"Foi uma calamidade", disse Matthew Yemma, especialista em comunicação de crise da Peaks Strategies, com sede em Connecticut (leste), resumindo um sentimento geral.

"Horrível" e "chocante" foram outras palavras utilizadas por especialistas da indústria entrevistados pela AFP sobre a gestão da Boeing do acidente do 737 MAX 8 da Ethiopian Airlines.

O avião caiu no dia 10 de março, no sudeste de Addis Ababa. Morreram 157 pessoas.

Este é o segundo acidente mortal em cinco meses a envolver este modelo, que entrou em serviço em maio de 2017. Um 737 MAX 8 da companhia aérea indonésia Lion Air caiu em outubro. Morreram 189 pessoas.

As investigações continuam, mas as investigações iniciais relativas à Lion Air apontam para um mau funcionamento do sistema de estabilização de voo, o "MCAS".

A Boeing limitou-se a emitir um breve comunicado após o acidente da Ethiopian e que foi sendo atualizado uma vez por dia.

Nos bastidores, a fabricante de aviões tentava impedir que as autoridades americanas proibissem o voo destes aparelhos, tal como fez a China e vários países europeus imediatamente após a tragédia.

Para impedir a suspensão do voo dos aparelhos da empresa, o CEO da empresa, Dennis Muilenburg telefonou ao presidente Donald Trump para defender o 737 MAX e garantir que o modelo é seguro.

A Agência americana da Aviação (FAA) finalmente proibiu "provisoriamente" na quarta-feira o voo dos Boeing 737 MAX 8 e 9 nos Estados Unidos.

"Arrogância"

"É a arrogância americana", disse à AFP uma fonte próxima à fabricante de aeronaves, acrescentando que "essa arrogância é perigosa porque mostra que o trabalho não foi feito corretamente pelo excesso de confiança".

Como esta fonte, os especialistas lamentam que a fabricante aeronáutica não tenha assumido a liderança, um grande erro, segundo os mesmos, na era das redes sociais e da transparência.

Neste tipo de situação, "tem de ser dado o máximo de informação possível", diz Matthew Yemma.

"O mercado de ações e os investidores precisam saber se há algo errado e se isso será resolvido", diz ele, argumentando que a Boeing deveria ter tomado a iniciativa de manter no chão o 737 MAX, desde segunda-feira.

Embora reconheça que a decisão de proibir o voo de um avião cabe às autoridades, Michael Priem considera que a Boeing poderia pelo menos ter aplicado o princípio da precaução para tranquilizar o público em geral.

"Foi o grande silêncio que enfureceu as pessoas (...) Vivemos num mundo moderno onde esperamos um certo nível de transparência e respostas muito rapidamente", acrescenta o especialista em comunicação de crise na Modern Impact em Minneapolis (norte).

Para Richard Aboulafia, do Teal Group, a Boeing só poderia enviar técnicos para o local da tragédia e continuar a procurar respostas sobre o que falhou.

Richard salienta, no entanto, que a resistência das autoridades americanas em parar a aeronave levanta questões sobre o relacionamento da Boeing com a FAA.

O Comité de Transportes e Infraestruturas da Câmara dos Representantes ouviu na manhã de quinta-feira autoridades do organismo regulador aéreo e planeia abrir uma investigação sobre a certificação do 737 MAX, segundo indicou à AFP uma fonte parlamentar.

Para além dos possíveis processos movidos pelas famílias das vítimas, outra consequência do silêncio da Boeing é os passageiros levantarem questões sobre os aviões em que embarcam, o que poderia estender a sua desconfiança do 737 MAX para outros modelos da Boeing.

Uma campanha maciça nos media a exaltar a segurança dos aviões da Boieng poderia, por exemplo, ser um dos primeiros passos a empresa recuperar a confiança do público, segundo Matthew Yemma, concluindo que a Boeing poderia tomar como exemplo o ocaso da BP após a maré negra de 2010 no Golfo do México.

Mas provavelmente não será suficiente, segundo uma fonte próxima à fabricante de aviões: "Será necessário que a Boeing faça um verdadeiro trabalho de mea culpa, de explicação, porque o estrago está feito".

AFP

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