mês, um mês e meio, e se continuar assim, devolvo a minha licença", afirmou decidido.

Héctor recorda os tempos em que, antes mesmo de começar o dia de trabalho, uma agência de viagens telefonava para si para reservar um tour de duas ou três horas pela cidade. Agora Héctor precisa de "caçar" os turistas, e os seus custos não diminuíram: entre licença, estacionamento, gasolina e seguro, Héctor calcula aproximadamente 30 dólares diários.

"O governo tem de fazer algo", afirma Héctor.

Alguns dos seus colegas dizem que as autoridades cubanas, surpreendidas pelas sanções, "não têm plano B".

Os generosos turistas americanos

Mesmo o restaurante privado San Cristóbal, que ficou famoso quando Barack Obama jantou lá com a sua família em 2016, padece com a falta de turistas: "Agora mesmo o restaurante está com 20% (da sua capacidade). Ontem, se entraram seis mesas foi muito", lamenta o proprietário, Carlos Cristóbal Márquez, de 55 anos.

"Temos regredido com todas as medidas que o presidente Trump está a tomar", critica.

Yoel Montano, de 44 anos, também apostou numa avalanche de turistas americanos. Há dois anos deixou o seu emprego num campo de tabaco para trabalhar na capital. O seu carro também está parado à sombra de uma árvore.

"Quando os cruzeiros entraram, todo o país tinha vida, vinha muito turismo". Hoje, "as praças estão vazias", é "muito triste", diz Montano.

Trump "acabou com Cuba, é um louco", opina. Para Montano, "o melhor turismo é o americano". "Eles portam-se muito bem, são amistosos".

"Os turistas americanos dão boa gorjeta e isso faz com que os nossos trabalhadores se esforcem mais", diz Eddy Basulto, de 42 anos e proprietário da cafetaria "Al Pirata", localizada numa das movimentadas esquinas de Havana Velha.

A pensar nos americanos, Eddy especializou-se em "comida saudável", com muitos vegetais e frutas no cardápio. Mas com a partida do último navio, afirma que o seu negócio "perdeu cerca de 60% das vendas".

"Essa manhã eu só vendi dois pequenos-almoço". Na época dos cruzeiros, conseguia ter "três vezes as mesas cheias com pequeno-almoço e começava o dia com uma energia espetacular".

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