Em 2012, Kristin Addis, norte-americana a trabalhar na área financeira, decidiu despedir-se e tirar um ano sabático. Comprou um bilhete só de ida para o Sudeste Asiático e, desde aí, não parou de viajar e escrever, duas das suas grandes paixões. Fundou o blog Be My Travel Muse onde relata as suas aventuras (quase sempre sozinha) e dá dicas a viajantes. "Construí o meu negócio à volta do blogging, escrita de livros, fotografia e vídeo", conta por email ao SAPO Viagens.

Com apenas 23 anos e a trabalhar entre 50 a 60 horas por semana, Matthew Kepnes decidiu ir de férias para a Costa Rica apenas como turista. Viajar era, na altura, algo que pouco ou nada entusiasmava este jovem. Mas esta e a aventura seguinte à Tailândia despertaram algo que até então desconhecia.

"Aquela viagem mudou completamente a minha vida. Abriu-me para um mundo cheio de possibilidades. Na Costa Rica tive contacto com outras culturas, perdi-me na selva, conheci projetos de conservação e conheci gente de todo o mundo", escreve no blog Nomadic Matt. Após completar um MBA em 2006, Matthew decidiu juntar-se a cinco backpackers (viajantes de mochila às costas) e começar a sua aventura pelo mundo onde incluía o diário de viagens online.

Uma situação profissional amarga na vida de Filipe Morato Gomes, um dos primeiros bloguers portugueses de viagens, levou-o ao 'clique'. "É agora". Em 2003, este então especialista multimédia foi despedido, mas não se deixou levar pela amargura. "O dia que poderia ser de tristeza e depressão transformou-se num dos mais importantes da minha vida", conta no seu projeto Alma de Viajante. Durante um ano poupou o mais que pôde, fez pequenos trabalhos como freelancer com vista à sua primeira grande aventura. Em julho de 2004 partiu para a primeira volta ao mundo (entretanto já realizou uma segunda) e, desde aí, viajar e relatar as suas viagens é a sua principal ocupação profissional.

"As pessoas pensam que estou sempre de férias mas isto não é verdade, de todo"

Se há algo comum nestes viajantes é o facto de os dias nunca serem iguais, passarem uma grande parte das suas vidas em viagem, e nenhum ser particularmente rico, especialmente quando começaram os seus projetos. Quando começou a viajar Kristin vivia sobretudo de poupanças, dinheiro dos bens pessoais que chegou a vender e de alguns trabalhos como freelancer. "Nos primeiros dois anos ganhava muito menos e às vezes nada", acrescenta. Atualmente, as receitas de publicidade do blog, do livro que editou em 2015 e o trabalho com associações e marcas ligadas ao turismo já lhe permitem um rendimento equiparado aos tempos como bancária, o que constitui "algo raro para um bloguer de viagens", denota.

Dizem os entendidos que fazer o que se gosta é parte de uma carreira bem-sucedida. Mas viajar, escrever sobre isso e ser pago para o fazer é tido como algo ainda só acessível a muito poucos. Será então possível viver só de viagens e escrita? Susana Ribeiro, jornalista e autora do blog Viaje Comigo, conta que essa é, aliás, das primeiras coisas que toda a gente quer saber. "Já costumo responder, meio a brincar, que ninguém me perguntava isso quando trabalhava para quatro meios de comunicação ao mesmo tempo para poder pagar as contas...", afirma ao SAPO Viagens. Fazendo parte dos "90% de jornalistas para os quais a profissão não compensa em termos monetários", a jornalista consegue, no entanto, assegurar rendimento suficiente para pagar as contas através da publicidade no blogue e outras colaborações mais esporádicas.

Sinais de que está viciado em viajar
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De igual modo, Filipe Morato Gomes destaca a incerteza monetária e flexibilidade. "Como qualquer trabalhador independente, nunca sei quanto vou ganhar no fim do mês mas, juntando os projetos online - como o Alma de Viajante e a Hotelandia -, os workshops de Escrita de Viagens e o trabalho como líder Nomad, consigo viver das viagens. E esta liberdade não tem preço…", explica.

O bloguer opta por "viajar de forma independente". Não produz conteúdo patrocinado bem como reviews de produtos e/ou serviços e o blog não contém banners publicitários. O 'nómada digital' recebe uma pequena comissão de cada vez que os utilizadores seguem os links disponibilizados no seu blog para fazer as reservas de viagens ou através dos pequenos banners publicitários das suas newsletters. "Ganho menos, mas durmo melhor. E os leitores podem confiar que tudo o que escrevo é sincero e de coração, e não porque me pagam para o escrever", esclarece na sua página.

Mas antes de uma grande aventura há sempre uma fase de preparação. Todos estes projetos são planeados e pensados com bastante antecedência, como a marcação de viagens e alojamento, preparar roteiros, redes sociais e escrever, escrever, escrever.

"Como tenho o meu próprio projeto, sou eu que trato de tudo: programação de viagens, parcerias, escrever, fotografar, filmar, editar e publicar numa mão cheia de diferentes redes sociais", explica Susana Ribeiro. São tarefas que ajudam a desmistificar uma vida livre de problemas e preocupações.

Na verdade, para Kristin, o que no início não passava de uma aventura é agora um trabalho com as responsabilidades como qualquer comum dos trabalhadores. A bloguer assegura, inclusive, que trabalha mais horas do que no seu anterior cargo. O seu site emprega cinco trabalhadores em regime de part-time, cujos salários terão de ser assegurados, para além de toda a burocracia relacionada com as reservas e roteiros e a produção de conteúdos durante e após as viagens. "As pessoas pensam que estou sempre de férias mas isto não é verdade, de todo. Eu trabalho muito!", diz ao SAPO Viagens. Algo que é também familiar a Filipe Gomes. "Trabalho muito mais do que num emprego 'normal' (mas com prazer)", consente. E tal como todas as profissões há "dias menos bons, acrescenta Susana. "Às vezes, semanas e meses menos bons...".

“Não é preciso ser-se rico para viajar” 

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A variedade de blogues e projetos que aliam o lado pessoal e profissional criam a ideia de que cada vez é mais fácil viajar. Matthew Kepnes chega a ser taxativo: “não precisas de ser rico para viajar”. Este é, aliás, um dos objetivos do seu blog e best-seller How To Travel the World on 50$ a Day [Como viajar pelo mundo com 50 dólares por dia].

Segundo o próprio explica, o Nomadic Matt faz promoção só a marcas utilizadas pela equipa e não inclui conteúdo patrocinado ou viagens pagas, daí o rendimento disponível não ser necessariamente elevado. Kepnes viaja de mochila às costas, dorme em alojamentos baratos, utiliza sempre que pode os transportes locais e aproveita qualquer promoção e desconto para viajantes. "Fazemos exatamente como tu farias (...) enquanto viajantes procuramos olhar o mundo e ajudar os outros a fazer o mesmo", salienta.

Susana Ribeiro partilha desta mesma ideia. Desde o início o seu projeto em 2013 que tenta "ajudar os outros a explorarem mais Portugal e o resto do mundo". De acordo com a jornalista, a questão monetária não é o motor de quem optou por uma vida em constante navegação mas antes a realização pessoal. "O site Viaje Comigo deu-me a oportunidade de concretizar muitos sonhos, fazer muitas viagens, ajudar muita gente em viagem e a independência que eu queria em poder ter os meus horários. Isso, para mim, vale mais do que muito dinheiro", remata.

“Nunca mais gozar férias como antes e não conseguir desligar de tudo"

O comum do viajante viaja para se evadir mas este é precisamente um prazer que um bloguer de viagens tende a usufruir cada vez menos. "A maior desvantagem é nunca mais gozar férias como antes e não conseguir desligar de tudo... quando estou em algum sítio já estou a pensar no quão interessante isso pode ser para os meus leitores. Estamos sempre a trabalhar", lamenta Susana Ribeiro. Para Filipe Gomes, "o equilíbrio entre a vida familiar e a paixão pelas viagens é o principal drama quotidiano. Alguns olham para esta profissão com "alguma inveja e um romantismo exagerado. Para muitos, é uma vida de sonho, em que tudo é pintado a cor-de-rosa. Mas não é", esclarece o blogger português.

Apesar da liberdade e flexibilidade de poder trabalhar em qualquer parte do mundo, Kristin acrescenta outros pontos negativos. "Não tenho um salário fixo mas mesmo assim tenho um sempre um grande peso em cima dos meus ombros, e o facto de sacrificar a minha vida pessoal por não ter muita estabilidade. Mesmo apesar disto, acho que continua a valer a pena!", afirma a bloguer norte-americana. "Dá muito trabalho, mas dá um gozo enorme saber que incentivo de facto outros a viajarem mais", complementa Susana Ribeiro.

Os diferentes bloguers têm em comum um cunho pessoal que os identifica num meio onde os projetos de viagens são cada vez mais abundantes e menos distintivos. Kristin escreve, sobretudo, para mulheres que gostam de viajar; Susana Ribeiro ajuda outros descobridores a explorarem o mundo, com algum destaque para Portugal. Por outro lado, Filipe Gomes aposta numa escrita completamente independente e Matthew Kepnes viaja sempre de mochila às costas. O segredo de um projeto bem-sucedido é aquele que traz "algo único e útil ao utilizador", recomenda, por fim, Kristin Addis.