Quando se pensa na Gronelândia pensa-se em temperaturas extremas, em grandes icebergs e calotes de gelo polar, mares cobertos de gelos permanentes, por onde um quebra-gelo tenta abrir caminho para chegar a um lugar isolado e inóspito. A Gronelândia pode ser tudo isso, mas pode também ser muito mais.

Um território da dimensão da Gronelândia (2 175 600 km2) encerra um conjunto diversificado de biomas, resultantes da sua localização geográfica no coração do Ártico. O sul da Gronelândia tem uma latitude inferior à da Islândia pelo que permite o desenvolvimento de vegetação mais exuberante e florida nos meses de verão. Foi esta Gronelândia que os vikings nórdicos encontraram, com campos verdejantes e coloridos e um mar azul-turquesa que entra pelos fiordes recortados, rodeados de montanhas com picos gelados. Terá sido por isso que chamaram a este local “Greenland”, a terra verdejante.

Face às suas características naturais, o sul da Gronelândia é assim o local ideal para realizar treks e conhecer lentamente uma região tão inóspita do planeta Terra. O verão é uma escolha natural: os dias são maiores, as temperaturas são agradáveis durante o dia e bastante suportáveis durante a noite, a presença do sol é praticamente constante, e as flores e as pastagens tornam o ambiente idílico.

Gronelandia
créditos: Viajar entre Viagens

Narsarsuaq foi a nossa porta de entrada para conhecer esta região, permitindo conseguir aqui tudo o que necessitaríamos para 10 dias de trek. Não há mais do que 140 habitantes no povoado, mas estranhamente há um aeroporto internacional. A explicação está na existência de uma antiga base militar norte-americana que aqui existiu na II Guerra Mundial e ainda durante a Guerra Fria. Os americanos há muito que foram embora mas deixaram ficar as infra-estruturas que hoje recebem os locais e alguns turistas.

Tendo como base Narsarsuaq, acedemos a um dos maiores glaciares do sul, subindo por trilhos íngremes e por vezes equipados com cordas fixas, caminhando sobre gelos glaciares e até explorando lagos e fiordes. Mas para ter uma ideia mais real desta região, sentimos necessidade de sair com a mochila às costas, embrenhar-nos nos fiordes e montanhas, cruzar rios e gelos.

E ainda bem que o fizemos. Foram dias maravilhosos, sempre acompanhados pela máquina-fotográfica, que um dia eternizará as nossas memórias, a tenda, e alguma comida. Descobrimos povoados encantadores, alguns com menos de 10 habitantes inuits, e que quando nos viam aproximar escondiam-se nas suas casas e nem pelas janelas se atreviam a olhar. Conhecemos quintas agrícolas, em locais igualmente pequenos e idílicos, onde não havia mais de três ou quatro casas, nem se via viva-alma. Aqui, os inuits ter-se-ão provavelmente escondido antes que os tivéssemos visto. Chegar a estes povoados foi um prazer. As habitações coloridas ponteavam aqui e ali os campos verdes, voltadas para o azul do fiorde. Igaliku ou Nunataaq são apenas alguns dos povoados que ficarão para sempre na nossa memória.

Gronelândia
créditos: Viajar entre Viagens

Ainda que bem longe dos gelos polares, o manto de gelo da Gronelândia estende-se até ao sul da região e há vários glaciares ativos, descarregando para os fiordes centenas de icebergs por dia. É encantador acampar no Blue Ice Camp, de frente para o fiorde gelado de Qooqoot, ou em Tasiusaq, de frente para o fiorde homónimo, ambos completamente atolados de icebergs. O sul da Gronelândia permite assim ter o melhor de dois mundos: o calor e sol do verão durante o dia, e ainda glaciares e icebergs espalhados nos fiordes.

Das margens dos fiordes, ouve-se o barulho do gelo a partir no mar, acompanhado de um tilintar de bolhas de oxigénio que se soltam na água. Estas bolhas estão aprisionadas no gelo há milhares de anos. O que já terão visto passar por aqui? Terão testemunhado grandes alterações climáticas? Terão elas também uma história para contar? Acreditamos que sim. Se soubéssemos escutar e compreender, elas teriam tanto para dizer...

Decidimos vê-las mais de perto. Num kayak percorremos o fiorde gelado de Tasiusaq em busca dos grandes icebergs que vêm diretamente do manto de gelo. Que espetáculo grandioso que a natureza proporciona. A natureza, foi ela que nos trouxe aqui, que nos faz vibrar, que nos enche a alma. Aqui, longe de qualquer tipo de urbe, as notícias não têm importância, o mundo parece um lugar perfeito. Talvez seja a falta de presença humana que nos leva para estes sentimentos. Essa é uma das grandes vantagens da Gronelândia: tem pouquíssimos habitantes e passamos dias de caminhada sem ver ninguém pelo caminho, apenas ovelhas.

Cruzar os fiordes gelados e cobertos de icebergs foi maravilhoso, mas alcançar um povoado inuit onde se é recebido de braços abertos também o foi. Foi assim em Silissit, onde uma jovem inuit nos recebeu e ofereceu dormida. O calor na Gronelândia é difícil de encontrar, mas também o há, inclusive o calor humano.

Depois de quilómetros percorridos, trilhos caminhados, rios e fiordes cruzados, quer de barco, quer de kayak, chegávamos a Narsaq, uma povoação com categoria de urbe à escala da Gronelândia. Há imensa gente na rua, há um supermercado e um mercado de peixe que vende carne de baleia e de foca, a base gastronómica da Gronelândia. A povoação tem 1300 habitantes e vêem-se muitas crianças e bebés. São simpáticos, aproximam-se e cumprimentam com uma agradável “haaluu”. O ar que respiramos durante os dias de trek renovaram-nos o oxigénio dos pulmões, mas este ar que se respira em Narsaq também nos renova o espírito, e recuperamos energia para novas aventuras.

Esta crónica de viagem foi escrita pelo Viajar entre Viagens durante uma viagem no Ártico.