Cheguei de comboio, vinda do Porto. Segui pela rua que conduz ao centro até chegar ao que resta da muralha que outrora protegeu a cidade e, rapidamente, me deparei com a icónica inscrição “Aqui Nasceu Portugal”. Não pude deixar de sorrir. Lugares assim emocionam-me, juntam o passado ao presente e fazem-me sentir que estou muito perto da História.

Instalei-me na Casa do Juncal, um alojamento maravilhoso em pleno centro histórico, e depois saí para explorar a cidade.

Dia 1: Do castelo a um restaurante com estrela Michelin

Comecei no Largo do Toural, uma das principais praças de Guimarães. Existe desde o século XVII, altura em que era um largo extramuros junto à principal porta da vila. Era aqui que se realizava a feira de gado bovino e outras feiras onde se vendiam produtos diversos. Os prédios que hoje vemos foram construídos mais tarde seguindo uma planta, que, segundo dizem, veio de Lisboa. No Largo chama a atenção a pequena Basílica de São Pedro, que tem uma fachada simples, mas que no interior guarda um bonito retábulo decorado em tons de azul e talha dourada.

Largo do Toural
créditos: Travellight

Continuei pela Rua de Santo António até a Rua General Humberto Delgado e virei à direita até entrar no Caminho do Castelo.

O Castelo de Guimarães é o maior símbolo da cidade e a sua maior atração. Foi construído durante o século X e sofreu inúmeras modificações ao longo dos tempos, mas é mais conhecido por ter visto nascer o primeiro rei de Portugal - Dom Afonso Henriques - que daqui partiu para a reconquista das terras que estavam nas mãos dos mouros.

A história do castelo remonta à Condessa Mumadona Dias, que, após ter ficado viúva, mandou construir na sua herdade de Vimaranes - hoje Guimarães - um mosteiro. Os constantes ataques por parte dos mouros e normandos levou à necessidade de construir uma fortaleza para guardar e defender os monges e a comunidade cristã que vivia em seu redor. Surgiu assim o primitivo Castelo de Guimarães.

Castelo de Guimarães
créditos: Travellight

No século XII, vêm viver para Guimarães o Conde D.Henrique e D.Teresa que mandam realizar grandes obras no castelo de forma a ampliá-lo e torná-lo mais forte. É neste período que nasce Dom Afonso Henriques.

Entre os séculos XIII e XV, vários reis contribuíram com obras de melhoramento e restauro deste castelo ligado a façanhas heroicas do período da fundação da nacionalidade, como é o caso da Batalha de S. Mamede. Mais tarde porém, perdida a sua função defensiva, o castelo entrou num processo de abandono e degradação progressiva até ao século XX, altura em que é declarado Monumento Nacional e são efetuadas obras de restauro.

Próximo do castelo fica a Igreja de São Miguel, pequenina e quase vazia, salvo por um Cristo crucificado e uma pia batismal onde - diz a tradição popular - D. Afonso Henriques foi batizado (apesar da data da construção da igreja, mais de um século depois do nascimento do primeiro Rei de Portugal, refutar esta ideia).

Igreja de São Miguel
créditos: Travellight

Não muito longe encontramos o Paço dos Duques, outro belo e interessante edifício que hoje abriga um museu. Vale a pena visitar.

Concluída a visita ao Paço, voltei para o centro histórico e decidi parar para almoçar. As opções eram muitas e as esplanadas convidativas. Acabei por ficar no Largo da Misericórdia.

Terminada a refeição, excelente por sinal (porque se come muito bem em Guimarães), voltei a minha atenção para os monumentos que embelezam o Largo: uma igreja com fachada maneirista; uma fonte de granito do século XVIII e uma escultura original que representa o primeiro rei de Portugal.

Perdida pelas bonitas ruas de Guimarães, fui parar ao Largo Doutor João da Mota Prego onde encontrei a Casa das Rótulas - um edifício erigido possivelmente na primeira metade do século XVII, que chama a atenção pela fachada do seu piso superior ser revestida, na sua totalidade, por rótulas de madeira (tiras compridas e estreitas de madeira colocada no vão de janelas ou portas para proteger da luz e do calor, e através da qual se pode ver sem ser visto).

Casa das Rótulas
créditos: Travellight

Continuando a andar, chego até ao Largo dos Laranjais, que deve o seu nome às laranjeiras que ainda hoje ocupam o seu lugar e recordam a influencia árabe na Península Ibérica. O solar barroco do século XIV, designado por Casa dos Laranjais, merece uma atenção especial. Tem portas em estilo manuelino e uma torre com uma gárgula em forma de leão.

A próxima paragem é na Travessa da Senhora Aninhas - uma homenagem da cidade a Ana Joaquina de Magalhães Aguiar, que viveu entre os séculos XIX e XX e que todos consideram a Madrinha dos Estudantes. Diz a tradição popular que Aninhas era uma senhora com um coração generoso, que “adotou” os estudantes de Guimarães, dando aconchego e comida aos mais necessitados.

Rua de Santa Maria
créditos: Travellight

Ela vivia perto da Travessa que agora leva o seu nome, na Rua de Santa Maria, uma das ruas mais antigas e bonitas de Guimarães. Tem origem medieval e ligava a antiga Vila de Baixo à antiga Vila de Cima. Já foi escura e suja, mas com o tempo transformou-se e começou a atrair moradores ilustres. Algumas lojas e lugares, como a Casa do Arco, um solar do século XIII, que, dizem, chegou a hospedar Dom Miguel, irmão de Pedro I, ocupam atualmente os bem conservados edifícios da rua.

Tive de parar na Casa Costinhas, uma confeitaria tradicional, que fica nesta rua, para provar o toucinho do céu e as tortas de Guimarães. Os doces conventuais deste espaço são os mais famosos e tradicionais da cidade e, quando os provas, entendes logo porquê.

Casa Costinhas
créditos: Casa Costinhas

O Largo Cónego José Maria Gomes ou Largo da Câmara é mais um dos largos onde vale a pena perder (ou ganhar) uns minutos. Abriga dois edifícios lindos: a Biblioteca Municipal Raul Brandão e a Câmara de Guimarães, construções dos séculos XIX e XVI, respetivamente.

Segue-se a bonita Praça de Santiago, mais um lugar cheio de história. Diz a lenda que em tempos idos o próprio São Tiago trouxe para Guimarães uma imagem da Virgem Maria e colocou-a num templo pagão que existia nesta praça.

A cidade, então, resolveu construir uma capela em homenagem ao santo. A dita capela já não existe, mas ainda é possível ver no chão o local que ela ocupava e o símbolo de São Tiago - uma concha.

Terminei o primeiro dia de visita a Guimarães em grande, com um jantar memorável no primeiro restaurante da cidade a receber uma estrela Michelin: "A Cozinha, por António Loureiro", que fica no Largo do Serralho (perto do Largo da Misericórdia).

Dia 2: Do Largo da Oliveira ao Centro Cultural Vila Flor

O Largo da Oliveira foi o local que escolhi para começar o passeio no segundo dia. É talvez a praça mais simbólica da cidade e atualmente está cheia de esplanadas, bares e restaurantes, mas como tantos lugares de Guimarães, guarda muitas lendas e histórias.

Largo da Oliveira
créditos: Travellight

Uma das mais conhecidas é aquela que conta o milagre da oliveira. Diz o povo que, certo dia, a oliveira, que dá o nome ao largo, perdeu todas as suas folhas e murchou. O azeite produzido pelas azeitonas desta oliveira era usado para iluminar a imagem de Santa Maria de Guimarães, pelo que a árvore tinha uma grande importância para a cidade. Tentando salvar a árvore, Pero Esteves, um comerciante vimaranense, decidiu colocar por baixo do Padrão do Salado (símbolo da vitória portuguesa sobre os muçulmanos) uma cruz. As suas preces foram atendidas e a dita oliveira voltou à vida, continuando no centro da praça até hoje.

Outro ponto de interesse deste local é a Igreja da Oliveira, que data do século X, ou seja, do início dos tempos de Guimarães. Foi reedificada no século XIV por D. João I em agradecimento a Nossa Senhora pela vitória na batalha de Aljubarrota. A torre, que pela sua altura se sobrepõe ao casario circundante, prende o nosso olhar. Tem detalhes manuelinos e um relógio. Ao seu lado encontra-se a capela de São Nicolau, o santo protetor dos estudantes e, um pouco mais à frente, o Paço do Conselho, um edifício com belos arcos e janelas e uma curiosa escultura no topo - um guerreiro de duas caras a quem os vimaranenses chamam de "o Guimarães".

Igreja da Oliveira
créditos: Travellight

Saíndo do Largo da Oliveira, segui depois para o Parque das Hortas e apanhei o teleférico para o Monte da Penha, que oferece panoramas de tirar o fôlego da cidade velha de Guimarães e do castelo. Também tem uma igreja e bonitos percursos pedestres por onde podemos caminhar e apreciar as vistas, as formações graníticas, os penedos, grutas e desfiladeiros deste miradouro natural.

De regresso ao centro histórico, visitei o Museu de Alberto Sampaio, uma paragem obrigatória para quem quer conhecer melhor o passado de Guimarães. Fica localizado no lugar onde Mumadona Dias mandou construir o mosteiro que depois deu origem à Antiga Vila de Baixo. O museu abriga uma coleção de arte sacra oriunda das igrejas da cidade e arredores.

De frente para o Museu está a belíssima Igreja de Nossa Senhora da Consolação e Santos Passos. Edificada no século XVI, é uma igreja pequena, mas com o seu jardim consegue dominar a paisagem e é um dos cartões postais da cidade.

O meu tempo em Guimarães estava a terminar, mas no regresso para a estação ferroviária, parei ainda no Centro Cultural Vila Flor. Um palácio, mandado construir por um fidalgo no século XVIII, que possui belos jardins e já serviu diversos fins até ser finalmente designado como centro cultural e restaurado, passando a integrar um novo edifício para teatro, de grandes dimensões, que se conjuga perfeitamente com o palácio oitocentistade de estilo barroco.

Foi uma visita rápida, que soube a pouco, mas que me deixou um sabor muito doce (e não, não me refiro apenas às tortas e ao toucinho do céu). Já não visitava Guimarães há muitos anos e foi um enorme prazer reencontrar uma cidade tão bonita, tão cheia de História e tão jovem ao mesmo tempo.

E vocês? Há quanto tempo não visitam o berço de Portugal?

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