O sonho de largar tudo e partir numa viagem longa era já antigo. Com o "bichinho" das viagens, Rui Daniel Silva já tinha visitado 102 países antes de dar início a esta aventura solitária com objetivos solidários. Há três anos visitou Bangladesh e ficou "completamente apaixonado pela pureza e ingenuidade deste povo", segundo explicou ao SAPO Viagens. A ideia estava definida: um dia iria fazer uma viagem longa e terminar no Bangladesh.

"Quando li o livro da Maria Conceição, entrei em contacto com ela dando-lhe os parabéns e proferindo que também eu tinha um certo carinho especial por este país. Quando lhe contei desta odisseia, ela sugeriu-me que criasse uma página no justgiving para tentar angariar fundos para as crianças da Fundação Maria Cristina, dando a conhecer ao longo da viagem a fundação na minha página do facebook: Backpacking with Rui Daniel" explicou.

Largar tudo e partir nesta aventura teve os seus momentos difíceis, afinal, e nas palavras de Rui Daniel, " o desmame da rotina, da família e dos amigos não foi nada fácil", no entanto acabou por se habituar, para realizar um sonho "um sonho fechado numa gaveta que queria muito concretizar."

A viajar totalmente sozinho, Rui Daniel anda muitas vezes à boleia, no entanto, conta que em África é muito difícil: "Quase toda a gente que para o veículo pede-me dinheiro." Os transportes públicos são a melhor opção, no entanto, é necessário sempre esperar até que fiquem cheios, antes de partirem para o seu destino. Sempre que tem oportunidade escolhe acampar :"Já acampei com algumas tribos no Burkina Faso e algumas vezes tenho ficado em casa de nativos."

De todos os 23 países por onde já passou, destaca aquilo que mais gostou: "Gostei imenso de Djenné no Mali, pela venustidade da sua Mesquita construída em terra e pelas diversas tribos que ali habitam."

No entanto, nem tudo na viagem é positivo e há coisas que marcaram Rui Daniel, de uma forma menos positiva. Uma dessas coisas é o trabalho infantil que ainda acontece "em muitos lugares, principalmente nas aldeias, onde as crianças têm de abdicar da escola para trabalharem na agricultura."

Ser do mesmo país do Cristiano Ronaldo ajuda

Embora muitas das pessoas o recebam bem, nem sempre é assim. Em alguns locais foi recebido de forma mais fria e teve alguma dificuldade com a abordagem, no entanto, o facto de ser português facilitou bastante o contacto com os habitantes locais.

"As maiores dificuldades que tive, foram o contacto com alguns povos mais frios, onde senti que não era bem-vindo, nomeadamente na Libéria e nos Congos. O que me 'safou' sempre, por incrível que pareça, é eu ser português, o país do Cristiano Ronaldo que muitos idolatram".

Atravessar o continente africano continua a ser uma aventura, a cada passo, sendo sempre uma incógnita. A improvisar a cada momento, seja a viajar entre dois países ou a encontrar um local onde ficar, o balanço da aventura é muito positivo, apesar dos vários percalços pelo caminho.

"Quando apanhei a malária ao longo desta viagem, ainda tive mais certezas, de que devemos concretizar os sonhos hoje e não deixar tudo para amanhã".

A Fundação Maria Cristina

A Fundação Maria Cristina pretende ajudar crianças dos bairros de lata de Dhaka, capital do Bangladesh, a realizar os seus sonhos, potenciando as suas capacidades.  A Fundação foi criada em 2005 por Maria Conceição, que trabalhava na época como hospedeira de bordo na Emirates Airline. Durante um dos seus voos fez escala em Dhaka, no Bangladesh, e visitou a zona dos bairros de lata de Gawair, perto do aeroporto. O que ali viu havia de mudar completamente a sua vida. Maria via a educação como uma arma poderosa para lutar contra a pobreza e então propôs-se a  acabar com a indigência, como o trabalho e os casamentos infantis, tendo conseguido persuadir três escolas privadas a admitir crianças de Gawair a um preço reduzido.

Tornou-se evidente, no entanto, que não bastava pagar as propinas – quando as crianças passavam a frequentar a escola, as famílias perdiam uma das suas fontes de rendimento. Começaram então a arrecadar fundos adicionais para ajudar as famílias mais carenciadas com artigos de higiene, comida, alojamento e transportes.

Podem acompanhar a aventura de Rui Daniel aqui e contribuir para o projeto aqui.