O enorme parque arqueológico de Petra é património da UNESCO desde 1985 e ganhou fama aos olhos do mundo com o filme de 1989, que o catapultou para o imaginário de todos nós. As paredes do Siq, altas, robustas e de pedra vermelha, são em si próprias dignas de admiração, apresentando alguns vestígios de altares esculpidos e possuindo na sua base dois canais regularmente escavados que acompanham o trajeto do canyon e permitiam assim a canalização da água.

É com alguma expectativa que dou os passos finais em direção ao monumento. Tenho por hábito, nos momentos que antecedem ver algo de magnífico, levar os olhos para baixo até ao final — quero guardar a experiência ao máximo, levá-la ao limite e absorver tudo de uma vez. Desta vez, porém, o resultado foi diferente. O Mosteiro lá se encontra, majestoso, imponente, cravado na pedra, mas a realidade em seu redor foi, pelo menos no meu caso, desencorajadora. Encontrei um espaço confuso, lotado, e a cada 30 segundos sou abordada por um local que tenta vender um postal, um lenço, uma volta de burro ou camelo ou ainda a promessa de uma fotografia mais “instagramável” num ponto mais elevado do rochedo. Muito rapidamente, sem perceber como, uma acesa discussão instala-se por entre alguns vendedores crescendo rapidamente para agressões físicas enquanto pedras voam em várias direções sob os olhos tranquilos da polícia local. E ali soube que a minha experiência de Petra nunca mais poderia ficar “limpa” ou dissociada do que tinha acabado de assistir.

Fugindo da confusão, sem tempo para contemplações, prosseguimos caminho por outros pontos emblemáticos. Fundada pelos Nabateus durante o seu período áureo, entre 300 a.C e d.C, Petra ganhou relevância por integrar de forma estratégica a rota mercantil do incenso, mirra e especiarias entre o Crescente Fértil e o Egito. Os seus tempos áureos mantiveram-se até cerca de 363 d.C, altura em que um terramoto destruiu grande parte da cidade, e decaiu nos anos seguintes com a mudança das rotas atrás mencionadas, ficando entregue aos povos beduínos e só sendo novamente “redescoberta” pelo mundo em 1812. Hoje em dia preserva duas estruturas em melhor estado de conservação - o Tesouro e o Mosteiro -, albergando ainda dezenas de outros edifícios incluindo um grande anfiteatro, ruínas de uma cidade romana (fruto da anexação pelo Império Romano), caves e zonas para atividades religiosas específicas.

À descoberta dos tesouros de Petra: uma experiência agridoce
créditos: Andreia Castro

Um bom par de ténis é acessório essencial para quem planeia visitar Petra, assim como ser portador de boa capacidade física — alguns dos pontos mais altos, como o Altar do Sacrifício ou o Mosteiro, encontram-se distantes e no topo de enormes escadarias gravadas na pedra, nunca demorando menos do que uma hora em passo normal para alcançar o topo. Seja nos pontos mais ao nível do solo ou nos restantes, o complexo não está preparado para pessoas com mobilidade reduzida. Tendo adquirido previamente o Jordan Pass pela internet (bilhete que inclui o acesso a Jerash, ao Castelo de Kerak e a Wadi Rum, por exemplo, com valores a variar entre 90€ e 105€), a nossa visita é assim distribuída por dois dias, por forma a conhecermos o complexo sem pressas. Assim, o primeiro dia é dedicado ao Tesouro (ou Al Khazna, com 40m de altura), ao Altar do Sacrifício (um local de rituais sagrados no topo da montanha) e ao trilho que nos leva por antigos templos até ao Grande Templo da Cidade Romana (ocupando uma área de 7 mil Km2), enquanto que no segundo faço o percurso principal que passa pelo Anfiteatro com capacidade para cerca de 4000 pessoas (o único no mundo escavado em plena rocha), pela enorme avenida de colunas, pelas enormes fachadas das 4 Tumbas Reais e que termina em Ad Deir (ou Mosteiro), com 48.3m de altura por 47 metros de largura.

Despedimo-nos de Petra com o espetáculo Petra by Night, que ocorre à segunda, quarta e quinta-feira e tem o custo de 21 euros. Dezenas (centenas?) de velas conduzem os visitantes ao longo dos cerca de 1.2 quilómetros do Canyon à praça do Tesouro, para um momento intimista de som e luz. Com início pelas 20.30h, os turistas sentam-se discretamente de pernas cruzadas frente ao Tesouro à medida que vão chegando, enquanto lhes é oferecido um chá de menta pela organização. O silêncio é geral, em verdadeira contemplação do monumento unicamente iluminado por várias linhas irregulares de velas. A confusão do dia foi-se, e quase como que a redimir-se, sentimos finalmente o deslumbramento prometido. O som proveniente de espécie de gaita-de-foles ouve-se de uma das extremidades, intercalado pelo contar de histórias; no final, os focos luminosos acendem-se, dando ao Tesouro cores que variam entre o azul, o vermelho, o roxo e o verde. Não há projeções audiovisuais que permitam compreender como seria o edifício na sua origem ou reconstituições de época. Tão depressa quanto começou o espetáculo termina, com as pessoas a levantarem-se para tirarem as suas fotografias, projectando sombras sobre a estrutura. Saio de Petra com uma sensação agridoce, e até o espetáculo - que atingiu este ano 1 milhão de visitantes - merecia ser (muito) mais.

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