Equipada com quarto, casa de banho, cozinha, televisão, água quente e energia obtida através de painéis solares, a autocaravana permite a este casal de reformados de Torres Vedras viver semanas ou meses “com todas as condições”, desfrutar da natureza, conhecer o país, não ter horários para cumprir, evitar hotéis e fazer amizades ao longo dos anos.

“Esta já é a segunda autocaravana que tenho. Gosto de praticar autocaravanismo, porque é uma liberdade total. Como estou reformado e a minha esposa também gosta muito, optamos por andar com autocaravana e apreciar a natureza: hoje estamos aqui, amanhã vamos para o Algarve, noutro dia estamos noutro lado: é, de facto, uma liberdade total”, diz à agência Lusa o antigo comerciante de fruta, de 64 anos.

No parque de terra batida e seca pelo sol, disponibilizado pela Junta local, estão mais de 20 de autocaravanas ou caravanas (carro com reboque), muitas com matrícula estrangeira.

João Ramos conta que no último fim-de-semana o espaço estava lotado, uma realidade cada vez mais frequente, pois o número de praticantes deste “modo de vida” está a crescer.

“Só é pena que as nossas autoridades não olhem bem para o turismo itinerante, porque deixa dinheiro em todo o lado. Uma autocaravana, normalmente, tem duas pessoas. Cem autocaravanas são mais de 200 pessoas que estão naquela localidade, e têm de gastar pão, leite, vão muito a restaurantes e tudo isso leva dinheiro às povoações. E há zonas muito pobres, mais do interior, aonde as autocaravanas dão movimento”, vinca o sexagenário.

O pó levanta-se e o silêncio é quebrado pela chegada de outra autocaravana, enquanto na outra ponta do parque está um casal sentado à volta de uma mesa, protegido pelo toldo.

Vanessa Marcelino, 29 anos, e o marido, rumaram de Lisboa na autocaravana dos pais para aproveitarem umas férias. “Não temos um destino certo, acaba por ser mais vantajoso em relação a preços de hotel, não ficamos tão presos ao mesmo sítio e viajamos. Acaba por ser compensador, conhecemos vários sítios e o alojamento acaba por ser mais barato”, afirma a educadora de infância.

A jovem reconhece uma maior abertura de algumas localidades na receção e na criação de condições para os autocaravanistas, mas bem perto dali já vivenciou o contrário.

“Em [Vila Nova de] Mil Fontes acabámos por ser corridos ainda esta semana. Começaram a pôr grades e os autocaravanistas tiveram de vir todos embora. Aqui em Porto Covo somos bem acolhidos, acabamos por movimentar a vila e temos aqui tudo”, explica a professora.

A cerca de três quilómetros, junto a uma falésia, encontram-se mais autocaravanas. Uma das quais pertence a Fernando Santos, reformado, emigrante em França. Acompanhado pela mulher, aproveita a vista para o mar para pôr a leitura em dia e desfrutar da paisagem.

Autocaravanista há mais de duas décadas, o antigo condutor de autocarros, de 60 anos, considera que as pessoas e as autarquias portuguesas estão mais sensibilizadas para este “fenómeno”, que é praticado sobretudo por uma “classe média alta”, a partir dos 60 anos.

“Comecei cedo, há pessoas que começam cedo, mas a maioria são reformados e estrangeiros. Em Portugal ainda há pouco, a maioria que se vê são franceses e alemães, mas já se começam a ver algumas autocaravanas jeitosas em Portugal, e os portugueses que vejo são de uma idade mais jovem. É agradável ver isso”, refere, com um sorriso.

Ao lado está Maria Angelina, também emigrante em França e que vem habitualmente com o marido a Portugal de autocaravana. “Estávamos a pensar [comprar] cá uma casita, mas depois, para ficar sempre no mesmo sítio não dava. Assim, comprámos uma autocaravana para podermos andar a conhecer de Portugal. Faço Portugal do alto a baixo, de trás para a frente”, conta a emigrante.

Um fenómeno em crescimento


A prática do autocaravanismo está a crescer em Portugal e estimam-se entre 4.000 a 5.000 as autocaravanas nacionais que já circulam pelas estradas do país, um segmento do turismo que reclama mais legislação e melhores infraestruturas de apoio.

Autocaravana
créditos: Lusa

“Na Europa estarão em circulação perto de dois milhões de autocaravanas. Em Portugal não existe registo oficial da viatura autocaravana, mas calcula-se que serão entre 4.000 e 5.000. O crescimento destes valores (na Europa e em Portugal) andará pelos 15% ao ano”, diz à agência Lusa o presidente da Federação Portuguesa de Autocaravanismo (FPA).

José Pires frisa que o autocaravanismo, conhecido como "turismo itinerante", é um segmento do mercado turístico “em franco desenvolvimento” e projeta que neste ano se ultrapassem os dois milhões de dormidas - cerca de 5% do total de dormidas turísticas no país.

“Em Portugal, anualmente, o número de dormidas já ultrapassarão os dois milhões, de que resultarão mais de 100 milhões de euros vertidos diretamente no comércio e restauração dos locais visitados. É possível pensar num forte incremento destes valores de forma sustentada”, defende o presidente da FPA.

Mais de 80% destes dois milhões de dormidas são de estrangeiros que visitam o nosso país que, à semelhança dos autocaravanistas nacionais, preferem as épocas média e baixa e optam por viajar ao longo da costa portuguesa, nomeadamente no litoral alentejano e Algarve.