Desde que visitei a cidade do Porto para o meu trabalho no guia fotográfico da gastronomia de Portugal tornei-me um grande fã da sua gastronomia. Baseada em pequenos estabelecimentos, alguns dos quais com mais de um século, esta cidade tem-se tornado um farol gastronómico na Europa.

A verdade é que estes lugares não são, de forma alguma, sofisticados. São frequentados por todas as classes sociais - é normal ver em alguns destes pequenos espaços um bancário a almoçar lado o lado com um carteiro.

Quando conheci o André Apolinário, um dos guias do Taste Porto Food Tours, adorei o seu modo nortenho de ser, a sua forte pronúncia, a forma entusiasta como nos contou a história de cada prato e como ele tratava cada dono dos estabelecimentos pelo primeiro nome. Não se engane, o André gosta tanto do seu trabalho como do cenário gastronómico do Porto, por isso, prepare-se para imergir na revolução gastronómica que está a acontecer nesta cidade.

"Sou um apaixonado pela gastronomia portuguesa. Elaborar uma lista dos 10 restaurantes e tascas do Porto é das coisas mais difíceis que tive de fazer. Não porque me faltem escolhas, mas porque poderia facilmente escolher 50 restaurantes e estaria ainda a deixar de parte alguns... Por isso, encarei isto como encaro as minhas visitas: tentei seleccionar os sítios mais fora do alcance das rotas turísticas e dos sítios mais conhecidos da cidade", disse André Apolinário.

Deixamos aqui o nosso top 10 dos melhores locais para comer no Porto.

Flor dos Congregados

Travessa dos Congregados 11, +352 22 2002822

Sandes na Travessa dos Congregados
créditos: Nelson Carvalheiro

Este restaurante com 162 anos foi um dos primeiros a existir na baixa portuense e ainda é gerido pela mesma família, a Dourado. Aqui pode experimentar uma das sanduíches mais saborosas do Porto: a Terylene. Trata-se uma sanduíche dupla com lombo de carne guisada e presunto defumado, e que leva mais de 24 horas a ser preparada. Sim, leu bem, mais de um dia! O lombo de porco é marinado em vinho, alho, cebolas, tomates, alecrim, oregãos, malaguetas e leva um toque de magia que dura mais de 20 horas. A seguir é assado num forno de lenha durante mais de 3 horas... No final é servido numa sanduíche dupla, com o lombo de porco na base e o presunto defumado por cima. É a versão portuense de comida lenta (slow food). Acompanhe com um copo de vinho da Bairrada e irá perceber porque gosto tanto desta sande.

Rei dos Galos de Amarante

Rua das Taipas 121, +351 222 057 297

Arroz de cabidela
créditos: Nelson Carvalheiro

Se quiser perceber plenamente a gastronomia portuguesa terá de visitar este sítio obrigatoriamente. Porquê? Fácil. Porque neste pequeno restaurante gerido por uma família, poderá experimentar petiscos únicos que caracterizam a gastronomia do Norte de Portugal. Desde perna de cabrito assada, dobradinha, pato assado e à joia da coroa: arroz de cabidela – guisado de galinha caseira com arroz, temperado com o sangue da mesma, e vinagre. Não soa tão bem com sabe, mas acreditem, é uma verdadeira delícia. Para experimentar este manjar dos deuses, tem de encomendar o prato com dois dias de antecedência, pois a galinha está na quinta dos donos, Rodrigo e Maria Rosa, em Amarante (a 60km do Porto). Tudo em nome de comida com qualidade! O sentimento familiar é fortemente cultivado e os clientes mais fiéis até têm os seus nomes bordados nos guardanapos.

Adega Quim

Rua da Madeira 226-230, +351 222433146

Salada de polvo
créditos: Nelson Carvalheiro

A Adega Quim é um pequeno espaço aberto há 50 anos e e é um "porto seguro" para aos viajantes famintos que chegam à estação de comboios de São Bento. Aqui os petiscos e as sandes dominam as opções do menu. Os panados - a versão portuguesa do schnitzel de Viena -, e claro, a omnipresente salada de polvo – polvo cozido, pimentos verdes e vermelhos, cebola, salsa e muito azeite. A minha sugestão é que se sente ao balcão e que não se assuste se lhe derem uma caixa de palitos para fazer de talheres. Se não for tão aventureiro, pode pedir para os petiscos serem servidos dentro de uma carcaça para levar (a minha versão favorita). Abre bastante cedo (às 6h00), por isso, se pernoitar, este é um bom sítio para ir.

Casa Aleixo

Rua da Estação 216, +351 225370462

Filetes de Polvo
créditos: Nelson Carvalheiro

Se perguntar a algum local onde pode comer os melhores filetes de polvo fritos, a resposta vai ser: na Casa Aleixo. Virada para a estação de comboios de Campanhã, não há como não ver e é um dever lá ir. Foi fundada por um senhor da Galiza, e depois comprada por Ramiro Gonçalves, sendo agora gerida pelo seu filho, também Ramiro. O Sr. Ramiro Gonçalves (pai) teve a ideia de fazer filetes de polvo fritos, e para assegurar a máxima qualidade ia diariamente à Póvoa de Varzim (35km a Norte do Porto) para comprar os polvos mais frescos. E a tradição mantém-se. Cada refeição é preparada no “laboratório” (a cozinha) e o vinho vem da "farmácia" (a adega). No final da refeição, será convidado a deslocar-se à “sala da tortura” para tomar café e pagar a conta.

Tasca da Piedade

Rua do Ouro 223, +351 226170206

Iscas de bacalhau
créditos: Nelson Carvalheiro

O nome atual é Adega Rio Douro (por estar virado para o rio), mas é conhecida por todos como Tasca da Piedade, nome da proprietária. Esta tasca também é famosa pelo seu fado vadio - música tradicional portuguesa cantada por não profissionais, todas as terças à tarde, das 16h00 às 19h00. Enquanto ouve a música, pode experimentar muitos petiscos portugueses, tal como moelas de galinha guisadas, croquetes de carne, bifanas, e a joia da coroa, iscas de bacalhau - lombo de bacalhau cozido envolto numa omelete de salsa. A simbiose entre a comida e a música é garantida, pois tudo aqui é feito com paixão. Se tiver sorte, ainda ouve o dono a cantar alguns fados.

Conga

Rua do Bonjardim 314-318, +351 22 2000113

Bifanas da Conga
créditos: Nelson Carvalheiro

Perto da Câmara do Porto encontra-se a Conga, mais conhecida como a Casa das Bifanas, e está aberta desde 1978. No menu pode encontrar muitas das delícias portuenses e portuguesas, mas tem de experimentar a especialidade da casa: a bifana. É uma sanduíche de carne de porco, em que a carne é cozinhada num molho especialmente picante. Este molho é a parte mais importante desta iguaria e a sua receita é um tesouro sagrado. Imagino que leve molho de tomate, cerveja, e uns pimentões ultra-potentes. Se gosta de comida picante, este é o seu lugar.

Casa Nanda

Rua da Alegria 394, +351 22 5370575

Rojões
créditos: Nelson Carvalheiro

A Casa Nanda situa-se na rua da Alegria e começou por ser uma tasca. Aqui encontrará algumas das tradições gastronómicas mais antigas do Porto. A chef Fernanda, cujo nome está pendurado sobre a porta, é uma senhora adorável e uma cozinheira de verdadeiro talento, que torna difícil deixar de fora qualquer prato do menu. Mesmo assim, a minha escolha final vai para os rojões – cubos de porco fritos com picles e batatas fritas. A carne é extremamente tenra e suculenta...

Adega Vila Meã

Rua dos Caldeireiros 62, +351 222082967

Cozido à portuguesa
créditos: Nelson Carvalheiro

O Sr. Armando e a Sra. Francisca são os donos de uma das joias escondidas da gastronomia portuense – a Adega Vila Meã. O restaurante encontra-se perto da estação de comboios de São Bento, e no seu interior poderá experimentar os intensos sabores portugueses: desde bacalhau e vitela guisada, a filetes de pescada fritos e porco grelhado. Além destas saborosas opções, o restaurante é conhecido pelo seu cozido à portuguesa – um marco da cultura da cozinha tradicional portuguesa. Este prato é preparado com carnes de primeira qualidade: enchidos, vitela e galinha, barriga de porco, toucinho, todo o tipo de carne fumada, e legumes, tais como couves, cenouras, nabos e batatas. As doses são enormes, por isso, lembre-se que esta seja talvez a única refeição do dia!

Taberna do Largo

Largo de São Domingos 69

Queijo caganita
créditos: Nelson Carvalheiro

Este lugar é relativamente recente, pois abriu em fevereiro de 2013, e situa-se na Ribeira, no Largo de São Domingos. Este restaurante ambiciona trazer para o Porto um pouco de cada região de Portugal. O seu foco está em produtores de pequena escala e em trabalhar diretamente com eles. As proprietárias, Joana e Sofia, têm conseguido uma ampla seleção de comida típica de todo o país. Há três coisas aqui que merecem atenção: o vinho, a muxama e o queijo. Muxama é atum fumado que vem do Algarve e bastante difícil de encontrar no Porto. Experimente com ovos mexidos e doce de tomate. A sua seleção de queijos cobre o país inteiro, incluindo os Açores e o queijo picante de São Jorge. Para mim, um dos queijos mais incríveis é o “caganita”. Um queijo amanteigado e saboroso de Alcains e que é servido aqui com azeite quente e ervas.

Taberna Santo António

Rua das Virtudes 32, +351 22 205 53 06

Pataniscas
créditos: Nelson Carvalheiro

Este pequeno restaurante familiar encontra-se ao lado de uma das mais bonitas vistas do Porto, no Passeio das Virtudes, e é gerido pelo Sr. Vítor e pela Sra. Hermínia. Toda a gente é tratada como família e a comida é feita com o coração. Língua de vaca assada, alheira grelhada e iscas fritas em molho de cebola são alguns dos muitos petiscos que a Sra. Hermínia prepara. Este é o melhor sítio do Porto para: bacalhau, pataniscas e mousse de chocolate. As pataniscas são feitas de ovo, salsa, farinha e bacalhau desfiado, e servidas com arroz de feijão. A mousse de chocolate é feita todos os dias pelo Sr. Vítor, na hora em que o último cliente sai do restaurante. Mas o que a torna tão especial? O facto de o Sr. Vítor não usar nenhum auxílio elétrico para o fazer, e de a sua receita ser um segredo dos deuses. Peça um shot de aguardente para acompanhar a mousse e vai perceber porque é que esta sobremesa me deixa louco.

Aviso: Este post foi publicado com o contributo de André Apolinário do Taste Porto Food Tours. As visitas guiadas ocorrem duas vezes por dia e os bilhetes custam aproximadamente 60 euros por pessoa.