"A Barrinha dá-me pena, foi um pequeno prazer que nos tiraram", resume Graça Mestre, que minutos antes tinha manifestado orgulho numa praia que elogia pela sua beleza e limpeza, e pela simpatia dos habitantes locais.

Emigrante em França, Graça, que fala com saudade dos tempos em que os mergulhos no mar de Mira eram temperados pelaS águas mornas da Barrinha, onde existia uma prancha de saltos e onde os dias eram passados a remar ou a pedalar nas gaivotas.

Hoje, a Barrinha está assoreada e infestada por jacintos de água. Já ninguém nada na Barrinha, a prancha foi há muito retirada e só permanecem as gaivotas a pedais, cuja movimentação está fortemente condicionada pela vegetação.

"A Barrinha era um espetáculo", recorda João Costa, aposentado de 62 anos, que cresceu a nadar e a pescar na lagoa. Confrontado com a possibilidade de uma dia voltar ter a Barrinha limpa e desassoreada, o ex-funcionário público reage com entusiasmo: "Era espetacular".

O presidente da câmara de Mira, Raul Almeida, partilha da mesma vontade de recuperar o mais antigo ex-líbris do concelho, mas é mais cauteloso. O autarca prefere falar do esforço para manter a praia em condições de ano após ano receber o galardão de qualidade ambiental Bandeira Azul.

"O segredo do sucesso da Praia de Mira é muito trabalho, muito empenho de toda a comunidade, não só da câmara municipal. A câmara desenvolveu um trabalho ao longo destes anos exemplar, todos os funcionários se envolvem na Bandeira Azul, nas questões ambientais, mas a própria população em geral tem um grande orgulho", resume.

Igual opinião tem o comerciante Luís Grosso, um dos proprietários de um dos mais procurados bares da marginal da praia: "O segredo da Praia de Mira é a limpeza, o que tem sido feito tem sido bem feito. A praia tem sido desenvolvida para melhor, nota-se na adesão dos turistas".

Luís Grosso revela outra característica que considera ser essencial para o sucesso da praia: "As pessoas são muito acolhedoras e isso é muito bom para quem cá vem".

Na Praia de Mira trabalha-se ao longo de todo o ano para manter a Bandeira Azul. Nas escolas do concelho as crianças envolvem-se num projeto ambiental denominado "as azulitas". Há máquinas do exército a abrir caminhos florestais, a revolver e limpar as areias da praia para que tudo esteja sempre apresentável. E depois há ideias que ano após ano são testadas com o objetivo de tornar a visita mais agradável e levar os turistas a voltar, mesmo fora de época.

"Fomos a primeira praia com ‘wi-fi’, depois com biblioteca de praia, medidor solar no ano passado", enumera Raul Almeida. Para este ano, a câmara oferece um reforço dos nadadores salvadores e uma novidade absoluta: um carro que vai percorrer a marginal e que faz no local uma avaliação imediata sobre a eficácia do protetor solar aplicado pelos banhistas. E em conjunto com a Universidade de Aveiro, a Praia de Mira vai monitorizar os agueiros (correntes de retorno) de maneira a aumentar a segurança dos banhistas.

E a Barrinha?: "O que se passa com a Barrinha é um bocado contraditório, mas há um caminho longo que foi percorrido", responde o autarca.

Raul Almeida lembra que em setembro arrancam as obras de desassoreamento, depois de uma longa batalha administrativa. Só depois das obras estarem concluídas, lá para meados de 2018, será estudada uma solução para a infestação dos jacintos de água, que até aqui tem vindo a ser combatida pela própria população ribeirinha, que se organizou numa associação ambientalista apoiada pela autarquia.

O autarca promete estudar uma solução, em articulação com a Universidade de Coimbra, mas só depois do desassoreamento. E não antecipa qualquer data para a resolução do problema. "Não sei quanto tempo. É um dos meus objetivos".

E será que algum dia a Barrinha vai voltar a ter banhistas, recuperando a importância de outros tempos? "Não sei se em termos ambientais algum dia vamos conseguir, é difícil que isso venha a acontecer", reconhece o autarca.

Fonte: Lusa/Foto: Henrique Matos @Wikipedia

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