Devido às fronteiras incrivelmente complicadas que dividem a região, muitos edifícios e ruas da cidade de Baarle estão localizados, simultaneamente, na Holanda e na Bélgica. Esta fronteira incomum ziguezagueia pela cidade, criando um enclave belga de forma irregular que contém parcelas ainda menores de terras holandesas. São pedaços de territórios holandeses no meio de uma território belga, que está dentro de um território holandês. Complicado? Um pouco.

No chão, é possível notar linhas marcadas com cruzes com as letras B de um lado e NL do outro. Essas marcações assinalam onde termina um país e começa o outro,  lembrando a todos que passam por elas que entraram noutro estado soberano.

É bastante comum que estas linhas atravessem edifícios ou passem, horizontalmente, em estradas, dividindo a propriedade pública e privada ao meio. Felizmente, a Holanda e a Bélgica estão localizadas no Espaço Schengen, o que significa que as suas fronteiras são completamente ininterruptas, permitindo aos viajantes (e residentes) percorrerem Baarle sem pararem para verificações de passaporte. De outra forma seria bastante complicado.

A cidade contém dois municípios separados, chamados Baarle-Nassau e Baarle-Hertog, que são administrados pela Holanda e pela Bélgica, respectivamente. Como as seções belgas ficam a cerca de cinco quilómetros da própria Bélgica, são coletivamente reconhecidos como um enclave. Para tornar as coisas ainda mais confusas, vários pedaços de terras belgas em Baarle que abrangem parcelas reivindicadas pela Holanda, o que cria enclaves dentro de enclaves.

Como é que isto aconteceu? Basicamente tudo começou na Idade Média, quando um duque do que agora é a Bélgica entregou território a outro nobre que controlava as terras ao redor da cidade holandesa de Breda. No entanto, o mencionado duque manteve algumas pequenas parcelas em Baarle, levando a disputas de fronteira, no século XIX, quando a Bélgica e a Holanda dividiram-se em dois estados-nação diferentes. Demorou mais um século para os dois países resolverem as fronteiras que passam por Baarle, levando à atual cartografia que mais parece uma colcha de retalhos.

Como a cidade existe essencialmente em dois países ao mesmo tempo, é governada por dois sistemas jurídicos diferentes. Ao longo dos anos, alguns moradores de Baarle descobriram - e depois aproveitaram - as muitas lacunas na lei que ocorrem quando moram na Bélgica e na Holanda em simultâneo. Por exemplo, um senhorio inteligente que queria reformar um prédio, mas não lhe foi permitido o planeamento da permissão da câmara holandesa de Baarle, contornou essa decisão acrescentando uma porta adicional ao lado belga da propriedade. Também é dito que os bares em Baarle continuariam a servir bebidas alcoólicas depois das horas previstas pelo licenciamento da Holanda, movendo, simplesmente as mesas e cadeiras para o lado da Bélgica, onde é permitido servir bebidas até mais tarde.

Embora a maioria das histórias relativas a confusões transnacionais em Baarle pareça relativamente inofensiva, nos anos 70, corruptos conseguiram lavar dinheiro dentro de um banco local usando o layout geopolítico único da cidade em seu benefício. Como a entrada e o cofre do banco estavam localizados na Holanda e na Bélgica, respectivamente, era impossível para as autoridades de qualquer um dos países conduzir investigações completas, sem sair das suas jurisdições nacionais. Por fim, a polícia holandesa e belga uniu forças e fechou o banco corrupto para sempre.

Felizmente, Baarle raramente testemunha esse tipo de atividade criminosa e a maioria dos residentes passa a vida a caminhar entre a Holanda e a Bélgica sem questionar as fronteiras complicadas da cidade.

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