Viajar até à Palestina era um desejo mais ou menos recente. Apareceu progressivamente à medida que crescíamos enquanto viajantes, a par do nosso interesse pela geopolítica do Médio Oriente. A religiosidade nunca foi o nosso forte. Viagens espirituais também não eram para nós, já que o que nos motivava eram as culturas e a “sede” de conhecimento.

Quando partilhamos com os meus familiares a ideia de uma viagem à Palestina, as reacções dividiram-se entre: “Isso é onde?” e um “hum” que nos deixou preocupados. Ao contrário de alguns, nós sabíamos para onde íamos. Sabíamos que se tratava de uma área conturbada, com confrontos constantes e que podiam eclodir do nada a qualquer momento. Partilhávamos a mesma resistência que outros. No entanto, esta resistência não nos impedia de partir. Até pelo contrário, esta resistência fazia-nos querer partir cada vez mais depressa.

Com um carimbo da Síria no passaporte, a entrada em Israel não foi fácil. Quase 5 horas de interrogatórios e esperas na fronteira e eis que chega o aval final “podem entrar”. Ficámos radiantes. Estávamos com um pé em Israel e, como tal, o outro já estava na Palestina. Apesar das advertências para não visitarmos alguns dos locais mais conturbados da Palestina, não conseguimos dizer não e lançámo-nos na procura de uma explicação para tantas advertências. Começámos pelos magníficos locais turísticos como o mar Morto, o mar da Galileia e o local de baptismo de Cristo, Nazaré, Jericó, Massada, Cesareia ou Jerusalém. Todos estes locais eram magníficos e preencheram-nos culturalmente, mas faltava algo. Faltava compreender a história e geopolítica desta região do globo.

Visitar Hebron foi a viagem ao coração da Palestina. Hebron é uma cidade palestiniana na Cisjordânia e é considerada o “epicentro” do conflito israelo-árabe. Mais do que visitar os monumentos, mesquitas ou túmulos, a viagem acontece nas ruas. Sentimo-nos viajar no tempo e no espaço ao mesmo tempo que descemos as ruas apertadas e apinhadas de comerciantes muçulmanos. Os cheiros nauseabundos dos esgotos, misturados com os aromas deliciosos dos doces árabes, concedem um carácter particular a esta cidade. Esta deverá ser uma das poucas cidades do mundo onde as vítimas da guerra nos convidam a visitar as suas casas e privar com as marcas do desrespeito entre os seres humanos. Os convites feitos nas ruas são aceites e nunca nos arrependemos de os aceitar. Cada porta aberta numa casa era uma porta para um mundo novo a descobrir, e que muito tinha para nos ensinar.

Palestina, viajar num Estado esquecido entre a guerra e a paz
créditos: Viajar entre Viagens

Viajar na Palestina foi uma lição de história, de vida e de geopolítica. Caminhar nos locais onde nasceram as três religiões monoteístas foi estranho. Pisar solo sagrado, carregado de religiosidade, foi uma sensação inebriante. Quanto sangue já foi derramado neste solo e quanto mais ainda será, até que a paz chegue a esta região?

Mas as verdadeiras lições de História e de vida aprendem-se nas ruas. Aprendemos o significado da palavra intolerância quando cruzámos as dezenas de postos de controlo para aceder ao Túmulo dos Patriarcas, em Hebron, e vimos as lojas fechadas a cadeados, e a forma como judeus e muçulmanos se provocavam mutuamente. Aprendemos a importância da palavra respeito quando vimos a desonra com que os colonos israelitas tratam os palestinianos que vivem em autênticos guetos criados na sua própria terra. Aprendemos o significado de solidariedade quando visitamos um campo de refugiados em Belém, criado em 1948, e que ainda hoje funciona. Aqui, os jovens rapazes mostram-nos orgulhosamente as dezenas de medalhas e taças que a sua equipa de futebol ganhou em torneios em Israel. Aprendemos o significado de força e perseverança quando visitamos o Túmulo de Yasser Arafat, em Ramallah, e sentimos a devoção de um povo.

No final desta viagem aprendemos muito mais do que História, cultura ou geopolítica. Aprendemos que viver é muito diferente de sobreviver. Os palestinianos sobrevivem na Palestina enquanto buscam um sonho. Um sonho que nós e muitos percebemos que dificilmente se irá realizar: uma Palestina livre. Mas será que os palestinianos deveriam esquecer este sonho? Foi o nosso sonho de conhecer o mundo que nos trouxe aqui. Quem sabe, o sonho de uma Palestina livre também se concretizará um dia.