Vários urinóis foram colocados em locais públicos em Paris, nos últimos meses, como forma de combater o problema do ato de urinar nas ruas e as consequências desagradáveis disso. Mas, nos últimos dias, os manifestantes atacaram dois urinóis na Île Saint-Louis e perto da estação Gare de Lyon. Colaram pensos higiénicos e tampões manchados e, depois, bloquearam-no com cimento.

Foram deixadas várias mensagem que atacam as autoridades parisienses por encorajar os homens a aliviarem-se em espaços públicos abertos - numa cidade onde a amamentação pública ainda causa escárnio.

A polícia está a investigar já que nenhum grupo assumiu a responsabilidade e o grupo de protesto feminista Femen já veio negar o seu envolvimento. Ativistas pela igualdade e grupos de mulheres, junto com moradores e pais, reclamaram que os urinóis ao ar livre são sexistas e discriminatórios.

Sem barraca ou cobertura, os cinco locais experimentais exibem placas que mostram um homem, orgulhosamente, a aliviar-se em público. Mas não há facilidades extras para as mulheres.

As feministas alertaram que, com esta medida, as autoridades estavam a difundir a mensagem de que os homens possuíam as ruas e poderiam expor-se livremente em público. Algo em desacordo com o debate após o movimento anti-assédio #MeToo sobre como os espaços públicos devem permitir que as mulheres se sintam à vontade na rua.

Parisienses indignados com urinóis ao ar livre na cidade
Parisienses indignados com urinóis ao ar livre na cidade
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Gwendoline Coipeault, da organização feminista Femmes Solidaires, disse: "não são apenas os homens que ocupam o espaço público, mas também mulheres e crianças, que podem não querer ver os homens a urinarem publicamente. Esses urinóis são projetados para dar conforto aos homens e reforçar a ideia de que as mulheres não são bem-vindas no espaço público. É discriminação e reforça a ideia estereotipada e sexista de que os homens não podem controlar-se de forma alguma, incluindo as suas bexigas".

Gwendoline acrescentou: "eu não conheço uma mulher solteira que vá a Paris regularmente e que não tenha presenciado um homem a urinar em público - abertamente nas ruas ou no metro - o que reforça o sentimento de insegurança".

Coipeault disse que já existiam centenas de casas de banho públicas fechadas em Paris e que os homens deveriam ser encorajados a usá-las, assim como as mulheres, em vez de serem convidados a aliviar-se ao ar-livre.

Chris Blache, antropóloga e feminista, não se surpreendeu com os protestos contra os urinóis. "Francamente, esses urinóis são uma provocação para as mulheres", disse ela. "Não se trata de puritanismo, é sobre igualdade de género no espaço público".

Ela alertou que, longe de resolver o problema de micção de rua em Paris, os urinóis a céu aberto reforçaram a ideia de que era bom os homens exporem-se e urinarem em público, enquanto as mulheres ainda eram criticadas por amamentar nas ruas.

Blache, que aconselhou as autoridades de Paris sobre igualdade de género no planeamento urbano, disse que não estava a atacar a prefeita, Anne Hidalgo, mas sim o sexismo institucional das equipas técnicas que não pensaram na mensagem que estavam a passar.

Nos últimos dias, alguns comentaristas do sexo masculino sugeriram que as mulheres deveriam simplesmente usar os urinóis ao ar livre em pé com a ajuda de um funil. Blache descartou isso. "Se uma mulher fizesse isso, seria visto como uma provocação e certamente não como a simples necessidade de se aliviar publicamente depois de beber muita cerveja, como é visto no caso dos homens".

A polícia passou 5 mil multas para as pessoas que foram apanhadas urinando contra muros ou calçadas em Paris no primeiro semestre de 2018, quase todos eram homens. Mas com 450 casas de banho públicas espalhadas pela cidade, muitas  das quais abertas 24 horas por dia, as feministas disseram que os urinóis públicos extra, especificamente para homens, eram sexistas e desnecessários.

Chloé Humpich, da prefeitura de Paris, insistiu que a cidade está comprometida com a igualdade de género. "Paris nunca promoveria uma medida que discriminasse as mulheres. Lamentamos que esses urinóis tenham sido danificados. Ouvimos as críticas e estamos conscientes em levar em conta as opiniões das mulheres".

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