Por Helena Simão

Menos turística do que São Miguel, a ilha do Pico, nos Açores, mantém ainda aquela aura de terra virgem por descobrir. Dominado pela imponente e arrebatadora montanha mais alta de Portugal com 2351 metros, este pedaço de terra, o segundo maior do arquipélago, cativa-nos de imediato pelas suas deslumbrantes paisagens. Ao longe, no horizonte, e dependendo do local onde estamos, o nosso olhar alcança as ilhas vizinhas de São Jorge e do Faial.

O silêncio bucólico é um dos seus trunfos e, mesmo que não houvesse muito para ver, a ilha merecia uma visita só pelas suas cores intensas e contrastantes, puras e tranquilas. Mas há. Terra e mar fundem-se numa arrebatadora viagem de sentidos que fica na memória de quem se sente um espetador privilegiado perante tamanha beleza natural.

Podemos iniciar esta aventura por mar com a ajuda da empresa do Norberto, homem de mar e de histórias, homem ligado à natureza e à terra, figura mítica da ilha. Foi o Frederico quem nos levou de barco, desde o cais da Madalena, à procura de baleias e de golfinhos. O mar estava sereno, pelo que a viagem correu tranquila, sempre de olhos postos no mar, na esperança de alcançar bufos, o ar que as baleias expiram e que faz uma espécie de repuxo. As coordenadas vêm de terra e estão a cargo dos vigias, colocados em pontos estratégicos da ilha para observarem estes mamíferos e, assim, poderem dar as indicações certas aos barcos que transportam os turistas curiosos.

São segundos preciosos que nos permitem ver estes cetáceos, que podem chegar aos 27 metros de comprimento, e que rapidamente se atiram para as profundezas do oceano, de uma cor azul escura. A espera pode ser longa, mas mal espreita para fora de água, a baleia, neste caso, a comum, é novamente apanhada pelos olhares deslumbrados e derretidos com os seus  movimentos elegantes. Já os golfinhos deixam-se ver com maior facilidade. Habitualmente são mais vaidosos e divertidos e parecem gostar de fazer parte das fotografias de família dos visitantes.

Voltamos a terra firme para encarar e enfrentar a dureza da montanha. A subida faz-se habitualmente com guias, mas quem dispensar esta ajuda, conta sempre com um GPS fornecido na Casa da Montanha, local de onde se inicia a subida. Primeiro, uns degraus e, a partir daí, apenas caminho e rocha e persistência, muita persistência. 

O percurso é longo e muito sinuoso, aconselha-se roupa adequada e calçado apropriado, para evitar escorregar. Ao longo do trilho, encontram-se 47 postes, que constituem uma espécie de passagem obrigatória e de contagem decrescente para a chegada à cratera ou ao Piquinho, a derradeira etapa.

Durante o percurso, a temperatura vai mudando. Abaixo das nuvens, pode estar sol, para depois, mais acima, ficar tudo nublado. Depois de passarmos a barreira das nuvens, o sol volta a brilhar e o céu parece ainda mais azul. A beleza da montanha é indescritível, tal como a sensação de ir ultrapassando as barreiras. 

Ao longo do caminho, encontramos outras pessoas, aventureiros, amantes da natureza, turistas de diferentes nacionalidades que descobriram a riqueza das nossas paisagens. Quase todos concordam: o mais difícil não é subir, mas, sim, descer. Primeiro, porque o corpo já está cansado, depois, porque obriga a maior força nos joelhos. O habitual é mesmo demorar mais tempo na descida. Para nós, a viagem ficou num total de oito horas e mais trinta minutos.

Depois de um dia tão intenso e exigente para o corpo, o ideal será reservar os dias seguintes para descansar nas piscinas naturais. Quando o sol aperta, a temperatura convida a um mergulho no Oceano Atlântico. A água pode parecer um pouco fria, de início, mas, depois, até sabe bem dar um mergulho naquelas águas tão límpidas e transparentes. Vale a pena conhecer as piscinas das Lages do Pico, Poça Branca, Criação Velha e de São Roque do Pico. 

Voltamos ao centro da ilha por estradas praticamente desertas para descobrir as lagoas do Capitão, Caiado e do Paúl, entre outras. De uma beleza rara estonteante, estes cenários, grande parte das vezes, envoltos num denso nevoeiro, merecem, sem dúvida, uma visita. 

Mas a ilha do Pico é também reconhecida pelo seu vinho. As paisagens das vinhas são Património Mundial da UNESCO, desde 2004, dada a sua dimensão histórica e económica. A cultura da vinha, aqui com características únicas, já que assenta na rocha basáltica, de origem vulcânica, remonta ao povoamento da ilha e mantém hoje praticamente os mesmos rituais.

Para proteger as plantações, foram construídos muros de pedra, cujos labirintos fazem as delícias dos visitantes. Os Lajidos da Criação Velha e de Santa Luzia constituem os melhores exemplos de uma arte tão antiga quanto única.

Terminamos a viagem como começámos, com as baleias. Para perceber melhor a importância das baleias para os Açores, sugerimos uma visita a um dos museus dedicados a perpetuar as memórias daquelas gentes com um passado profundamente ligado à caça da baleia e do cachalote, uma arte praticada até 1987, altura em foi proibida.

O museu dos Baleeiros, situado nas Lajes do Pico, é um lugar de história, de artefactos e de exemplos que mostram como era duro e, ao mesmo tempo, cativante, o modo de vida dos baleeiros. A caça era feita de forma artesanal e exigia muita coragem e valentia de quem se aventurava ao mar e não sabia se regressaria vivo a terra. 

Helena Simão é blogger do Starting Today