Bilhete-postal enviado por Catarina Silva

Entrámos em Portugal pelo Algarve, o Alentejo separava-me de Lisboa e eu não podia estar mais feliz. Estávamos em pleno mês de Agosto, o carro deslizava por entre as paisagens alentejanas e o volume dos risos e das conversas sobrepunha-se à música. Os vidros abertos deixavam entrar a brisa de fim de tarde que acariciava suavemente a nossa pele e fazia esvoaçar os nossos cabelos, o que reforçava a sensação de liberdade que se vinha a acumular desde a nossa partida. Nunca o Alentejo me pareceu tão belo como nesse dia, o que me assegura de que as viagens nos dão asas, enquanto criam raízes.

Despida de responsabilidades, a nossa alma estava em condições de potenciar qualquer experiência e as nossas sensações pediam por ser saciadas. Naquele dia encontrávamo-nos em perfeita comunhão connosco e com o mundo, e estávamos prontas para chegar á nossa cidade para relatar a nossa experiência aos amigos e descansar, para que cada pormenor daquela longa jornada fosse absorvido. Era assim que eu me sentia quando o meu país me decidiu dar as boas vindas, presenteando-me com um pôr-do-sol de cortar a respiração. Encostei o carro e as conversas cessaram, é em Portugal que o sol se deita e aquele momento merecia ser contemplado na sua plenitude. O céu pintou-se para nós, pelo menos era nisso que acreditávamos.

Depois de escurecer, retomámos a viagem, cansadas e com os olhos cheios de tanta vida, decidimos que o melhor seria passar a noite numa vila perto do sítio onde nos encontrávamos. A primeira paragem foi Monsaraz, mas todos os sítios onde poderíamos passar a noite estavam cheios. Parámos para delinear uma estratégia nas muralhas do castelo. Para além do som de um a guitarra ao longe, não se ouvia mais nada, ninguém andava na rua. Apenas a música prosseguia sem parar, a um ritmo cadenciado, a roçar o monocórdico enquanto pensávamos no próximo destino. A noite estava demasiado bonita para nos preocuparmos em excesso.

Passados alguns minutos, uma mulher surgiu por entre as sombras que a lua projetava. Depois de a questionarmos, informo-nos, com um sorriso amável, que estava a decorrer uma festa no Redondo e que todas as localidades do Alentejo estavam praticamente sobrelotadas. Era neste momento meia-noite, a Maria fazia anos e ainda não tínhamos jantado. A senhora, de nome Margarida, convidou-nos para irmos até casa dela depois de ouvir a nossa história, iria fazer-nos umas sandes para prosseguirmos viagem. Acabámos por ficar a falar com ela pela noite dentro, sob uma abóbada celeste sublime no terraço de sua casa. Houve uma chuva de estrelas nessa noite e eu desejei nunca perder o que corria dentro de mim nesse momento; a felicidade exacerbante por estar viva.

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