A mochila já estava preparada há alguns dias. Numa noite quente e abafada de Julho, o dia tão esperado chegou. O desafio era fazer, por terra, a Rota da Seda e pisar os caminhos de Marco Polo, atravessando o império turco e persa, cruzando desertos e desfiladeiros, até alcançar o território tártaro embelezado por cidades míticas uzbeques como Samarcanda ou Bucara. Pela frente ainda surgiriam passos legendários de montanha, bazares fervilhantes, o deserto de Taklamakan, a Grande Muralha da China e finalmente a China Imperial cujo coração, em Xian, esconde alguns dos segredos desta misteriosa rota.

O espírito aventureiro de Marco Polo já vinha de família. O seu pai e tio, mercadores que faziam negócio em Constantinopla, actual Istambul, já se tinham aventurado por terras das hordas mongóis, tendo passado 3 anos em Bucara, e tendo sido convidados por um enviado do Grande Khan, Khubilai, que nunca tinha visto “latinos”, a visitar o extremo oriente. Marco não os acompanhou. Era muito jovem.

Rota da Seda
Samarcanda créditos: Viajar entre Viagens

Foi em Istambul que também demos inicio à nossa viagem. Sentimos os cheiros das especiarias e dos chás, aprendemos de onde provinham, que trajecto tinham feito e o que significavam para os hábitos locais. Aí embarcamos a bordo do Expresso Transasiático, cruzando rios, planaltos e o magnífico lago Van, ladeado de montanhas. O comboio levou-nos até ao Irão, a antiga Pérsia. Observamos o sol a pôr-se nas nossas costas, do lado europeu. Pela frente, o desconhecido, uma Pérsia envolta em segredos e uma Tártaria cheia de lendas e mistérios.

Em 1271, o pai e o jovem Marco, que teria 17 anos de idade, empreenderam uma grande viagem para oriente, tentando evitar territórios envolvidos na guerra fratricida entre os descendentes de Genghis Khan, e por isso atravessaram a Pérsia para sul, até Ormuz, decididos a seguir de barco até à China. Mas as condições dos barcos aí atracados não lhes inspiraram confiança, e acabaram por mudar de ideias. A continuação da viagem fez-se sempre mais pelo sul da Ásia Central, evitando zonas mais a norte devastadas pela guerra. Entre o atravessar de terreno montanhoso e difícil, a doença prolongada de Marco, e a espera da melhor época para atravessar a cordilheira de Pamir, terão chegado a Kashgar em 1274 ou 1275.

Nós também seguimos os passos de Marco Polo e, no Irão, a simpatia e generosidade das suas gentes marcaram a viagem. Teria Marco Polo sentido o mesmo quando por aqui passou? Descobrimos em Ormuz um Irão carregado de olhares enigmáticos, muitos deles escondidos atrás de véus e máscaras.

No Turquemenistão, Uzbequistão e Quirguistão poucas referências encontrámos a Marco Polo. Cidades como Bucara, Khiva e Samarcanda receberam-nos de forma glamorosa, ostentando edifícios deslumbrantes e fazendo-nos viajar no tempo. Também o jovem Polo terá passado por aqui. No Quirguistão, as mesmas montanhas que atrasaram Marco Polo e o seu pai ainda constituem uma barreira. Hoje são mais fáceis de transpor mas a beleza das montanhas é avassaladora. Yurts centenárias povoam estepes e planaltos verdejantes, os jaillos, sempre próximas de um lago que espelha os picos montanhosos.

Quirguistão
Quirguistão créditos: Viajar entre Viagens

Chegados à corte da China Imperial, Marco Polo impressionou tanto o imperador, que acabou por adquirir uma posição importante administrativa ou militar, fazendo várias viagens a mando do imperador, nomeadamente ao que é hoje o sul da China e sudeste asiático.

Kashgar foi também a cidade que nos recebeu na China, com o mesmo magnífico mercado de gado que viu passar Marco Polo. Esta região da China parece ter parado no tempo. Ao contrário de Marco Polo, nós seguimos pela Rota Norte do deserto de Taklamakan, ladeando o deserto durante dias com algumas incursões às suas magníficas dunas de areia, onde descobrimos templos e grutas budistas, ruínas de cidades gloriosas que definharam com o passar dos tempos e a Grande Muralha da China, a porta da China Imperial.

Com o imperador chinês a chegar a uma idade avançada, Marco Polo acabaria por decidir regressar à sua cidade natal, 24 anos mais tarde, fazendo grande parte da viagem por mar. Pouco tempo depois, Marco Polo participaria numa batalha naval entre Veneza e Génova, e terá sido feito prisioneiro. É na prisão que relata a um companheiro de cela, de seu nome Rustichello, as suas memórias, talvez certificando-se que sobreviviam às tribulações que o assolavam. Nos séculos que passaram, este registo foi glorificado por uns, e posto em causa por outros, mas a verdade é que é um relato precioso, especialmente da China governada por Khubilai Khan. Finalmente, o testemunho de Marco Polo é algo que ainda hoje é pouco usual: a China vista, de dentro, por olhos conhecedores, mas estrangeiros.